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Tomie Ohtake é homenageada com exposição de suas últimas obras monocromáticas

Artista plástica morreu no dia 12 de fevereiro deste ano

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

01 de abril de 2015 | 03h00

No princípio - ou no fim, quase tudo é branco. É o pensamento que podemos ter ao entrar na exposição que apresenta a última fase de pinturas de Tomie Ohtake (1913-2015), a ser inaugurada nesta quarta-feira, 1, para convidados e quinta-feira, 2, para o público no instituto que leva seu nome, em São Paulo. Uma série de telas monocromáticas, todas brancas e datadas de 2014, recebe os visitantes como uma “provocação”, diz o curador Paulo Miyada - é preciso olhá-las de perto para descobrir as texturas que a artista realizou nessas composições. Através de relevos muito sutis, concebidos nas telas com o uso da própria tinta acrílica, Tomie, que morreu em 12 de fevereiro, aos 101 anos, estava a experimentar formas e sombras.

A mostra traz, praticamente, todas as pinturas que a artista realizou no ano passado, um conjunto expressivo de quase 30 telas. “Ela começou a série a partir do desafio máximo de não usar a cor”, afirma Paulo Miyada. Já seria um grande feito “conquistar desenhos”, explica o curador, através do branco chapado - como contornos que remetem a quadrados, círculos e linhas implícitos nas composições. Mas como a mostra Tomie Ohtake 100-101 reflete a verve de uma das principais criadoras da arte brasileira, o espectador vai surpreender-se, ainda, com as obras nas quais a artista lançou-se ao amarelo, vermelho, azul e, por último, ao verde.

“Parece que, em cada uma de suas fases, Tomie trata a cor, a matéria ou o gesto como elemento protagonista que puxa os outros”, considera Miyada. Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake, que também preparou a mostra E se Quebrarem as Lentes Empoeiradas?, a ser inaugurada nesta quarta-feira, 1, ele acredita que as pinturas mais especiais da série da artista sejam as que trazem relevos mais sutis. Nas obras com cores, considera, as composições tornam-se, por ora, “mais dramáticas” - principalmente, aponta, em uma das telas vermelhas.


Tomie, conta Paulo Miyada, queria opiniões sinceras sobre a série que estava criando quando era visitada em seu ateliê. Questionava a pintura, até as últimas criações - e este não é um clichê, como se pode ver na exposição. O relevo que criou nessas telas são, às vezes, quase táteis, vibrantes texturas. E, mais ainda, em alguns dos trabalhos, como nos azuis, Tomie fala de uma luminosidade que vem de trás - uma sequência, portanto, de pesquisa que ela vinha produzindo desde 2013.

A mostra, ainda, apresenta um belo conjunto de esculturas tubulares brancas da artista. Presas às paredes ou abrigadas no chão, essas peças, mais antigas, remetem a uma pureza do gesto de Tomie. Ao lado dessas obras, um vídeo traz depoimentos de criadores de diversas gerações - entre eles, Carmela Gross e Leda Catunda -, que falam da admiração pela pintora e escultora. Para a apresentação da vasta trajetória da criadora, Paulo Miyada tomou como partido poético contá-la por meio textos de parede que são como cartas escritas a Tomie. Como se ela não tivesse nos deixado.

CARTA PARA TOMIE

"Não sei se você conhece a superstição, mas me diverte quando dizem que nossas orelhas ficam quentes quando falam da gente - a direita, se falam bem, a esquerda, se falam mal. Se for verdade, você provavelmente não está precisando cobrir a cabeça para dormir no frio! Em São Paulo, a exposição organizada por Pietro Maria Bardi no Masp em 1983 foi, pelo que me consta, um feito que lhe introduziu ao grande público, numa apresentação reforçada no ano seguinte com o monumental painel realizado na empena cega de um edifício localizado na Ladeira da Memória, no coração do centro histórico da cidade"

Poéticas contemporâneas em tempos de incertezas

Além da exposição Tomie Ohtake 100-101, o instituto que leva o nome da pintora e escultora também inaugura nesta quarta-feira, dia 1º, às 20 h, a mostra E se Quebrarem as Lentes Empoeiradas?, formada por obras de Marcone Moreira, Thiago Rocha Pitta e Eduardo Berliner. Não se trata de uma coletiva, mas de exibições individuais de cada um dos artistas como parte do programa Arte Atual, desenvolvido desde 2013 pela instituição.

Terceira edição do projeto elaborado pelo Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake, E se Quebrarem as Lentes Empoeiradas?, que ficará em cartaz até o dia 10 de maio, relaciona três criadores de poéticas bem diferentes, entretanto, conectados por proporem “alternativas às formas de saber estabelecidas” dentro de um contexto de “certezas, dispositivos técnicos e sistemas lógicos que pautam nossa apreensão do mundo”, como afirma o texto curatorial. “Marcone traz o saber popular, amazônico; Thiago, a relação com a paisagem; e Berliner, o saber de provocar os materiais da pintura”, define Paulo Miyada, coordenador do Núcleo de Curadoria.


A sala de Marcone Moreira apresenta uma pesquisa sobre a relação entre cultura e desenvolvimento em uma região pobre como o Pará. Uma videoprojeção acompanha, através de um percurso ferroviário, a alteração da paisagem e das condições da população local. Ao mesmo tempo, o espaço expositivo do artista também abriga peças escultóricas criadas pela apropriação de restos de embarcações e outros materiais da região.

Já Thiago Rocha Pitta exibe cinco projeções nas quais explora, por meio de imagens de erosões, a “metáfora da transformação”. “São como mapas mutáveis”, define o curador Paulo Miyada. Por fim, Eduardo Berliner expõe um grande conjunto de pinturas e desenhos que abrigam “memórias trabalhadas através de alegorias”. São obras de uma figuração e materialidade pulsantes.

As mostras dos artistas convidados pelo programa Arte Atual são realizadas em parceria com as galerias que os representam. No caso desta edição, o projeto contou com apoio da Casa Triângulo (Eduardo Berliner), Blau Projects (Marcone Moreira) e Millan (Thiago Rocha Pitta). Além de Miyada, integram o Núclo de Pesquisa e Curadoria do Tomie Ohtake, criado em 2011, as curadoras Carolina de Angelis, Julia Lima, Olivia Ardui e Priscyla Gomes. 

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