''Todo mundo se esculhambava'', lembra Millôr Fernandes

Um dos fundadores, escritor e cartunista conta ao Estado como a equipe se isenta de culpa na execração de Wilson Simonal

, O Estadao de S.Paulo

05 de junho de 2009 | 00h00

Millôr Fernandes foi um dos capitães da primeira geração do Pasquim, trazendo a experiência de ter editado o Pif-Paf. Por e-mail, ele contou ao Estado como foi esse período.Paulo Francis dizia que o nascimento do Pasquim foi um acidente, pois aconteceu logo depois de instaurado o AI-5. Qual sua versão para o surgimento do jornal? Era mesmo para não dar certo?Eu diria que tudo é ocasional. A começar por estarmos aqui, dialogando.E o que matou o jornal? A derrocada da ditadura militar? Teria sido um jornal que realmente só sobrevivia sob pressão?Acho que todos nós, os mais significativos, tínhamos mais o que fazer. Eu, por exemplo, jogava frescobol. Heroísmo é para heróis profissionais.O Pasquim publicou muito material original, com suas entrevistas e até um poema de Mário Lago. Como era selecionado esse material?Mais ou menos como em toda editoria, as coisas vêm chegando, ocasionalmente pedidas ou encomendadas. O especial, no Pasquim, era que tudo era mais ou menos (mais!) esculhambado. Pensando agora, acho que não acreditávamos no Pasquim. E Deus viu que isso era bom.Comenta-se muito que O Pasquim bebeu na fonte deixada pelo revista Senhor. O que pensa disso?Nunca percebi. A gente estava bebendo muito era no Logans.Por que a malícia e a molecagem do Pasquim não influenciaram (ao menos) parte da imprensa atual? O que aconteceu com essa ousadia?Acho que ousadia tem hora. E não é transmissível para covardes ou conformados. Com perdão dessa gigantesca fatia da humanidade.No documentário Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, o Pasquim é apontado como um dos primeiros jornais a iniciar o enterro da carreira do cantor, depois da acusação de ser ele um informante do Dops. Passados os anos, como você vê essa situação?Simonal se suicidou, eis tudo. Grande cantor com seu balanço famoso, audacioso (vi-o obrigar uma plateia enorme a cantar Meu Limão, Meu Limoeiro, sair do palco e ir beber no bar ao lado. Quando as vozes iam diminuindo, ele voltava e esculhambava o público: "Pô, não se pode nem beber em paz?" A patuleia adorava, inclusive eu), ele não aguentou a própria contradição. Crioulo numa era a.O. (antes de Obama), o sucesso esmagador não lhe deu acesso à upper-crust artística. Ofereceu-se em holocausto, com o caso famoso das porradas no contador.Um dos méritos do jornal era o fato de não parecer "escrito", mas "falado"?Era ser bem pensado, um pensamento original, porque espontâneo.Se os militares custaram a acordar para o jornal, havia o risco de ele implodir prematuramente, pelos choques entre as estrelas do time? Quais eram os limites da boa convivência?Na minha lembrança, a convivência era ótima. Não havia por que se ofender. Todo mundo se esculhambava. Abrindo a coleção agora me deu uma emoção retrospectiva de ver o plantel com quem tive a sorte de me juntar. E olha que eu vinha de O Cruzeiro, onde, menino ainda, trabalhava com outros meninos. Jean Manzon, Franklin de Oliveira, Alceu Pena, Davi Nasser, José Medeiros, etc., etc., etc.Como foi seu trabalho como "interventor convidado", encarregado de sanear as finanças, nos anos 1970?Também aí, tive a sorte de ter o apoio de grandes personalidades, fora do contexto imprensa: Fernando Gasparian, José Aparecido de Oliveira e Luis Lopes Coelho, grande advogado paulista, figura inesquecível.

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