Titãs inéditos: da balada ao protesto

Críticos, ecológicos, apaixonados, eles estão de volta com o álbum Sacos Plásticos, o 16.° da banda em 27 anos de carreira

Adriana Del Ré, O Estadao de S.Paulo

09 de junho de 2009 | 00h00

Houve quem torcesse o nariz quando foi anunciado o novo CD dos Titãs, Sacos Plásticos, o 16º da banda em 27 anos de carreira. O motivo tem nome e sobrenome: Rick Bonadio. O homem por trás do sucesso de bandas como NX Zero, CPM22 e Mamonas Assassinas, Rick é considerado um produtor com uma pegada de trabalho mais comercial. Ele mesmo já admitiu várias vezes que não se importa com o rótulo que ganhou. Os Titãs também não. "A gente sabe que ele é produtor eclético", endossa o vocalista Branco Mello.Para o guitarrista Tony Bellotto, Rick não poderia ter aparecido em melhor momento, já que a banda, assim como tantas outras, sofriam com o pessimismo do mercado. "A gente estava na Sony-BMG no auge da crise e os executivos só reclamavam. O Rick também é executivo (diretor da Arsenal Music, responsável pelo lançamento do disco, com distribuição da Universal), mas não fica se queixando, acredita que há um mercado grande para a música."Juntou a fome com a vontade de comer. De um lado, os Titãs tinham ideia fixa de que inovariam, mas sem mexer em sua matriz sonora. De outro, Rick não escondia a vontade de produzir um disco deles.Com a nova parceria, os Titãs ficaram no céu. Um estúdio foi colocado à inteira disposição, além da garantia de que teriam liberdade e tempo para se dedicar ao novo projeto. "Rick sempre esteve muito próximo, acompanhando tudo", afirma Britto. Quando o quinteto precisou de alguém para assumir as programações eletrônicas, lá estava o produtor chamando a tarefa para si.As tais texturas eletrônicas é que dariam o tom diferenciado a esse novo disco da banda. De resto, o processo de composição em conjunto e a base sonora dos Titãs não mudariam. Sacos Plásticos não é o CD de música eletrônica deles, longe disso. Aliás, esses recursos não são nenhuma novidade em sua discografia: já foram experimentados em álbuns importantes, como Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas e O Blesq Blom. "A gente não queria virar banda de música eletrônica", brinca Bellotto. "Queríamos incorporar esses elementos numa banda de rock com formação clássica."E como a referência para este CD, segundo Miklos, são eles mesmos, a banda decidiu assumir de vez todos os instrumentos. Por isso, Miklos e Britto estreiam na guitarra e no baixo, respectivamente. O grupo só abriu brecha para poucas participações especiais: Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, assina parceria com Bellotto e Britto em Deixa Eu Entrar - e dá canja nela - e Arnaldo Antunes, que vira e mexe aparece em algum disco da antiga banda, compôs Problema em parceria com Miklos e Liminha.Durante a turnê dos Titãs, será inviável que Kisser os acompanhe, até por conta da agenda internacional do Sepultura. Assim, Miklos foi avisado pelos amigos, durante a entrevista ao Estado, de que terá de substituí-lo na guitarra. Nessa hora, ele engoliu seco e, sempre bem-humorado, saltou um sonoro "ferrou!" Ok, o vocalista deve ter pensado em alguma palavra pior, mas quis ser elegante. Os demais, claro, caíram na gargalhada.Tirando as novas atribuições, os Titãs estão em casa. Enquanto as programações eletrônicas surgem, muitas vezes, como texturas de fundo no novo Sacos Plásticos, o rock, meio punk, ou meio pop, ou meio reggae, continua a ser sua espinha dorsal. As composições voltam a recorrer a temas atuais, agora falando de consumismo desenfreado e degradação do planeta, e a soltar a verve crítica da banda em canções como Amor por Dinheiro (Britto/Bellotto) e Sacos Plásticos (Mello/Miklos).Como em rock também se fala de amor, o repertório inclui baladas como Antes de Você (Miklos) e Porque Eu Sei Que É Amor (Britto/Miklos). Em Deixa Eu Sangrar, Britto escancara uma tristeza pessoal, que bem poderia se referir a uma perda amorosa, mas, veladamente, sangra a dor da recente morte de sua mãe. Em Múmias (Miklos), tratam de um tema que lhes é caro, a música, com uma roupagem sonora à la anos 80.A música, certamente, é o que assegura a longevidade dos Titãs, mas só isso não basta. Em quase 30 anos de estrada, ainda parece existir entusiasmo em trabalhar junto, em compor a cinco mãos se assim for necessário, em encontrar entendimento em meio a conflitos. O documentário A Vida Até Parece Uma Festa, que refaz a trajetória deles e deve ser lançado em DVD em setembro, não deixa dúvidas sobre isso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.