Louis Shadwick via The New York Times
Louis Shadwick via The New York Times

Trabalhos iniciais de Edward Hopper seriam cópias de outros artistas

Em pesquisa para sua tese de doutorado, Louis Shadwick descobriu que três das primeiras pinturas a óleo do grande artista americano, dos anos 1890, não devem ser consideradas obras originais

Blake Gopnik, The New York Times

30 de setembro de 2020 | 10h00

Muitos estudantes de história da arte sonham descobrir uma obra desconhecida de um grande artista que estão estudando. Louis Shadwick conseguiu exatamente o oposto: em pesquisa para sua tese de doutorado sobre Edward Hopper para o Courtauld Institute, de Londres, Louis descobriu que três das primeiras pinturas a óleo do grande artista americano, dos anos 1890, não devem ser consideradas obras originais. Duas são cópias de pinturas que Louis encontrou reproduzidas numa revista para artistas amadores publicadas anos antes dos trabalhos de Hopper. As reproduções apareceram até com instruções detalhadas para serem copiadas.



Louis Shadwick revelou sua descoberta na edição de outubro da Burlington Magazine, uma respeitada revista de história da arte. “Foi um trabalho de detetive”, disse Louis numa entrevista pelo Zoom, falando do seu apartamento em Londres. Aos 30 anos de idade, ele é mais velho que muitos dos seus colegas de graduação. E estava elaborando um estudo sobre as primeiras influências na obra de Hopper, tema do seu Ph.D, não concluído até agora – quando descobriu que um pintor americano chamado Bruce Crane (1857-1937) pode ter tido algum papel no trabalho de Hopper.

No que chamou de “momento Eureca”, pesquisando no Google, ele deparou com uma pintura de Crane, A Winter Sunset, em uma edição de 1890 da revista The Art Interchange. Era uma cópia perfeita de uma das obras de adolescente de Hopper, conhecida como Old Ice Pond at Nyack, de 1897, em que ele retrata uma paisagem de inverno com um raio de luz esmaecido. (Uma galeria está vendendo o quadro por um preço estimado de US$ 375 mil; essa mudança de status deve afetar as ofertas dos compradores).

Os estudiosos têm discutido a respeito dos primeiros quadros de Hopper como os que mostram sua casa de infância em Nyack, Nova York, tratando-os como exemplos do seu talento inato como jovem pintor autodidata. Mas na verdade nada disto é verdade – nenhum dos óleos de Hopper mostravam um talento para a pintura a óleo até ele ingressar numa escola de arte”, afirmou Louis Shadwick, acrescentando que “mesmo o manejo da pintura está longe dos trabalhos realizados por ele cinco anos depois disto”.

“É sempre fabuloso encontrar algo novo sobre um grande artista”, disse Carter Foster, vice-diretor do Blanton Museum of Art, em Austin, Texas e especialista de Hopper que organizou uma importante mostra das suas pinturas no Whitney Museum em 2013. Ele teve conhecimento do trabalho de Louis Shadwick depois de o encontrar num simpósio sobre Hopper e admira a profundidade da pesquisa de arquivos que o estudante realizou. E admite que a descoberta não o surpreendeu muito porque, antes do advento da arte moderna e suas liberdades, os artistas quase sempre começavam sua carreira copiando.

Para Kim Conaty, curadora do Whitney Museum, de Nova York, onde vem preparando uma grande exposição das obras de Hopper, a cópia que Louis revelou tem repercussões mais importantes. “Isto nos leva diretamente à percepção de Hopper como um autêntico americano” disse ela, - como um artista cujo gênio inato lhe permitiu surgir em cena sem dever nada a outros. “A única influência que tive foi eu mesmo”, ele afirmou certa vez.

Conaty disse que a descoberta de Louis Shadwick promete ser um elemento negativo numa discussão muito mais ampla sobre como analisar Hopper”. Louis vem criando exatamente essa discussão na sua tese de doutorado e partes do seu trabalho que eu li são muito promissoras.

Ele apresentou sua descoberta sobre os primeiros óleos de Hopper para a Burlington Magazine, disse o editor da revista. E o material faz parte de um projeto maior visando entender o contexto cultural a partir do qual o pintor evoluiu – “as coisas que ele estava vendo, que estava lendo, os jornais que sua família recebia, as revistas”, disse Louis.



