Toscana, a voz rebelde do México

Escritor lança livro e diz que o muro que EUA constroem na fronteira é indigno

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2013 | 00h00

David Toscana é a voz do México contemporâneo, atordoado com o descompasso entre o avanço da literatura e o atraso dos políticos. Convidado da 13ª Bienal Internacional do Livro, Toscana lança, na terça-feira, sua última provocação, O Exército Iluminado, surrealista epopéia de um exército de crianças excepcionais que tenta resgatar o Texas, perdido para os EUA em 1848. Sobre o livro, Toscana falou ao Estado.Em O Exército Iluminado, garotos mexicanos buscam recuperar o Texas. Essa sua história surrealista seria uma resposta ao muro que os EUA constroem? Como surgiu essa sua obsessão pela fronteira?A obsessão é antiga. Vem de minha infância, pois vivi a alguns passos do lugar onde se deu em Monterrey a batalha que perdemos contra os gringos. Esse lugar, El Obispado, conserva ainda as marcas das balas disparadas em 1846. Quando criança, gostava de ir ali, pensar que participava da batalha e que dessa vez iríamos ganhar. O muro que agora levantam os gringos causa indignação, mas o presente não está em minha escritura. Creio que é melhor escrever sobre o passado e que esse se torne metáfora do presente.O Exército Iluminado surgiu em Berlim, onde você viveu em frente de um instituto que atendia crianças com problemas mentais. Os garotos, ao largo da novela, dão substância ao termo iluminado. Você acredita serem os deficientes iluminados?Minha idéia de iluminado é simples: é possível ser um se a luz cai sobre ele, não importa se um erudito ou um tonto. Esses garotos iluminados ajudaram muito minha imaginação. Cada vez mais diminui o número de mentes brilhantes porque há menos diversidade; os sistemas pelo qual nos educamos tendem à uniformidade, a matar a individualidade. Assim, é impossível ter outro Mozart.Você parece questionar em seu livro o estado de um país sem líderes. Os loucos seriam alternativas para um país como o México, mais surrealista que o seu exército iluminado?Sim, a crise de meu país e a de outros é a falta de líderes. O povo desconhece a história e por isso ninguém tem interesse de passar a ela. Há alguns anos, Vicente Fox preferiu ficar sentado em seu trono presidencial sem fazer nada ou passear pelo país contando piadas. Nosso presidente atual é absolutamente neutro. Os loucos vão a extremos, mas ao menos não são medíocres. Diz-se que a prudência é um valor, mas ela vale pouco.Críticos dizem que você é um filho literário de Cervantes. Que influência tem Don Quixote na construção de sua narrativa?Os mundos imaginários são mais ricos que os reais. Por meio de sua imaginação, Quixote não apenas transforma a visão do mundo como dá absoluta liberdade à palavra; por isso a novela de Cervantes é grande, porque pensamento e palavras são livres.A literatura contemporânea não pode abrir mão de suas referências literárias e dispensar a metaficção?Pode sim, claro, mas não é uma obrigação, embora esse não seja um procedimento contemporâneo. Se voltamos a falar de Don Quixote, é por ser sua segunda parte uma obra-prima da metaficção.A literatura prolifera em épocas de crise, segundo alguns escritores. O que pretende a literatura do Norte do México? Ser uma resposta política aos EUA?Não gosto de pensar na literatura como um ato de consciência, de respostas deliberadas, políticas ou sociais. Vejo a novela como um espaço íntimo, humano, individual, um espaço de dúvida; e só por analogia chega-se aos grandes temas. O escritor fala de intimidades de sua consciência e o leitor pode convertê-las no que quiser.

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