Tóibín, o real e o ficcional em conflito

Entre os contos de Mães e Filhos, escritor fala de um criminoso que virou seu amigo

Entrevista com

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

21 de novembro de 2008 | 00h00

A mãe de Frank, o padre do conto Um Padre na Família, de Mães e Filhos, não é exatamente uma tonta. Molly tem nome de personagem de Joyce, está na casa dos 80 e é uma mulher antenada com a modernidade. Dirige, passa mensagens pelo correio eletrônico, joga bridge, vai ocasionalmente a Dublin e diz coisas que surpreendem seus interlocutores, inclusive o padre Greenwood, encarregado de contar a ela que o filho vai ser julgado pelo crime de pedofilia. Molly não muda um milímetro sua rotina por conta dos cochichos ou da tempestade próxima, que ameaça trazer na enxurrada manchetes escandalosas. Dois dias antes do julgamento, o filho aparece em sua casa e o diálogo que se segue entre a mãe e ele é comovente o bastante para provar que não se trata apenas de um escritor em busca de um estilo. Tóibín é um autor que se envolve com o drama alheio, um homem de palavras certas em tempos incertos.O abuso sexual é tema de dois contos em Mães e Filhos. Em que medida sua experiência pessoal contribuiu para a escrita deles?As duas histórias chegaram a mim de modo diferente. O Uso da Razão tomou corpo com uma série de entrevistas que fiz com um famoso criminoso dublinense, Martin Cahill, que roubou um Vermeer. Por um tempo tivemos um bom relacionamento e costumava vê-lo. Não estava interessado em seus crimes, mas na sua infância, o que o confundia bastante, a ponto de deixar uma arma carregada no quarto de dormir. A relação acabou e ele foi morto logo depois. Era fascinado por suas histórias de infância, mas inventei outro personagem contando os mesmos fatos. A outra história, Um Padre na Família, é autobiográfica. Conheci alguns padres pedófilos e tentei me colocar no lugar de um deles, imaginar como seria a vida de um proscrito.Um das histórias mais comoventes do livro mostra um homem procurando desesperadamente a mãe, enterrada sob a neve dos Pirineus. Você tentou sintetizar numa grande alegoria o que seria a relação mãe e filho, marcada pelo amor incondicional e por vezes equivocado?Não me interesso particularmente por metáforas ou por manifestos sobre a condição humana. Tentei apenas fazer dos personagens de Um Longo Inverno pessoas singulares, que parecessem vivas nas páginas do livro. Estou mesmo interessado, suponho, em figuras perdidas, sexual e emocionalmente falando, mas não creio que isso adicione algo à filosofia.Em algumas de suas histórias, os homossexuais parecem mais culpados e solitários que os personagens heterossexuais. O que a culpa significa para você?Todos os meus personagens são culpados, mas, espero, culpados de maneiras diferentes, embora no conto Três Amigos o personagem homossexual não tenha culpa por ser drogado e gostar de sexo. Ou, pelo menos, não uma culpa cristã, apesar de minha formação católica. Acredito numa culpa existencial, como em Kafka, Sartre ou Camus.As pessoas, em seus livros, parecem estar sempre fugindo de alguma coisa. Seríamos todos fugitivos, outsiders como personagens de algum livro de Camus?É difícil dramatizar a felicidade e muito mais fácil lidar com personagens solitários ou perdidos, que não se comunicam com facilidade ou simplesmente são mal interpretados pelos outros. Gosto do silêncio, das coisas não ditas. Suponho que, se mostrasse esses contos para um psicanalista, ele poderia me dar uma resposta precisa sobre minha personalidade, mas prefiro trabalhar no escuro.O Mestre foi classificado por alguns críticos como uma tentativa não de retratar, mas de ser o próprio Henry James. Qual é o traço particular da literatura dele que você reconhece em seu livro?James era fascinado por segredos. Era um personagem bastante ambíguo, forte e fraco ao mesmo tempo. Forte como artista - seu domínio da estrutura literária e sua construção de personagens eram admiráveis. Amava seus livros e interessei-me pelo homem atrás deles, o homem que usava uma máscara a maior parte do tempo.Um de seus primeiros livros, The Blackwater Lightship, foi adaptado para a televisão. Imagino que outros livros seus tenham despertado o interesse de cineastas. Como você vê essa relação entre cinema e criação literária?Tenho pouco interesse no cinema atual. Costumava ver Bergman, Fellini, Rohmer, Polanski e Tarkovski nas salas e hoje revejo Gritos e Sussurros, Fanny e Alexander, Amarcord, La Strada, Repulsa ao Sexo e Nostalgia em DVD. O único diretor novo que me levaria de volta ao cinema é o húngaro Bela Tarr.

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