''Tínhamos a Camorra nos vigiando''

O ator Toni Servillo fala da dificuldade de participar de Gomorra, filme de Matteo Garrone em que protagoniza o mafioso Franco

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

Durante sua presença no Brasil, para participar do Festival do Rio, no começo de outubro, o diretor e roteirista italiano Gianni Di Gregorio falou bastante de sua parceria com Matteo Garrone, realizador do excepcional Gomorra, que estréia hoje, e também sobre o ?Leoncino? - o Leão de Ouro para melhor filme de diretor estreante - que recebeu no recente Festival de Veneza, por Pranzo in Agusto. Di Gregori teve, porém, mais um assunto para tratar com o repórter do Estado, que queria saber mais sobre Toni Servillo. "É o maior italiano vivo", talvez tenha exagerado um pouco o cineasta. "É um ator na tradição de figuras míticas do passado, como Marcello Mastroianni, Vittorio Gassman e Alberto Sordi, e num certo sentido os ultrapassa, porque nenhum possuía, como Toni, essa extraordinária capacidade de mudar, física e emocionalmente, para melhor servir ao personagem." Assista ao trailer de Gomorra Quando se fala no revival atual do cinema italiano, a revalorização passa com certeza por dois autores de filmes que representaram a Itália no Festival de Cannes, em maio. Um deles foi justamente Gomorra, que Matteo Garrone adaptou do romance de não ficção de Roberto Savério, autor jurado de morte pelo crime organizado. O outro foi Il Divo, de Paolo Sorrentino, de quem Servillo é o ator fetiche, tendo interpretado, também, outras obras essenciais do autor, como As Conseqüências do Amor e O Amigo da Família. Ambos os filmes foram laureados em Cannes, um com o Grand Prix (Gomorra), o outro com o prêmio do júri (Il Divo), mas o prêmio que seria indiscutível - o de melhor ator para Servillo -, o júri presidido por Sean Penn preferiu atribuir ao Benicio Del Toro de Che, de Steven Soderbergh.Júris são sempre imprevisíveis, fazem composições de prêmios, e, até quando acertam, é raro que não ocorra uma injustiça - uminha, que seja. Benicio Del Toro, que encerrou em alto estilo a Mostra de São Paulo, pode ser um astro e ter mais glamour do que Toni Servillo, mas melhor ator não é, com certeza. Gomorra é o indicado da Itália para concorrer a uma vaga no próximo Oscar. Pode até ser que consiga, mas é pouco provável que Servillo seja indicado para concorrer a melhor ator. Hollywood, com as exceções de praxe - a francesa Marion Cotillard foi melhor atriz no ano passado, por Piaf - Hino ao Amor, só consegue olhar para o próprio umbigo. Mas seria um caso elementar de justiça se Toni Servillo fosse pelo menos indicado entre os cinco.Sendo diferentes em técnica e estilo - Gomorra é uma reportagem realista e violenta, na vertente de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles; Il Divo é uma representação elaborada, como costuma ser o cinema de Sorrentino, agora sobre o mundo da política -, ambos os filmes se completam e você terá oportunidade de confirmar isso quando, ou se, Il Divo também furar o bloqueio da distribuição e chegar às telas brasileiras. Gomorra trata das estruturas do poder no mundo do crime, mostrando como a Camorra, a Máfia napolitana, recruta seus integrantes e domina a cidade pela corrupção e pela violência. Gomorra trata de um poder paralelo, um fenômeno do submundo. Il Divo, cinematografia do ex-premier Giulio Andreotti, trata do poder no topo da pirâmide social e política.Servillo consegue ser, com idêntica excelência, o persuasivo chefe criminoso de Gomorra e o político que encarava sua função como arte e a exercia com tanto virtuosismo que era chamado de ?divo?. O Servillo de Gomorra é mais próximo daquilo que o ator é, fisicamente. Sua composição é pesada em Il Divo, mas não mais do que a daquele usurário que interpretou no filme precedente de Paolo Sorrentino, O Amigo da Família. A questão é: quem é esse homem, um ator tão extraordinário e, ao mesmo tempo, tão pouco conhecido? Nascido em 1959 e irmão do músico Beppe Servillo, Toni freqüenta os palcos com a mesma desenvoltura como aparece na tela do cinema e da TV. No teatro, é também diretor (de montagens de textos clássicos e modernos). No cinema, a carreira tem apenas 16 anos, e seu primeiro papel importante foi em Morte di Um Matematico Napoletano, de Mario Martone. Na TV, o maior triunfo foi com Sabato, Domenica e Lunedi, adaptado da peça de Eduardo De Filippo.Ele acaba de ganhar o troféu de melhor ator europeu do ano por seu papel como Franco, em Gomorra. Franco conduz o lucrativo negócio que consiste em transformar terras boas para agricultura em cemitérios para depósito de lixo tóxico. Andreotti, em Il Divo, exibe seu poder como num teatro. Franco esconde o jogo. Sua arte de criminoso consiste em ser discreto e ele parece um bom sujeito disposto a ajudar todo mundo.Na coletiva de Il Divo, em Cannes, Servillo disse que, embora já tivesse trabalhado muitas vezes com Paolo Sorrentino, nunca, como neste filme, ele teve tanto a impressão de um (re)começo. "Filmamos com o entusiasmo de quem se iniciava na carreira, talvez porque o próprio personagem, embora muito conhecido, seja um intocável na Itália." Servillo documentou-se de todo material possível para fazer o seu Andreotti, mas chega um momento em que o ator tem de criar, não copiar. "Tentei fazê-lo humano, e cômico, mas evitando o risco da caricatura. Era o que Paolo (Sorrentino) me dizia o tempo todo - evitemos a caricatura." Depois de tantos dramas, ambos ensaiam fazer agora uma comédia que seja também uma forma de homenagem aos grandes do humor à italiana.Embora seja napolitano, Servillo admite que não foi fácil fazer Gomorra. "Matteo (o diretor Garrone) filma somente em locações. Em todos os seus filmes, o cuidado com a escolha dos ambientes e a figuração faz parte de um método muito elaborado, por mais que seu realismo pareça espontâneo. No caso de Gomorra, tínhamos a Camorra de olho na gente, mas ao contrário de Savério (o escritor) eles perceberam que não estávamos documentando suas atividades e terminaram por nos deixar livres para filmar. O maior problema terminou sendo o dialeto. Matteo gosta de improvisar os diálogos, ele não apenas autoriza como incentiva os atores a se apropriarem das falas, para que fiquem mais verdadeiras. Eu próprio tive dificuldade para dominar o dialeto napolitano." O fato de ter sido lançado com legendas em italiano, não impediu que Gomorra fosse um grande sucesso de público no país e até no exterior. Gomorra concorre com Última Parada 174, de Bruno Barreto, outro filme sobre violência urbana, a uma vaga no Oscar. Em menos de um mês, saberemos qual dos dois - ou se ambos - vão disputar a estatueta dourada da Academia de Hollywood. A indicação mais merecida, a de Toni Servillo, esta parece improvável, mas... Quem sabe? O Oscar, afinal, não é, como se diz, uma caixinha de surpresas? ServiçoGomorra (Gomorrah, Itália/2008, 137 min.) - Drama. Dir. Matteo Garrone. 18 anos. Cotação: Ótimo

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