Londrino, Louis deseja compreender a noção do que é “ser americano” em torno da qual Hopper cresceu e que cresceu depois em torno dele à medida que ele se tornou um artista reputado. E que ainda domina grande parte da discussão a seu respeito. Mas somos mais inclinados a supor ou afirmar que Hopper e sua arte são por excelência americanos em vez de indagar o que isso significava para ele e seu público, ou o que significaria para nós nos dias atuais.

Em nosso novo século, quando o lugar do país no mundo parece menos seguro a cada dia e quando até os americanos estão divididos quanto ao estado da sua nação – é preciso ser grande novamente ou é necessário encarar os erros passados? – um tesouro “nacional” como Edward Hopper parece suplicar por um novo enfoque.

“O que é essa característica de ser americano que as pessoas identificam? De onde vem, é útil como termo?” Shadwick disse que estas perguntas estão no centro do seu estudo do pintor. Talvez isso leve alguém de algum outro lugar a reconhecer o quão artificial e peculiar a identidade americana tem sido, e como Hopper estava diretamente envolvido na construção desse “ser americano” em sua persona e seu trabalho.

“Claro que existe muito talento e beleza, e tudo o mais”, disse Louis, que é um grande fã do pintor. “Mas há também uma consciência muito deliberada do seu lugar na história e do pretenso espírito americano das cenas que ele pintava”.

O jovem Hopper, deixando de lado as cópias, passou um longo período frequentando escolas de arte em Nova York e depois flertou por algum tempo com os estilos de arte e temas franceses. Mas quando uma exposição em 1915 de suas pinturas influenciadas pelos franceses foi muito criticada, exceto uma com uma paisagem urbana de Nova York, Hopper soube para onde se encaminhar. “Ele refina essas ideias do que significa ser um pintor americano”, disse Louis.

À medida que o país se fechava dentro de si mesmo no período entre as duas guerras mundiais, uma tendência “americanista” se fortaleceu mais do que nunca na cultura do país, e Hopper seguiu a corrente. Ele sabia exatamente o que estava fazendo para comercializar sua obra”, disse Louis. Como diz em sua tese, o fato de Hopper “se centralizar na experiência americana anglo-saxônica do homem branco, suas simpatias regionalistas pela Nova Inglaterra e sua aversão pelo modernismo estilo europeu”, tudo pode estar ligado a ideias e sentimentos a respeito dos Estados Unidos que eram amplamente alimentados na sua época.

Um aspecto desse “americanismo” envolvia a imagem do homem solitário – alto, taciturno, distante, como Hopper – bravamente forjando o seu caminho. Esta era exatamente a imagem de si mesmo que Hopper ajudou a propagar; mesmo depois da sua morte, se ele chegou a moldar a história, agora com a revelação de ter sido um mito, dos miraculosos óleos que ele supostamente pintou sem ajuda de ninguém.

A descoberta de Louis Shadwick sobre esses primeiros quadros também pode esclarecer as icônicas obras-primas, muito posteriores, de Hopper. Críticos e estudiosos sempre ficaram intrigados com a grosseria que ele se permitiu em muitas das suas pinturas clássicas: mares que parecem mais pintura do que líquido no seu famoso Ground Swell, a anatomia inapropriada do seu nu feminino em Morning in a City, ou os rostos duros dos clientes em Nighthawks.

Agora que sabemos que Hopper nunca foi um prodígio, podemos pensar a respeito de seus trabalhos posteriores como uma revisitação deliberada das limitações sua adolescência e encontrar virtude e poder ali. É um  comportamento clássico na cultura americana: ver o que é amador e o que é feito em casa como sendo mais autêntico – e especialmente como mais autenticamente americano – do que as sofisticações dos velhos europeus decadentes.

Ao retratar suas visões pioneiras da vida cotidiana do americano médio (ou como Louis disse, na América que Hopper ajudou a definir como mediana), o pintor escolheu um estilo cotidiano que o traz mais próximo da modesta ilustração comercial desta era do que dos velhos mestres. É como se, para estar inserido de verdade no seu tempo e lugar, e serem plenamente “americanos”, as vitrinas de lojas de uma cidade, ou as mulheres simples em quartos modestos devessem ser retratados de uma maneira pobre digna dos seus sujeitos, ou tão indigna quanto eles.

Se Hopper afirmava ser um pintor absolutamente original, não influenciado por outros, suas maiores obras procuram com afinco transmitir uma imagem do seu criador. Sua inépcia estudada nos pede para que o imaginemos como uma pessoa que pode realmente ter começado sua carreira copiando um outro artista – ou como o seu americano médio, trabalhando duro para ter sucesso.

Tradução de Terezinha Martino

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