Todos os caminhos levam a Estômago

O produtor Fabrizio Donvito comenta a estratégia para lançar o filme na Europa

Flávia Guerra, MILÃO, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2002 | 00h00

''''É muito melhor, não só quando se fala de produção, mas de criação, realizar um filme que não vai fazer milhões de espectadores em um só país, mas vai fazer alguns milhares em vários. Garante participação em outros mercados e culturas.'''' Assim o italiano Fabrizio Donvito defende o projeto que abraçou com garfos e facas. Num mercado tido como saturado, Donvito e os sócios Marco Cohen e Gabriele Muccino (de À Procura da Felicidade) fundaram a Indiana, produtora com representação em Milão, Roma e Los Angeles para investir em projetos que inovam o modo de produzir cinema na Itália. Os planos para Estômago são audaciosos e mostram que cada vez mais a apregoada globalização do cinema está mais próxima do mercado brasileiro.Estômago é exemplo de parceria que deu certo não só financeira como criativamente. O roteiro conta a história de Raimundo Nonato (João Miguel), migrante nordestino em Curitiba que descobre o sabor que a comida tem quando o assunto é também ganhar poder e não só elogios. E foi ''''italianado'''' por Donvito. Das mãos de Marcos Jorge, ganhou toques do neo-realismo italiano. ''''Fala dos que comem e dos que são comidos em uma sociedade. Nonato não é ninguém, mas tem um dom: ele cozinha. Vai preso e descobre que esse dom pode tirá-lo da condição de coitado. Ele, que havia aprendido muito com um patrão dono de restaurante italiano, o Boccaccio, começa a misturar tudo que aprendeu para viver melhor na cadeia'''', conta Jorge. De fato, na cozinha de Estômago, alecrim, gorgonzola e manjericão são ingredientes tão explosivos quanto ciúme, pólvora, violência e vingança.De volta à produção, enquanto Jorge e Cláudia trabalhavam em Roma, Donvito e equipe articulavam a estrutura que garantiu ao filme ser finalizado nos estúdios da MacDue (uma das maiores da Itália, onde Nanni Moretti trabalha no restauro de seus filmes), ter o som editado em uma produtora de Milão e trilha sonora a cargo da CAM (uma das maiores produtoras musicais da Itália). Fora isso, entra no mercado internacional com as facilidade que a União Européia garante a seus produtos.O início da empreitada não foi fácil. Como não havia jurisprudência, a cópia de Estômago ficou presa na alfândega italiana por meses até que se resolvesse o modo como entraria oficialmente no país. Nada que a criatividade brasileira da produtora Cláudia não abrisse caminho. ''''Foram situações a que nos fomos deparando. Sentimos falta de uma representação brasileira na Itália que nos desse respaldo e orientação quando questões assim surgiam. Se não conhecêssemos os meandros do sistema italiano, teria sido tudo mais difícil'''', analisa ela.O filme serve de modelo para outros produtores e até para a renovação do Acordo de Co-Produção Brasil-Itália, de 1975, desatualizado e que deve ser revisto em breve. ''''Esta é uma bela história em todos os sentidos. A começar por ser a primeira produção entre dois países próximos, apesar da distância. Basta inverter os pontos cardeais para se ter o mesmo problema na Itália. Aqui é o sul que envia imigrantes ao norte. Esta é também uma história que vai além dos estereótipos que se tem dos dois países'''', defende Donvito, que vê com interesse a atual produção brasileira. ''''O fato de os brasileiros não estarem nas mostras principais de Cannes e Veneza deve-se à falta de patrocinadores de qualidade. Aqui a competição é uma loucura. O cinema italiano também não está em situação muito fácil.''''Para Donvito, lançar no Brasil (será distribuído pela Downtown Filmes)é prioridade e, em 2008, entra no mercado internacional. ''''Não há por que ter pressa. Já temos compradores interessados, mas vai ser lançado com cuidado. Vamos explorar o potencial que ele tem também junto ao espectador italiano, que adora o tema da gastronomia. E já adianto: quando se vê Estômago, dá muita fome. É bom que se veja depois do jantar.''''

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