''Todo esse assédio não é normal''

Popular em Cannes, Vicent Cassel, de À Deriva, ainda estranha tanta euforia

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 00h00

Duas relativas decepções brasileiras aqui no 62º festival. Na quarta-feira à noite passou o filme de Eduardo Valente, No Meu Lugar, que ele, como diretor vitorioso na Cinéfondation, tinha direito de exibir no maior evento de cinema do mundo. A sala do 60ème, criada há dois anos para abrigar a programação especial do evento, estava quase completamente lotada para ver o filme. A Claude Debussy lotou até o teto para ver À Deriva, de Heitor Dhalia, anteontem. O filme integra a programação da mostra Um Certain Regard. No final, foi um dos mais aplaudidos, até agora.Vincent Cassel interpreta o pai, um escritor de origem francesa, que tem uma relação incestuosa com a filha no filme de Dhalia. Cassel subiu ao palco, disse que se chamava ?Vicente? e se definiu como ator franco-brasileiro. Ontem, não apenas ele, mas Débora Bloch, que faz sua mulher, Laura Neiva (a filha) e Cauã Raymond, mais o diretor Heitor Dhalia, conversaram com o repórter do Estado na praia do Hotel Carlton (a Orange). Estavam eufóricos com a recepção.Débora faz sua estreia em Cannes, Cassel é figura carimbada no tapete vermelho, sozinho ou com a mulher, a top star Monica Bellucci. Mas ele sempre estranha esse circo. "Não é normal, esse assédio", Cassel diz e é verdade. Débora cita um diretor de teatro (Domingos Oliveira) - "O ator sempre agrega alguma coisa ao personagem." Após um casamento de 15 anos, ela se sente habilitada a interpretar essa mulher madura que enfrenta uma crise na relação. Cassel diz a mesma coisa de seu personagem, mas ela, para resumir tudo em poucas palavras, é de longe a melhor coisa que À Deriva tem para oferecer.O filme é inspirado em episódios da vida do diretor - sua juventude na praia, a dissolução do casamento dos pais. Mas Dhalia faz a ressalva - "É um filme pessoal, não autobiográfico." É curioso que ele se sinta assim, porque o filme, embora visualmente belo, é menos intrigante, ou parece, como projeto de autor, menos ?pessoal? do que Nina e O Cheiro do Ralo, que eram muito diferentes. Muito? A violência que permeia as relações, a capacidade que os personagens têm de se agredir uns aos outros, não é tão diferente assim. Dhalia troca interiores pela natureza, a noite pelo dia, muda a embalagem, em suma, mas a essência...O filme começa e termina com a imagem de Cassel e Laura Neiva (a filha) boiando no mar, com certeza para representar essas vidas à deriva. Pode-se fazer um paralelo com o filme de Valente. No dele, as vidas estão em suspenso nessa casa que foi cenário de uma ação violenta. A casa é uma metáfora do País? "Nunca pensei nela dessa maneira, talvez uma metáfora do Rio, onde há uma proximidade muito grande, às vezes uma promiscuidade, entre a classe média e a favela." Da sala da casa pode-se ver a favela e os personagens trafegam entre um espaço e outro numa trama que percorre vários tempos e multiplots. Esses últimos parecem um território do cineasta mexicano Alejandro González-Iñárritu, que Valente, como crítico, não parecia aprovar. Iñárritu usa o multiplot geralmente concluindo numa cena de impacto que atira o filme para cima e, em Babel, leva o público a uma reação entusiasmada, quase sempre aplaudindo. Valente tem a coragem de subverter esse final ?explosivo?.Ele talvez pague um preço por isso. A reação um pouco desconcertada que No Meu Lugar provoca - vários tempos, mudanças fortes no comportamento dos personagens - pode ser decorrência de momentos que deixam a desejar, mas também puro estranhamento de um filme que não se oferece facilmente para o espectador. Valente sabe disso. "Desde que mostrei o filme no Festival de Tiradentes, algumas pessoas me dizem que só vendo de novo conseguiram entrar no tempo, no clima." O que o leva a concluir, como crítico, mais até do como autor: "Cannes é uma grande vitrine para mostrar o filme, mas o clima de correria não favorece a absorção."

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