Daniel Piza, E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br Site: www.danielpiza.com.br, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

Que um filme como Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle, tenha vencido o Oscar é mau sinal dos tempos. Venceu por motivos óbvios: por ser uma historinha quase surreal de triunfo individual num cenário de pobreza e globalização. Em outras palavras, está muito mais para Hollywood do que para Bollywood. Ao dizer que o rapaz, Jamal, busca o prêmio máximo da gincana não por causa da conta bancária, e sim do amor-eterno-que-resiste-a-tudo, o enredo foi muito mais "América" do que a própria Hollywood tem conseguido ou querido fazer. Quem pensa que o filme ganhou apenas por questão ideológica, por uma espécie de sentimento de compaixão da Era Obama pelos desgarrados do mundo, está errado; ganhou por ser mistura de melodrama e movimento ao gosto do cinemão, sem precisar do mesmo orçamento.O roteiro chega a constranger de tão forçado. Jamal só tem acesso às respostas porque em algum momento de sua biografia topou casualmente com cada uma delas. Casualmente, não; foi o "destino"... Nessa biografia infanto-juvenil, humilhação pouca é bobagem: ele precisou literalmente mergulhar na merda, e de lá saiu com a foto de seu ídolo pop. Em outra sequência, depois de tentar roubar um pão e ser derrubado do trem em alta velocidade, ele cai - ora, veja que coincidência! - justamente diante do Taj Mahal. "É o paraíso?", pergunta. Não, não, mas não vai demorar muito. Vi que colegas se gabaram das semelhanças do filme com Cidade de Deus, dizendo que se a votação fosse hoje o filme brasileiro também teria triunfado. Afinal, quem quer ser um colonizado?Nos filmes indianos típicos, as danças pontuam toda a história, não vêm só nos créditos; a relação amorosa supera os conflitos com participação de outros atores sociais, sendo uma sociedade de castas; os heróis não têm causa. Sim, o filme flui, cria a sensação de suspense, prende a atenção com a ação nas favelas, a beleza da atriz, a fotografia de cores fortes e granuladas, a figura meio Silvio Santos do apresentador de TV. Mas vai ficando cada vez mais afável, tal como o detetive pró-tortura adquirindo sorriso, embora jamais chegue a pintar uma Índia casa-de-bonecas como a da novela brasileira. E isso pode ser tudo, menos um cinema inovador ou sutil ou, vá lá, bem-feito.DE LA MUSIQUE (1)É difícil falar em mais que quatro ou cinco compositores "eruditos" que realmente valham a pena hoje em dia, mas o estoniano Arvo Pärt, de 74 anos, certamente é um deles (outros seriam John Adams, Gorecki, Philip Glass e/ou Steve Reich). Suas composições mais recentes acabam de sair em CD, In Principio (gravadora ECM), e trazem a mesma textura sacrominimalista que consagrou o autor de Fratres. As repetições têm um efeito hipnótico, com pequenas variações harmônicas, como se fossem cantos gregorianos; mas os silêncios, os timbres e as variações de intensidade (há trechos quase inaudíveis de tão baixos) lhe dão o toque contemporâneo; além disso, Da Pacem Domine é uma reação a um fato recente (os atentados em Madri em 2004). O interesse de Pärt é pelas vozes, pelos corais que ocupam o espaço, e In Principio, com cinco movimentos, tenta justamente flagrar a palavra quando se faz carne. É uma música para escutar ao vivo, mas que cativa os atentos.Foi feliz coincidência esse CD me chegar às mãos nos dias em que tenho escutado repetidamente o Réquiem de Mozart na versão de Daniel Barenboim com a English Chamber Orchestra e nomes como Fischer-Dieskau, Nicolai Gedda, Sheila Armstrong e Janet Baker entre os cantores (EMI, coleção Great Recordings of the Century). Foi gravada em 1972 e relançada no final de 2008. Ninguém fez pela voz como instrumento o que Mozart fez, e não por acaso muitas de suas sinfonias soam como obras corais ao passo que suas óperas têm estrutura sinfônica. A versão de Barenboim é intensa, pulsante, como deve ser. O CD traz ainda o maestro no Te Deum de Bruckner.DE LA MUSIQUE (2)Não há banda com a aura de santidade do U2: tudo que Bono e sua trupe fazem é elogiado, das declarações políticas mais despreparadas aos shows que hoje eles mesmos dizem caros demais. Há até quem a ponha no patamar de Beatles, Rolling Stones, etc. Gosto de bastante coisa e o U2 embalou minha geração nos anos 80. Mas quando escuto um CD como No Line on the Horizon, lançado no mundo todo simultaneamente e tido por oito entre dez críticos como o melhor desde Achtung Baby (1991), fico pasmo. É