Todos os livros do mundo na ponta dos dedos

Cercado de polêmica, o Google Book Search está em fase de construção e promete o acesso a uma infinidade de obras

Sérgio Augusto, O Estadao de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 00h00

Acesse a internet. Digite http://books.google.com e dê um enter. Bem-vindo ao Google Book Search. Bem-vindo à biblioteca do futuro: todos os livros digitalizados, disponíveis online, para consulta, leitura e copiagem - de graça ou mediante pagamento. O que o iTunes fez com a música e o YouTube com as imagens, o GBS começou a fazer com os livros, manuscritos e documentos. O sonho iluminista da cultura universalizada promete deixar de ser uma utopia. Contenha um pouco o seu entusiasmo: o GBS está em fase de construção e operando sub judice, digamos assim. A biblioteca do futuro já obteve o habite-se; falta o alvará. O serviço já existe em português, em versão beta. Embora uma centena de editoras brasileiras (entre as quais Senac, Zahar, Cia. das Letras) já tenham aderido ao projeto, até obras há muito de domínio público, como os romances de Machado de Assis e a poesia de Castro Alves, por exemplo, continuam indisponíveis; ou melhor, só podemos visualizá-las parcialmente. Mais dia, menos dia, será possível baixá-las em PDF sem pagar um tostão - como no site da Academia Brasileira de Letras.Experimente ler e baixar Dom Quixote no GBS. Só uma tradução inglesa pode ser lida e baixada de graça. Quem quiser degustar Cervantes no original, por inteiro e não parcialmente como o GBS oferece, a saída, por enquanto, também é comprar um volume impresso. De modo geral, as obras em língua inglesa publicadas antes de janeiro de 1923 estão liberadas para digitalização, pois não mais sujeitas ao grilhão dos direitos autorais. Daí porque os primeiros romances de F. Scott Fitzgerald (This Side of Paradise, publicado em 1920, e The Beautiful and Damned, de 1922) têm "visualização completa" no GBS e Tender Is the Night (de 1925), ainda não. As traduções brasileiras das duas primeiras (Este Lado do Paraíso e Belos e Malditos) tampouco estão liberadas. Em homenagem à borgiana Biblioteca de Babel, digitei The Anatomy of Melancholy, de onde Borges extraiu a epígrafe de seu relato. Está lá a anatomia, completamente exposta à curiosidade dos internautas; mas o livro de Robert Burton, publicado em 1857, não é mais uma raridade bibliográfica: ganhou uma reedição há dois anos. O mesmo não se pode dizer da mítica The Anglo-American Cyclopaedia, desencavada por Borges e Bioy Casares, de que não encontrei rastro; sendo que da história de Uqbar só achei referências a Borges e ao conto que abre O Jardim de Veredas Que se Bifurcam - o que talvez seja o máximo que o GBS nos possa oferecer em matéria de virtualidade.A Biblioteca de Alexandria foi destruída num incêndio. A do Google já nasceu pegando fogo - no sentido figurado. Anunciada em 2004, com o melhor dos propósitos (ajudar as pessoas a encontrar informações em livros e dirigi-las a títulos esgotados ou fora de circulação, enfurnados em bibliotecas públicas e particulares), ganhou seus primeiros adversários no segundo semestre de 2005. Autores e editoras entraram com um processo, alegando que o escaneamento de livros pelo mais poderoso site de busca da internet violava os direitos autorais de livros ainda fora do domínio público e dos chamados "livros órfãos", assim chamados porque seus autores ou sumiram no mapa ou não deixaram herdeiros e representantes. Os "livros órfãos" são o filé mignon do mercado. Estima-se que respondam por cerca de 60% do montante cobiçado pelo Google. Em outubro de 2008, já com quase 5 milhões de volumes escaneados em seu acervo e parcerias acertadas com diversas bibliotecas, o Google fez um adendo ao projeto: a biblioteca se transformaria, efetivamente, numa livraria digital, num misto de SuperAmazon.com e Biblioteca do Congresso americano, quase aquele "catálogo dos catálogos" tão obsessivamente buscado por Borges. Junto, um acerto de paz com os adversários: o Google teria assegurado o direito de expor 20% do conteúdo dos livros online, comercializar o acesso a textos individuais, e vender assinaturas de sua coleção a bibliotecas e outras instituições, embolsando 37% e dividindo o restante do lucro com autores e editoras. Com 134 páginas e 15 apêndices, o acordo prevê a instalação de um terminal de computador em cada biblioteca interessada em seus serviços e propõe a criação de um Registro de Direitos Autorais (Book Rights Registry), que, em conjunto com o Google, elaboraria uma tabela de preços para todos os termos comerciais associados aos e-books (livros digitais), o estuário ideal dos downloads proporcionados pelo GBS.Monopólio! - clamam os autores e editores que receiam pelo controle do livre acesso ao conhecimento e à educação universal por uma única instituição, "pouco importa se competente e popular, como o Google'', salienta Brewster Kahle, fundador e diretor do Internet Archive, biblioteca sem fins lucrativos de São Francisco, e da Open Content Alliance (atual Open Knowledge Commons). "Já lutamos no passado contra monopólios high-tech, contra a IBM, a At&T, a Microsoft, e sabemos o quanto eles são uma barreira à inovação e à competitividade", desabafou Kahle num artigo publicado no New York Times de terça-feira passada. "Precisamos digitalizar, sim", escreveu o historiador Robert Darnton na New York Review of Books de fevereiro. "Mas precisamos, sobretudo, democratizar, dar livre acesso ao nosso patrimônio cultural. Como? Revendo as regras do jogo, subordinando os interesses privados ao bem comum." Darnton duvida que "o espírito público das forças de mercado" mereçam "confiança irrestrita". Também julga insuficiente um só terminal em cada biblioteca e razoável temer que os preços dos serviços oferecidos pelo Google subam que nem os das revistas especializadas do mundo acadêmico, que saíram de um patamar acessível e atingiram cifras astronômicas (a assinatura anual do Journal of Comparative Neurology não sai, atualmente, por menos de US$ 25.910). Todas as partes interessadas ficaram de bater o martelo no dia 5 de maio. Tantas eram as questões ainda pendentes, que um juiz federal da Corte de Nova York, a pedido dos escritores, adiou sua decisão para 4 de setembro, estendendo o prazo até 7 de outubro. As discussões prosseguem. Enquanto isso, o Google amplia sua rede de associados (fez acordo com a Universidade de Michigan no início da semana) e o site de compartilhamento de documentos Scribd, recém-acusado de pirataria digital pela escritora Ursula Le Guin, reencontra o caminho da concorrência transparente, "para evitar que a leitura digital fique exclusivamente nas mãos do Google e da Amazon". Segunda-feira, a direção do Scribd anunciou uma negociação para a venda de trechos de livros, relatórios de pesquisas e outras modalidades de impressos mediante licença e pagamento online, ao estilo iTunes & similares. Cabe aos autores permitir que suas obras sejam baixadas em PDF desprotegido, para que se tornem legíveis no Kindle e demais aparelhos de leitura digital, e, a partir de junho, no iPhone, celular inteligente da Apple. Se o livro de bolso foi uma revolução, imagine a biblioteca de bolso.

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