Tolentino e o exercício do preciosismo

Diretor esmera-se em reconstituir a complexa arquitetura de A Moratória

Crítica Mariangela Alves de Lima, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2008 | 00h00

A literatura teatral brasileira é mais inconstante do que as outras linguagens artísticas. Sobrevive de raras erupções de talentos vulcânicos que não se explicam pelas circunstâncias do meio e da época. O próprio Martins Pena, estimado como precursor é, quando relido, um fenômeno sem par até que, na segunda metade do século 20, o igualasse o paraibano Ariano Suassuna. Oswald de Andrade e Nelson Rodrigues emergiram em uma planície onde nada havia para sombreá-los e a originalidade das respectivas dramaturgias deve-se em igual medida ao talento e à solidão de um entorno teatral sem recursos intelectuais para se relacionar com a ousadia no campo da idéias e da linguagem. É outro o caso do dramaturgo paulista Jorge Andrade. Seu teatro, inspirado na poética realista que fez avançar a galope a literatura brasileira nos anos 30 e 40 do século passado, é ao mesmo tempo uma resposta prática ao estado da arte ao tempo que escreveu e um projeto estético assertivo contrariando a mitificação da genialidade sem solo firme e sem descendência.E é sob essa ótica que não é apenas de uma peça em particular, mas de um conjunto de peças que constituem um ciclo organizado em perspectiva histórica, que o grupo Tapa encena agora A Moratória. Trata-se de um espetáculo em que nada pode destacar-se da trama dialógica e das ações programadas pelo texto. As tentações exibicionistas dos palcos contemporâneos, que encorajam a visibilidade da atuação ou evidenciam malabarismos cenotécnicos, são sumariamente descartadas. Por outro lado, são tão escassas as oportunidades de trabalhar com personagens dotadas de fundo psicológico, atmosferas partilhadas de preocupações ou de tristeza, tempos entrecortados ou superpostos e espaços simultâneos definidos por convenções precisas que a direção de Eduardo Tolentino de Araújo permite-se o exercício de um outro tipo de preciosismo. No modo de representar, por meio da cenografia e dos figurinos e mesmo nas soluções técnicas que organizam espacialmente as convenções de espaço e tempo manifesta-se uma fidelidade quase arqueológica à historicidade do texto. Não é, neste caso, fidelidade ao tempo histórico a que a peça se refere (alternam-se os anos de 1929 e 1932) ou aos lugares convencionados para a ação (fazenda e cidade interiorana). Todos esses elementos são, no espetáculo, sutilmente transtornados para indicar a vigência intemporal e simbólica do drama e não é outra a intenção de Jorge Andrade ao pontilhar a peça de signos recorrentes. O que a encenação se esmera em reconstituir é um tipo de espetáculo que, por vários motivos, tornou-se uma raridade no panorama teatral.No plano frontal desse tipo de composição, o elemento analítico é secundário e só depois, quando a peça termina, o público é tentado a isolar falas, comportamentos ou imagens. Em cena, há um funcionamento conjunto, aparentemente orgânico, de personagens que não poderiam viver apartadas do seu drama e que, portanto, não se destacam umas das outras. Um fundo cenográfico de tonalidade terrosa, meio de cultura de gente que não saberá como viver fora da sociedade agrária, serve ao passado e ao presente da ação dramática. É a técnica construtiva do texto, uma arquitetura complexa que o dramaturgo exercitava como uma novidade nos anos 50 do século 20, que se sobressai com esse tratamento que depende muito pouco dos elementos cenográficos ou da iluminação. O tema de cada diálogo e também a entonação subjacente vai indicando a curva do tempo e a tragicidade própria da dramaturgia moderna consumada mais pelo acúmulo da frustração do que pela ruptura. Essa trama feita de tempos respeitosamente observados, por vezes de lentidão exasperante e repetições quando as cenas transcorrem na cidade, é preservada com rigor em quase todo o andamento do espetáculo. Por sugestão do texto - e um diretor tem todo o direito de recusar sugestões que não são muito boas -, há indulgência com o exagero emocional nas duas cenas em que o filho Marcelo (interpretado por Augusto Zacchi) exagera na bebida. Não parece indispensável que exagere também no volume de voz, na choramingação e no balanço. Há bêbados de todos os tipos e talvez conviesse ao desenho desse espetáculo uma caracterização que não transbordasse o molde sóbrio das outras manifestações de sofrimento.Jorge Andrade e o Tapa são farinha do mesmo saco. Um dramaturgo que construiu sua obra tendo como norte a perspectiva histórica da civilização brasileira, que estudou e aplicou às suas intuições e obsessões compasso de técnicas e formalizações inovadoras é matéria ideal para um grupo igualmente aferrado a um programa artístico que avança sem perder de vista o lugar de origem.Serviço A Moratória. 90 min. 14 anos. Teatro Sesc Anchieta (320 lugs.). Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 20. Até 16/3

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