Tortelier comanda festa russa atenta a detalhes

Maestro ofereceu leituras cuidadosas à frente da Osesp

, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2009 | 00h00

Assistir ao pôr do sol sobre a nevoenta Moscou do século 17 - evocado no prelúdio da Khovânshtchina, de Mússorgski - é uma boa forma de iniciar um programa inteiramente dedicado à música russa. Esse pequeno poema sinfônico, de tom intensamente atmosférico, faz aos instrumentos de sopro solicitações muito refinadas, a que os músicos da Osesp responderam com precisão, neste concerto que marcou o reinício da temporada, após o recesso de julho.A segurança dos instrumentos solistas, a que os instrumentistas da Osesp nos habituaram, é indispensável para a execução da Sinfonia nº 9 em Mi Bemol Maior op. 70, de Dmitri Shostakóvitch que, a despeito do grande efetivo orquestral mobilizado, possui refinamentos camerísticos, e exige leveza de texturas. Foi a isso que assistimos, numa execução em que os ornamentos endiabrados do pícolo ou os comentários zombeteiros do violino, no Allegro inicial; ou o cântico tristonho da clarineta e das cordas graves no Moderato, inseriram-se dentro de uma visão orgânica da peça, tanto do ponto de vista dos andamentos equilibrados quanto das bem dosadas dinâmicas.Ficou muito clara, na interpretação de Tortelier, a dualidade de sentidos contida nesta inesperada resposta de Shostakóvitch ao final da 2ª Guerra. De um lado, a alegria genuína pelo fim do conflito; do outro, o gosto amargo da perda e da destruição, somado à sensação inquietante de que o pior ainda não passou - e ameaça muito mais insidiosa continua a pesar sobre o povo russo. Mas, no final, o que se impõe é o espírito de resistência, sugerido pelo impulso satírico da música, cuja polifonia cerrada não perdeu, nas mãos de Tortelier, a necessária transparência, e nem deixou de evidenciar a riqueza dos jogos de coloridos instrumentais. Em seu conjunto, a leitura da Nona de Shostakóvitch resultou impecável, constituindo o grande momento da noite.Sem a popularidade do nº 2, nem o rigor de concepção do nº 3, o último concerto para piano se Rachmáninov - sempre mais ou menos considerado o patinho feio da série - tem inegáveis belezas, às quais vale a pena atentar. A isso se propôs Arnaldo Cohen, numa leitura que, mais do que ao virtuosismo, deu atenção aos momentos líricos da partitura: o recolhimento elegíaco do segundo tema, no Allegro; ou o recitativo com que se abre o Largo, sem dúvida alguma o movimento em que regência e solista uniram-se para obter o melhor resultado. Não lhe faltou agilidade, é claro. Mas, mesmo na vitalidade rítmica do Allegro vivace final, esteve presente, na visão de Cohen, a vontade de destacar mais a vertente da introspecção, do que a do exercício pirotécnico.Pouco importa que gerações de críticos tenham torcido o nariz à Abertura 1812 de Tchaikóvski. O seu efeito é eletrizante e, para encerrar uma festa russa como a de quinta, nada mais indicado do que a peça que celebra a Batalha de Borodinó, com a qual, em setembro de 1812, o general Kutúzov desestabilizou o avanço napoleônico. Uma vez mais, a peça foi um mostruário para os músicos: as cordas graves, no hino militar Deus Salva teu Povo, com que ela se inicia; o tema camponês que forma, nas cordas, uma encantadora distensão lírica; a oposição da Marselhesa e do hino russo que finalmente transforma-se num coral triunfante, ao som dos sinos e das percussões. Que final mais jubiloso poderia ter esse concerto? ServiçoOsesp. Sala São Paulo (1.484 lugs.). Praça Júlio Prestes, s/n.º, 3223-3966. Hoje, 16h30. R$ 30 a R$ 104

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