Todos os mestres do mestre Picasso

Mostra em Paris segurada em ? 7 bilhões coloca a pintura do espanhol ao lado das telas dos artistas que mais o influenciaram

Luiz Carlos Merten, PARIS, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2009 | 00h00

Tão grande está sendo o sucesso da exposição Picasso et les Maîtres, no Grand Palais, na capital francesa, que na impossibilidade de estendê-la - termina segunda -, os organizadores promovem uma medida ousada. Durante três noites, a mostra estará aberta ininterruptamente, 24 horas por dia, com acesso por linha de metrô que vai funcionar sem parar. Picasso e os Mestres virou o tititi de Paris. Nunca houve uma exposição como esta. Só para você ter ideia, o seguro não se mede por milhões, nem mesmo centenas de milhões de dólares, mas por bilhões de euros, exatamente 7 bilhões. É o que dá reunir tantos Picassos, Rembrandts, Renoirs, Goyas, Monets, Manets, Poussins, Declaroix, Ingres, El Grecos e Cézannes.Há cerca de dez anos, ou mais, o Louvre já sediara outra exposição - Copier, Créer - dedicada ao jovem Picasso. Era formada por desenhos que o futuro gênio da pintura fez quando, ainda estudante, frequentava o Louvre, embebendo-se da arte dos grandes mestres. Copiar, criar - Picasso reproduzia, com pena e crayon, os quadros que mais o impressionavam. Seu traço era impressionante.A nova mostra documenta como Picasso foi influenciado pelos mestres da pintura - e por seu pai. Um dos primeiros quadros é o retrato de José Ruiz-Blasco, o pai de Picasso, pintado de forma acadêmica por José Ponce Puente. O pai de Picasso era um homem rico que amava a pintura e que foi, ele próprio, pintor amador. Um belo dia, ele percebeu o talento do filho. Deu-lhe seus pincéis e tintas e nunca mais pintou. Os primeiros quadros são autorretratos. Ele continua copiando, não mais como desenho mas com pintura, seus mestres. Copiar vira, para ele, uma matéria de criação.Na virada para o século 20 surgiram o cinema e o fluxo de consciências de autores como Virginia Woolf e Marcel Proust. O cinema e a literatura buscavam novas formas de narrar e mostrar. Picasso também vai dizer, desse período, que queria mudar a pintura, fazendo quadros contra os pintores que admirava. Quadros que não se encontravam nos museus, mas que faziam parte do seu museu imaginário. Por volta de 1894/96, quando estudava pintura nas academias de Barcelona e Madri, ele proclama que Rafael e Velázquez são grandes mestres. Uma frase torna-se emblemática: "Naquela época, eu desenhava como Rafael. Foi preciso toda uma vida para que eu aprendesse a desenhar como uma criança."Os azuis e os violetas de Manet haviam provocado escândalo no Salão de Paris, de 1891. Seguiu-se uma reação anti-impressionista muito forte. O jovem Picasso adota o azul como cor-manifesto, mas soma a ela um caráter expressionista. As figuras tendem a se alongar e ele próprio dirá que se trata de influência do Greco. O quadro mais famoso desta época é A Família Soler, de 1903, um retrato de família acadêmico como muitos outros, mas o desnatura por meio da cor. El Greco é a principal influência do período. O Sonho de Felipe II, do Greco, é a origem de O Enterro de Casagemas, ou A Evocação. Há um movimento para cima na tela, como a da fantasia do rei, mas agora são a morte e seus desdobramentos, todos filtrados pelos tons de azul.A partir daí, a revolução da pintura não para mais. Em 1910, com a deflagração do cubismo sintético, Picasso retorna a uma espécie de cromatismo essencial, desmontando a forma e adotando o cinza como ?uma linha de defesa? contra as vertigens da abstração. Azuis, rosas e cinzas compõem fases que a exposição ilustra, colocando lado a lado, o quadro de Picasso e a obra do mestre que lhe serviu como referência. Os curadores, em geral, são contra esse encadeamento, digamos, ?didático?, mas no caso de Picasso é muito interessante ver como ele, na realidade, desconstrói e recria os mestres que admira. A Banhista Sentada Numa Paisagem, de Renoir, dita A Eurídice, vira A Grande Banhista, um quadro em que o volume da figura sugere um pós-cubismo.O Retrato de Um Jovem Cavalheiro, de El Greco, inspira O Retrato de Jaime Sabartés. O Retrato do Anão Sebastian de Morra, de Velázquez, vira O Homem Sentado com Espada e Flor. A exposição não segue o fio do tempo, mas o mistura ou provoca rupturas. Só para concluir com Velázquez, Picasso exclama - frase que encima toda uma ala do evento -, "As Meninas, que quadro! Velázquez é o verdadeiro pintor da realidade." Ele próprio vai produzir, em 1957, a sua versão de As Meninas.Por essa época começam as variações - de Delacroix, Manet, Poussin e David. Somente As Mulheres de Argel lhe inspiram, durante dois meses, entre dezembro de 1954 e fevereiro de 1955, 15 pinturas e dezenas de desenhos preparatórios nos quais ele muda o número das personagens e as posições que ocupam no espaço. Muitos desses quadros e desenhos mostram mulheres adormecidas, um tema que sempre seduziu Picasso. Mas são O Massacre dos Inocentes e O Rapto das Sabinas que inspiram o maior número de variações. O Rapto se constitui no último tema histórico de Picasso, entre outubro de 1962 e fevereiro de 1963. Como Guernica, sobre a Guerra Civil Espanhola, O Rapto e suas variações surgiram no imaginário do autor como consequência da crise dos mísseis, em Cuba, quando o mundo esteve à beira da guerra nuclear. E ainda há as naturezas-mortas e os nus, por meio dos quais Picasso paga seus tributos a Cézanne, Ticiano, Ingres, Goya e Courbet. Picasso et les Maîtres sintetiza uma trajetória das artes visuais dos últimos séculos, mostrando como o grande Pablo reinventou os maiores e criou a pintura moderna.

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