Tintas de uma permanente rebelião

Em A Mão do Amo, Tomás Eloy Martínez abdica das ficções-verdade para compor uma fábula maledicente sobre o poder

Wilson Bueno, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

Para quem se acostumou com as narrativas, quase sempre apoiadas no factual, do argentino Tomás Eloy Martínez, autor, entre outros títulos bastante conhecidos, de Santa Evita, O Cantor de Tango e O Romance de Perón, para ficar só nesses, irá se surpreender com o irreconhecível ficcionista de A Mão do Amo, que acaba de ser publicado no Brasil, com tradução de Sergio Molina e Lucas Itacarambi. Refeito do choque seguirá então o eventual leitor as trilhas deste autêntico "ovni" literário, em mais de 150 páginas de pura literatura e agressiva invenção.Eloy Martínez não se prende a nada, a nenhuma convenção, a nenhum modelo face a um gênero, o romance, useiro e vezeiro em obedecer as estritas leis da tradição - de resto inócuas, por gastas e congeladas. É como se, com o título recém-lançado, estivesse disposto a se vingar de tudo o que o compromisso com fatos e eventos do "real", mal ou bem, o obrigaram, nos livros anteriores, a que não saísse dos trilhos nem deixasse a imaginação ir longe demais. E aqui, podemos assegurar, o autor argentino se vinga exemplarmente.O que assistimos, do começo ao fim, é à história de um anti-herói por excelência, o delirante pobre-diabo Carmona, cantor lírico desde sempre esmagado sob o peso de "Mãe", a castradora e edipiana figura que pontua o romance do primeiro ao último capítulo. Com isso, Martínez inscreve e escreve a "biografia" não de um personagem "de carne e osso", como gostavam de exaltar nossas tias-leitoras, mas, pelo contrário, de uma vera "persona" de papel. E se deixa conduzir, o escritor, pelas tintas de uma permanente rebelião, sobretudo contra a nunca assaz louvada verossimilhança, "virtude" de nove entre dez romanções destinados a entreter o fim de semana de entediados executivos, aqui ou alhures. E que fazem, ou faziam, igualmente, a delícia de nossas tias minuciosas...Como a salvar-se, de si mesmo, das "ficções-verdade" que sempre foram a sua marca, o autor argentino e professor da Rutgers University, em Nova Jersey, além de notável resenhista do New York Times, que distribui suas matérias para mais de 200 jornais em todo o mundo, não faz por menos: neste A Mão do Amo vai além de todos os limites. Embora o romance tenha um entrecho - mesmo que enredado em si mesmo -, com começo, meio e fim, nada aqui se acomoda ao tatibitate a que estamos habituados frente aos textos literários de um modo geral.Guiados por "personagens-abstrações", "Mãe", "Pai", as "Gêmeas", a esquiza sra. Doncella (que apesar do nome próprio é quase um fantasma contraditório), e a onipresença terrível dos Gatos, estes invariavelmente na fímbria entre o sublime e o sinistro, o que Eloy Martínez compõe - antes de tudo - é uma fábula malévola e maledicente sobre o Poder. Não propriamente o dos tiranos públicos de ontem ou de hoje, mas este arraigado na prática comezinha e nem por isso menos deletéria das inter-relações pessoais, do nazi-fascismo que pode habitar nosso cotidiano - diária e insidiosamente. Em foco a opressão e a angústia de sermos obrigados a conviver num mundo em que as trocas são sempre injustas. Desiguais os câmbios ali onde, sempre, um de nós será o perdedor compulsório; a cara a tapas; o teatro perverso de opressores e oprimidos, não necessariamente nessa ordem e nem sempre nos mesmos papéis... Um pode tomar gosto pela opressão do Outro. E invejá-la..."Mãe" é, até por contigüidade vocabular, a mãe do "amo", a mão do amo... E Martínez não deixa de ressaltar o quanto o verbo "amar" e o