Todo poder aos feios, ensina Manson

Comportado, até meio careta, ''''anticristo'''' do rock mostra ter aprendido a lição de que, debaixo do décor, tem de haver música

Crítica Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

28 de setembro de 2007 | 00h00

Na grade de proteção, à frente do palco, os garotos se espremem dolorosamente. Segundo os seguranças, estão ali desde as 9h da manhã do dia anterior, à espera do seu ídolo. Pedem água ao fotógrafo, que não dá, e eles o agridem verbalmente. Um garoto finge desmaiar e é trazido para a área de escape pelos seguranças, e tudo o que ele queria era chegar até ali, mas é expulso antes mesmo de comemorar.Marilyn Manson entra no palco do Via Funchal às 22h30, empunhando seu microfone em forma de faca, uma peixeira digna da sangrenta tradição nordestina. De costas para o público, sob luzes vermelhas e muita fumaça, ele manuseia o instrumento como se fosse se sacrificar ritualisticamente. Quando abre o show, com If I Was Your Vampire (do novo álbum, Eat me, Drink me), todo o cansaço, toda a desidratação da platéia do gargarejo desaparecem como que por mágica. A molecada ensandece.Segundo Manson, If I Was Your Vampire é o novo Bela Lugosi''''s Dead, ''''é o novo hino gótico'''', segundo sua própria definição imodesta. Bela Lugosi''''s Dead é uma canção do grupo Bauhaus, que foi ativo nos anos 80 e um dos expoentes do rock gótico inglês daquela década.Mas o mundo dos Bauhaus emergia de uma década sem esperança para os jovens ingleses, uma época de falta de perspectivas, e havia uma circunstância social que os justificava. O mundo gira e as referências voltam como bumerangue, equilibrando-se em imagérie e cenário.O baixista de Manson toca com o corpo arqueado, imitando um zumbi de filme B. Não sei se seria selecionado para o clipe de Thriller, do Michael Jackson. O guitarrista é um ariano de cabelo moicano que fustiga o instrumento como se o devorasse. A banda é boa, os vocais são abissais e a linha de frente ensurdece antes mesmo da segunda música, Disposable Teens (do álbum Holy Wood, de 2000), e da terceira, mOBSCENE (do disco The Golden Age of Grotesque, de 2003).O vaudeville monstruoso de Marilyn Manson não é para assustar, nunca foi: é apenas um teatro de excessos mal ajambrado. Ele troca de roupa a cada música, ou então veste um acessório novo: um chapéu de Van Helsing, um par de olhos elétricos, uma cartola, um spencer branco com uma faixa preta nas costas.Mas Manson está mais ''''conservador'''', por assim dizer. Da tríade sexo-rock-satanismo, sobrou quase nada, a não ser os tridentes vermelhos que enfeitam o cenário no palco. O guarda-roupas está também mais comportado. Ele faz dois ou três gestos que poderiam ser considerados obscenos por gente mais antiga. Já chegou a escandalizar as platéias japonesas, num passado recente, simulando sexo no palco. Agora, limita-se a dizer uns palavrões clichê, conclamando os ''''motherfuckers'''' da platéia a fazer barulho, erguer as mãos, berrar.Quando encara sua mais famosa cover, a canção Sweet Dreams, do Eurythmics, coloca um tipo de capacete de mineiro com duas lanternas acesas, e fica parecendo um extraterrestre de filme do Spielberg. Mas é quando ele chega a Beautiful People, do seu disco mais celebrado, Antichrist Superstar (1996), que começa a ficar mais séria a conversão a sua missa negra de buffet infantil.''''Eu gostaria de pensar que a arte não afeta as pessoas, mas as pessoas são afetadas e respondem de maneiras diferenciadas. Algumas pensam em devolver ao mundo o que sentem, às vezes violentamente. Isso não é uma discussão nova, vem desde o tempo da Bíblia. Geralmente, os que são mais exaltados contra os artistas são os religiosos. E a Bíblia contém um monte de violência. Esse conceito de assassinato é bíblico. Mas eu acho que ser artista também é, de certa forma, uma ação religiosa'''', afirmou Manson, falando ao Estado.Intimidado pelo constante cerco de grupos mais conservadores ao seu teatro das sombras, ele parece estar se controlando em cena, fazendo mais esforço para cantar - e é uma grande voz do gênero.Ele faz um glam rock às avessas, costurando com habilidade as lições do gênero e misturando com o peso do metal, tudo sob a condução de um grupo competente. Manson sabe que, tirando o décor, tirando o messianismo dark, o que sobra é a música, e ela tem de ser capaz de ficar em pé sozinha.Por outro lado, o show de Marilyn Manson é um acontecimento sociológico. É uma espécie de manifestação do movimento ugly power (se ele existisse) - muitas meninas feinhas acima do peso com camisetas pretas, moleton preto e maquiagem borrada nos olhos e nas bocas, e muitos garotos magricelas com lentes de contato brancas e vermelhas e botas afiveladas em todo o tornozelo, capas, cabelos deliberadamente ensebados, clones do cantor americano por todo o lado.Manson, igualmente feio, já barrigudinho, queixo de Noel Rosa, é sua vingança barulhenta. Manson os redime, Manson os integra, Manson lhes dá munição. Uma menina da platéia segurava um cartaz, no Rio de Janeiro: ''''Fuck me and take me to hell'''' (em tradução branda, ''''transe comigo e me leve para o inferno''''). A estrada que traz o coche negro de Marilyn Manson não conduz mais ao inferno, mas ainda faz muito barulho nas pedras do caminho.N

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