Traces quer surpreender pela simplicidade

Sem nenhum efeito tecnológico, espetáculo do Les 7 Doights de la Main tenta inovar unindo o comum e o extraordinário

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

13 Agosto 2008 | 00h00

Você vai ter a impressão de que eles se multiplicam no palco, tamanha versatilidade e ritmo adotados. Mas são apenas cinco dos "sete dedos da mão" em cima de um palco, que nos surpreendem com pulos, contorções, cambalhotas e giros no ar. Aos outros dois "dedos restantes", também diretores-fundadores Shana Carroll e Gypsy Snider, cabem mais a organização das idéias que, a julgar pelo espetáculo que trazem pela primeira vez ao País, Traces, que estréia hoje, não são poucas. A companhia Les 7 Doights de la Main (Os Sete Dedos da Mão) foi formada em 2002, em Montreal, Canadá, por sete ex-integrantes de algumas das trupes circenses de maior destaque da atualidade - entre elas, a mais rica do mundo, o Cirque du Soleil. Saíram de lá com vontade de, literalmente, se arriscar em novos vôos e montar uma companhia que, a princípio, destinasse seus shows a pequenas platéias e com características mais humanas. Shana explica: "Todos adoramos a experiência no Cirque du Soleil, mas já estávamos trabalhando por lá há um longo tempo. Os shows eram grandiosos e o toque individual que poderíamos acrescentar em cada espetáculo acabava se perdendo no todo. Tudo o que é apresentado no Soleil soa fantástico e as pessoas não reconhecem os artistas como seres humanos." A partir desse pressuposto e dispostos a inovar (ou renovar) o que se entende por arte circense, os jovens artistas, essencialmente acrobatas - os irmãos Francisco e Raphael Cruz, Brad Henderson, Heloise Bourgeois e Will Underwood, além de Shana e Snider -, criaram Os Sete Dedos para buscar uma relação harmônica entre o extraordinário e o ordinário. Isso significa aliar coreografias surpreendentes, que abusam de efeitos sobre-humanos sem usar quaisquer recursos tecnológicos, com discursos de artistas tão reais como nós, dentro de roupas comuns e um cenário mínimo. "Entre um número e outro, eles vão falar sobre eles mesmos, dar o mínimo de detalhes sobre suas personalidades, além de contar coisas que acontecem em suas vidas. O público se sente mais próximo e os vê como pessoas normais, que bem poderiam ser nossos amigos", conta Shana. Música clássica, rap, pop e rock embalam números certeiros de muitos aplausos, como o dos mastros chineses, onde os artistas exibem perfeito condicionamento físico ao segurarem barras verticais com as mãos e inclinarem os corpos no sentido contrário ao da gravidade. Ou ainda, ao darem saltos ornamentais por entre argolas de estreitas circunferências, todos juntos, extremamente coordenados - mas ainda assim, falíveis. "É claro que procuramos sempre fazer o melhor no palco, mas erros acontecem e os encaramos com naturalidade." Dos cinco integrantes do elenco, quatro ainda tocam piano ao vivo, durante o espetáculo. Os Sete Dedos querem deixar suas impressões encharcadas de tinta ao público brasileiro, numa grande mistura que deve agradar os sedentos por momentos do mais simples e puro deleite.

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