''Tive vontade de me matar quando li A Metamorfose''

Marcelino Freire, escritor

depoimento a Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

Nascido em Sertânia (PE), em 1967, Marcelino Freire mora em São Paulo desde 1991. É autor, entre outros, dos livros de contos Angu de Sangue (Ateliê), Contos Negreiros (Record), vencedor do Prêmio Jabuti de 2006, e de Rasif - Mar Que Arrebenta (Record). Em 2004, organizou a antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê). Marcelino Freire é o criador da Balada Literária, evento que reúne dezenas de escritores, nacionais e internacionais, no bairro da Vila Madalena. Mantém o blog eraOdito (www.eraodito.blogspot.com).Que livro você mais relê? Eu releio muito os poemas de Manuel Bandeira e os contos do Julio Cortázar e Machado de Assis. Os três estão sempre em minha cabeceira. Pego uma frase deles, aqui e ali, e fico remoendo, decorando. A releitura é boa por isso: é uma reintegração de posse.Um livro muito bom mas injustiçado pelo público ou pela crítica?Talvez não se tenha dado a devida ouvida ao primeiro livro de contos do Ferréz, Ninguém É Inocente em São Paulo. Foi um salto na obra do cabra. Uma voz certeira e poeticamente raivosa - um João Antônio do Capão Redondo. Outro título que merece ser descoberto: a novela Mercadorias e Futuro, que o Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, acabou de publicar.Cite um livro surpreendente, ou seja, bom e pelo qual você não dava nada.Espantosa foi a novela O Cheiro do Ralo, de Lourenço Mutarelli. Fui, assim, achando que o cara jamais conseguiria superar, literariamente, a genialidade dos seus desenhos. Conseguiu.A boa literatura está cheia de cenas marcantes. Cite algumas.A morte de Macabéa no livro A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. A morte da cachorra Baleia no Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Aliás, eu sempre digo que Macabéa e Baleia são a mesma pessoa: Macabaleia. Têm o mesmo rabo de olho as duas. A primeira morre vendo a imagem de um príncipe dentro de uma Mercedes-Benz, a outra, a cadela, vendo transatlânticos preás.Que personagens são tão marcantes que ganham vida própria na sua imaginação de leitor?Madame Bovary sou eu. Tem dias que sou Diadorim, Macabéa. Hoje eu acordei Raskolnikov.Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?Tive vontade de me matar quando li A Metamorfose e O Processo, de Kafka. E que livro mais o fez pensar?Manual do Podólatra Amador, de Glauco Mattoso. Ainda adolescente no Recife, lembro, passei noites pensando em chulés e botas de recruta. Só pensando...De qual autor você leu tudo, ou quase tudo? Li tudo do escritor português Vergílio Ferreira. Digo tudo, assim, que vou encontrando em sebos. Gosto da poesia, do clima, do sotaque peculiar que ele tem. Cite um livro que foi fundamental em sua formação, mesmo que hoje você não o considere tão bom como na época em que o leu.Lembro-me que chorei deveras quando li, meninote, o romance Eurídice, de José Lins do Rego. Choraria mais se o lesse agora, creio... Um livro meio chato, mas bom.Avalovara, de Osman Lins, é um chato clássico. Outros bons chatos de galocha: Ulisses, de Joyce, A Pedra do Reino, de Suassuna, O Lustre, de Clarice.Um livro que você acha que deve ser muito bom mas jamais leu.Alguns romances de António Lobo Antunes. Sou fissurado pelos que li. Mas a toda hora tem um calhamaço novo dele nas livrarias. Sei que são bons, mas deixo sempre para depois. Um livro que começa muito bem e se perde no caminho.As Aventuras de Robinson Crusoé, de Daniel Dafoe. O protagonista começa muito bem e se perde no caminho .Um livro ruim, por ser pretensioso.Dom Quixote é pretensioso, metido, aluado, fora de noção e é bem bom.Um livro pior do que o filme baseado nele.O Guarani, de José de Alencar. O livro é ruim. E o filme, pior.De que livro você mudaria o final? Por quê?Mudaria o final da Bíblia. Mas creio que seja tarde demais.A literatura contemporânea é muito criticada. Que livro publicado nos últimos dez anos mereceria a honraria de clássico?A literatura contemporânea precisaria ser mais criticada. Até agora, salvo exceções, só foi mal resenhada. Acho que há preguiça em relação a ela. Má vontade até. Mas vejamos. Creio que já tenhamos alguns marcos: Milton Hatoum e o seu Relato de Um Certo Oriente. Joana a Contragosto, de Marcelo Mirisola. A Cabeça, de Luiz Vilela. Grogotó!, de Evandro Affonso Ferreira. Há um conto do Joca Reiners Terron, do livro Curva de Rio Sujo, que eu acho um clássico: Monarks Atravessam o Apa. Há contos idem do Nelson de Oliveira geniais.Para que clássico brasileiro você escreveria um prefácio incitando a leitura?Para São Bernardo, de Graciliano. O primeiro romance que li. Tenho uma relação afetiva e de devoção com este livro. E assinaria embaixo acerca de qualquer obra de Campos de Carvalho. E ainda tem a minha paixão pelo O Cão Sem Plumas, de João Cabral.Que livros sempre presentes nos cânones que não mereceriam seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?Prefiro lembrar dos esquecidos: Ascenso Ferreira, Hermilo Borba Filho, Maura Lopes Cançado, Rosário Fusco. E dizer do meu espanto ao conhecer, há pouco, a poesia de Max Martins. Grande! Tem 82 anos e sobrevive em Belém.Que livro festejado pela crítica você detestou?Qualquer um do Paul Auster. Oh! My God!E de que livro demolido por críticos você gostou?Não diria demolido, mas de vez em quando leio resenhas rabugentas em relação a alguns livros do Dalton Trevisan. Um gênio! Repetem que ele se repete. Pois continue assim, mestre, se repetindo, se repetindo, se repetindo brilhantemente. O mais recente dele, O Maníaco do Olho Verde, é primoroso!Quais bons autores você só descobriu alertado pela crítica?Lembro de ter lido José Castello falar sobre Altair Martins. Faz tempo. Fui conferir os contos do jovem autor gaúcho e me deparei com um escritor raro, original, maduro. Que virtude mais preza na boa literatura?A coragem. GaleriaMutarelli: O Cheiro do Ralo é surpreendente.Manuel Bandeira: está na cabeceira de Marcelino.

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