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Toda a invenção do caricaturista J. Carlos em mostra do Centro Cultural dos Correios

Exposição, que vai até 20 de novembro, reúne mais de 300 desenhos e ilustrações do artista, morto em 1950, que revolucionou as artes gráficas no Brasil

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2016 | 04h00

A exposição J. Carlos em Revista, em cartaz até 20 de novembro, no Centro Cultural dos Correios, não é apenas um tributo ao caricaturista, designer e publicitário carioca José Carlos de Brito e Cunha (1884-1950), que criou a figura da melindrosa, mas uma mostra do seu talento como cronista da modernidade carioca. Percorrendo os três módulos da exposição, que tem mais de 300 peças entre desenhos, animações e recortes em madeira, é possível acompanhar as transformações do Rio, desde a República Velha até o Estado Novo. J. Carlos documentou em seus traços as mudanças do Brasil rural para um país industrializado, ainda que não sob um ponto de vista oficial. Aliás, ele foi bastante crítico com os donos do poder.

Com curadoria da designer Julieta Sobral, autora de uma dissertação de mestrado sobre J. Carlos, e do caricaturista Cássio Loredano, um dos profissionais mais respeitados da área, a mostra traz provas da mordacidade com que foram tratados todos os presidentes da República até os anos 1950, de Campos Sales (1898/1902) ao marechal Dutra (1946/1951). O módulo Cronista é o mais ácido da mostra, por abordar o lado popular do trabalho de J. Carlos como caricaturista, gênero surgido no Brasil em 1840 e do qual foi mestre das gerações seguintes.

No módulo Designer estão reunidas obras que são preciosas referências sobre a evolução da linguagem visual no Brasil, como as revistas Para Todos, da qual foi diretor, além de publicações de comentário social e político, como O Malho e O Careta. J. Carlos também criou capas para revistas como O Cruzeiro e A Cigarra, estabelecendo um padrão gráfico de excelência e criando uma diagramação inventiva, que consagrou molduras e vinhetas.

Finalmente, no módulo Publicitário, destaca-se o lado menos conhecido do trabalho de J. Carlos, que produziu mais de 50 mil ilustrações para revistas. Aos 20 anos, o desenhista já desenvolvia uma linguagem agressiva, abusando dos contrastes cromáticos numa época em que o padrão art nouveau – de cores sóbrias e paleta desbotada – dominava. Prova disso é que, em 1904, ele produziu uma capa para a revista A Avenida com um fundo vermelho forte e um bigodudo de chapéu verde em primeiro plano.

As campanhas publicitárias de J. Carlos eram alegres, de um cromatismo vigoroso, como a do filme norte-americano Voando para o Rio, lançado em 1933, estampada numa capa da revista semanal O Cruzeiro. Curiosamente, J. Carlos foi o primeiro ilustrador do rato Mickey no Brasil, nos anos 1930, sendo posteriormente convidado a trabalhar com Walt Disney em Hollywood. Não aceitou, mas mandou para ele o desenho de um papagaio que, dizem alguns pesquisadores, inspirou o personagem Zé Carioca.

Sorte nossa que ele ficou por aqui. Numa época em que a crônica visual recorria basicamente ao desenho, todas as roupas, incluindo trajes de banho, além de penteados e fantasias dos foliões no carnaval eram documentados pelo traço de J. Carlos, um flâneur de olho clínico para captar modas e tendências de cada época. E, vale lembrar, ele passou por duas guerras mundiais e algumas revoluções no Brasil republicano.

Era na Para Todos, a revista do glamour, que o desenhista parecia encontrar um posto tranquilo para esquecer o cotidiano conturbado e testar suas experiências gráficas sem vínculo com o jornalismo investigativo. Nas capas da revista reinava a figura feminina, sempre sensual, reduzindo os homens à dimensão dos habitantes da minúscula Lilliput – quando não representados como gárgulas ou gnomos.

Todas as imagens da Para Todos, assim como da revista O Malho, guardadas na Biblioteca Nacional, foram cuidadosamente digitalizadas pela dupla de curadores da mostra e preservadas no Instituto Memória Gráfica, criado há seis anos por Julieta Sobral, neta do arquiteto Lúcio Costa, e Cássio Loredano.

O Instituto Moreira Salles (IMS) fez um acordo com a família de J. Carlos e guarda o acervo com os desenhos originais. A coleção foi incorporada no início de 2015 pelo IMS, que cuida da catalogação de sua obra. Muitos desenhos foram extraviados antes disso, ou ficaram nos arquivos dos jornais e revistas em que as ilustrações foram publicadas.

J. Carlos sofreu uma hemorragia cerebral e morreu, aos 66 anos, em pleno trabalho, enquanto desenhava a capa de um disco do compositor João de Barro, o carnavalesco Braguinha.

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