Tom Cruise, astro ou monstro?

A biografia não autorizada do ator, por Andrew Morton, faz relato aterrador sobre o garoto-propaganda da cientologia

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

09 de junho de 2008 | 00h00

É um livro sobre Tom Cruise e contra a Cientologia ou contra Tom Cruise e sobre a Cientologia? É a pergunta que fica para o leitor que atravessa as 352 páginas de Tom Cruise - Biografia Não Autorizada, acrescidas de um portfólio de fotos que mostram desde o jovem Tom Mapother (seu nome verdadeiro), sarado e sem camisa, até o astro que dá um abraço de boas vindas a Suri, sua filha com Katie Holmes, no set do inédito Valkyrie. O autor do livro editado pela Manole é Andrew Morton, um bisbilhoteiro profissional que foi para a lista dos best-sellers de The New York Times com outra biografia, Diana: Sua Verdadeira História. Morton pode ser chamado de sensacionalista, mas venceu dois prêmios respeitáveis, o Author of the Year, pela British Book Award, e o Scoop of the Year (Furo Jornalístico), pelo London Press Club, para provar que é sério.Morton parte do princípio de que não há como separar persona pública e privada no caso de Tom Cruise e da cientologia, até porque ele foi recrutado pela organização justamente por ser uma celebridade (e - até alguns anos - o maior astro de Hollywood). Tom era um garoto talentoso, um tanto obcecado por ser o melhor, que teve de vencer problemas na infância para triunfar em Hollywood. Quando começou a fazer sucesso, encontrou David Miscavige, o jovem discípulo que herdou a decadente organização criada por L. Ron Hubbard e transformou a cientologia na potência que é hoje. Este, segundo Tom Cruise, se tornou cada vez mais obsessivo, autoritário e controlador. A história narrada por Andrew Morton parece uma nova versão de O Médico e o Monstro, mas a dúvida que fica é se a dualidade é do próprio Tom Mapother/Cruise ou de Tom Miscavige? É outra pergunta para ser respondida pelo leitor. Aquele sujeito que pulou no sofá de Oprah Winfrey para dizer que estava apaixonado é mais perturbado do que você imagina, segundo o livro.Tom foi criado pela mãe - e pelas irmãs - depois que o pai abandonou a família (e ele só o encontrou muito mais tarde, em seu leito de morte). Sua infância foi errante, mas não foram só as mudanças de cidades (e escolas) que impediram o menino Tom de aprender a ler. Ele foi diagnosticado como disléxico. A mãe e os professores de uma escola especial o apoiaram, mas essa fase foi eliminada quando ele entrou para a cientologia e, oficialmente, seu ''problema'' foi resolvido com os métodos de Hubbard. Acrescente-se que a cientologia tem método para tudo, até para o sujeito atingir o Nirvana e falar com Deus (ou sentir-se Deus). A cientologia também rejeita medicina, psiquiatria, medicamentos. Ter um astro como Tom Cruise como garoto-propaganda superou os sonhos de David Miscavige à frente da organização - e criou pesadelos para algumas das mulheres a quem o astro se uniu. Mimi Rogers, a primeira, era filha de um cientologista renegado; Penelope Cruz deixou claro que nunca ia abandonar sua crença católica.Nicole Kidman era ambiciosa e usou Tom como alavanca - após o divórcio, ele praticamente a eliminou da vida dos filhos adotivos, Isabella e Connor. O caso com Katie é curioso porque ela, ainda garota, jurava que ia se casar com Tom Cruise. Mas o caso emblemático é o de Mimi. Ela deu uma entrevista dizendo que Tom Cruise preferia a cientologia ao sexo, e isso terminou por se transformar na origem dos boatos sobre a sexualidade do ator. (A propósito, onde foi parar Mimi? Na Calçada da Fama é que não.) Andrew Morton conta histórias suficientes para esculpir o mito de um Tom Cruise macho e vigoroso. Uma orgia no set de Top Gun - Ases Indomáveis, quando ele fez 23 anos, é coisa de filme pornô. Mas então por que Tom fica tão furioso com as sugestões de que ele é gay? Existem, na internet, tantos sites dizendo isso quanto os que afirmam o mesmo sobre Brad Pitt - e o marido de Angelina Jolie nunca processou ninguém por causa disso. Já virou regra Tom Cruise provar que é macho no tribunal. Pode ter a ver com a cientologia, que prega a sumária exclusão dos gays que não consegue ''recuperar''. Há algo de Maquiavel no personagem. O inédito Valkyrie narra a história do herói de guerra Claus von Stauffenberg, que tentou matar Hitler. A Alemanha é o país que mais rejeita a cientologia, vista como grupo totalitário, ao modo dos nazistas. A nova missão impossível de Tom Cruise é fazer com que políticos e líderes religiosos alemães engulam o fato de o mais célebre dos cientologistas viver um ícone da democracia moderna no país.Trechos''A atuação dele era tão boa que chegava a ser algo bizarro. Você poderia olhar no fundo de seus olhos e ele realmente estaria entregue ao momento, apaixonado por você de verdade. Era possível ver seu coração e sua alma. Então, o diretor grita ''Corta!'' e Tom simplesmente deixa o set e você se vê obrigada a fazer terapia por seis meses.''Renee Zellweger, falando sobre Jerry Maguire - A Grande Virada, que valeu a Cruise indicação para o Oscar de ator''De maneira lenta, cuidadosa e suave, Tom adentrou o mundo da cientologia. No verão de 89, os cientologistas veteranos se sentiram confiantes o suficiente para convidar Tom a visitar sua secreta, isolada e fortemente protegida Base de Ouro, no meio do deserto da Califórnia. Quando ele aceitou o convite, o novo líder da seita, David Miscavige, anunciou alegremente a seus funcionários mais próximos: ''O recruta mais importante está assegurado. Sua chegada mudará a imagem da cientologia para sempre.''''''Embora Tom tenha ganho com sucesso - e honestamente - cada batalha legal sobre sua sexualidade, na internet ele parece ter perdido a guerra. Atualmente, há mais de 2 milhões de sites relacionados com ''Tom Cruise gay'' - um número um pouco maior do que o do galã Brad Pitt, que nunca processou ninguém e afirmou publicamente que não se casaria com Angelina até a legalização do casamento gay nos EUA. Na verdade, Rob Thomas, cantor da banda Matchbox 20, falou publicamente sobre o rumor de que ele e Tom foram pegos na cama por sua esposa. ''Se eu fosse gay, Tom Cruise não seria o número um da minha lista - seria Brad Pitt.''''

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