um disco mediano, com aquela sonoridade própria - o segredo do pop - e variação entre mais pesadas e mais dançantes, mas não tem nada comparável com os tempos de Sunday Bloody Sunday, One ou With or Without You. Algumas faixas como Magnificent e Unknown Caller tentam colar o refrão; outras como White as Snow lembram os velhos casamentos de letra e melodia. Eles têm força de palco, The Edge toca muito, mas tudo soa "déjà entendu".Me diverti muito mais com a coletânea de três CDs Motown 50, comemorando o aniversário da maior gravadora de "black music". Marvin Gaye, Diana Ross, The Supremes, Stevie Wonder, The Temptations - essas 50 canções, escolhidas numa enquete do mundo inteiro, são provas de que uma música para ser dançante pode ser lenta ou triste também, algo que a geração tecno desconhecia. E os Jackson 5 e em especial Michael Jackson? Como eram bons! Eu me lembro quando criança de ver na TV Elvis Presley gordo, suando numa roupa ridícula, branca e brilhante, e me perguntar o que é que aquele cara tinha para ser levado a sério pelos mais velhos. Mais tarde, descobri o Elvis dos anos 50 e entendi. O mesmo vale para Michael Jackson, num andar inferior: a garotada de hoje mal pode imaginar que aquele ET branquela de Neverland (e não Graceland, como escrevi - que foi o reino de fantasia de Elvis) foi o que foi. Fama endoidece?MINICONTOAs pessoas gostam de procurar os que são parecidos com elas, ou os que gostariam que fossem? Ele se apaixonou à primeira vista pela menina de cabelos roxos; ela, não. Sua vida estava tumultuada e ela não tinha nem sequer reparado no menino sério que a fitava sem parar de um canto da sala. Um dia ele apareceu com os cabelos pintados também de roxo. Ela lhe perguntou o porquê. Ele: "Porque eu queria que você me fizesse essa pergunta. Foi por sua causa." Ela se apaixonou pela paixão dele e começaram a namorar. Um dia ela se cansou dos cabelos roxos e voltou para a cor natural, um castanho bem escuro, como os dele antes. Mas ele continuou com os cabelos roxos. Àquela altura, as afinidades eram muitas e já não passavam pela aparência. Ele e ela sabiam disso. Todo amor, porém, precisa de um símbolo de sua intensidade inicial, justamente para que não desbote com o tempo.RODAPÉHá tempos eu queria ler um livro sobre Mussolini e a Ascensão do Fascismo como o de Donald Sasson (editora Agir, 198 págs.). Ele não precisa se alongar minuciosamente sobre cada fato para captar a cultura do período, a qual transformou um movimento inicialmente menosprezado, o de Mussolini, numa preferência da maioria dos italianos. Sasson mostra como o fascismo se expandiu, quase sempre com violência, na esteira do socialismo em regiões dominadas por trabalhadores rurais e industriais, só mais tarde ganhando a adesão das "elites" do campo e da cidade, com grande apoio de religiosos e militares. E mostra como a fraqueza do liberalismo local permitiu esse sucesso quase inesperado de uma plataforma conservadora, nacionalista e antimoderna. "O principal fracasso do liberalismo italiano foi nunca ter sido capaz de criar um ambiente econômico favorável às classes médias (...). Elas se sentiam desvalorizadas e sem representação. Não estavam comprometidas com qualquer forma de democracia, pois a única que conheciam parecia proteger os interesses dos ricos." A história não tem lições, exceto a de que a humanidade não aprende com as lições da história...POR QUE NÃO ME UFANOEnquanto o governo e a imprensa diziam que o Brasil tinha condições especiais para resistir à crise, a economia do quarto trimestre de 2008 decaía 3,6%, queda maior que a da Europa. As previsões para o PIB de 2009 já estão abaixo de 1%, o que seria crescimento menor que o populacional. Os outros emergentes, como China e Índia, ainda vão manter índice bem mais elevado. E por quê? Porque a política econômica brasileira é baseada em juros altos e arrocho tributário; trava os investimentos privados, afunila a pauta de exportação, encarece o emprego formal. As coisas podem e tendem a melhorar no segundo semestre e no ano que vem, porque é assim mesmo: à crise se segue a saída da crise... Mas os preços que foram pagos e a pobreza do debate que deveria balizar decisões adiante não desaparecem. Aforismos sem juízoQuem vê cara não vê aptidão. ''Ao dizer que o rapaz busca o prêmio máximo por causa do amor, o filme foi muito mais ?América?''''A política econômica brasileira é baseada em juros altos e arrocho tributário; trava investimentos''

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