substantivo "amo", em diversas línguas misturam-se a "mama", "mamãe", numa alocução cinicamente lacaniana que o escritor argentino faz questão de deixar clara. Pois nesse universo de cambiâncias, ali onde mora a grande ou a microlinguagem, é que a ambigüidade desvela as faces e contrafaces da constituição de um filho, no caso Carmona, o protagonista do romance, feito para que se ame, para que se mate, à mão, à mãe; meu amo, meu amor...Dono de "voz absoluta", vocacionado às grandezas do canto lírico, Carmona, contudo, por mais visíveis os seus talentos, tentará tudo para chegar a ser "Um", mas fracassará, colado a esta Mãe que se amplia e expande territórios, felliniana e mantenedora de um narcisismo pervertido e para sempre original e/ou originário. Aranha ávida, "Mãe" não permite que nada escape à sua teia, posto que ama, mas com tal ódio, que chega a instruir "Pai" a que mate a cria incômoda.A nos arrebatar em volteios estilísticos - feito um painel de Don Goya y Lucientes -, sob contínuos "disparates", de fundo e de forma, como convém aos melhores "disparates" barrocos, A Mão do Amo oscila entre o que diz e o que insinua, usando e abusando deste autêntico "hermafrodita moral" em que se "conforma" o personagem Carmona, baixo os tacões da Mãe funesta. Numa operação literária em todos os sentidos arriscada, Tomás Eloy Martínez consagra os devaneios do inconsciente ao andado do texto e da história. Tanto assim que, em determinados momentos do livro, o sujeito da narrativa mistura-se à voz do narrador e já não sabemos distinguir quem narra do que é narrado. Narramo-nos a nós mesmos. Talvez aí uma "falha" dessa ficção assinalada por lacunas, reticências e intervalos - só ao final da prosa lancinante, o autor parece se permitir mais este disparate, agora o de embaralhar as vozes narrativas, sem que isso torne o texto, digamos, incompreensível. Simplicidade e clareza - não importa por onde a escrita ande ou desarvore.E não bastasse "Mãe", "Pai", as "Gêmeas-Irmãs", os "Turcos", a "Voz" castratti, esta uma quase entidade; tangível; e não bastasse ainda a ambígua geografia das Montanhas Amarelas, de onde Carmona foi cuspido das entranhas de "Mãe", Eloy Martínez, no papel de um maestro febril, cobra vigor e arrebatamento a um Coro de Gatos! São eles, os gatos, que fecundam esta tragicomédia musicada digna de um palco com cenários de isopor pintados à mão; maçãs de plástico.Mais que uma ópera bufa, A Mão do Amo parodia os "romances de formação", com o patético aqui servindo a uma irrefreável comicidade. Delirante como delirante será sempre o suplício de alguém acuado por gatos, dezenas deles, de diferentes tamanhos e pelagens, numa selvageria que põe, entre outras, o frustrado Carmona, sob o risco de ser arranhado vivo até a morte - por agulheiros de dentes e o riscar belicoso de unhas.E, inesperado "efeito", uma vez atravessadas as fabulações pesadelares, de um surrealismo trágico e arrebatador, o que fica mesmo como saldo do aparente caos em que Tomás Eloy Martínez mergulha o leitor, é a lição cristalina - e clássica -, de que inexiste tortura, se não estiverem prontamente acordados, entre si, torturado e torturador.Um livro raro. Reafirma o autor argentino como uma das grandes vozes da moderna literatura latino-americana. Sobretudo pelo que experimenta novas sendas para o já trôpego "realismo mágico", do qual, por incrível que pareça, A Mão do Amo pode estar em débito, mas é - acima de qualquer coisa - paradoxalmente em vários sentidos desestabilizador. Wilson Bueno, escritor, é autor, entre outros, de A Copista de KafkaA Mão Do AmoTomás Eloy MartínezCompanhia das Letras 168 págs., R$ 36,00

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