Thomaz Farkas ganha mostra em galeria 3 anos após sua morte

Artista é um dos ícones da fotografia moderna no Brasil

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

08 de novembro de 2014 | 03h00

Em mais de meio século de atividade, o pioneiro da fotografia moderna brasileira Thomaz Farkas (1924-2011) jamais teve uma exposição individual numa galeria comercial, apesar de estar representado no acervo de importantes instituições, como o Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York e o Instituto Moreira Salles. Memórias e Descobertas, a mostra que a Galeria Luciana Brito abre neste sábado, representa, portanto, uma oportunidade de ver um conjunto orgânico de imagens que cobre mais de 30 anos da trajetória do fotógrafo, dos primeiros trabalhos da década de 1940 - paisagens e cenas urbanas, arquitetura carioca e paulistana, além de ensaios de balé - aos trabalhos dos anos 1970, quando atuou como produtor e realizador de documentários sobre vida e cultura popular em várias regiões do País, cruzando o interior com sua Caravana Farkas. Por ela passaram cineastas como Paulo Gil Soares e Geraldo Sarno, além de fotógrafos premiados como Affonso Beato.

Identificado com a vanguarda americana e europeia nos anos 1940, Farkas, nascido em Budapeste, começou com fotografia experimental e foi aos poucos redescobrindo o Brasil profundo, até se tornar um dos seus principais intérpretes, especialmente como produtor da série Brasil Verdade, da qual faz parte o clássico Viramundo (1968), exercício documental corajoso por buscar as razões da vitória do golpe militar de 1964 sem resistência popular. Também formalmente ousado, o filme antecipou o efeito looping depois usado num filme australiano dirigido por Ted Kotcheff, Outback. Ele começa e termina numa linha de trem, mostrando a chegada e a partida de migrantes num ciclo tenso, dramático.

A individual de Farkas na Galeria Luciana Brito traz excertos de filmes produzidos pelo fotógrafo e selecionados por José Carlos Avellar. O crítico dá seu depoimento sobre a generosidade desse homem que, sócio de uma das primeiras lojas de material fotográfico do Brasil, a Fotoptica, presenteou o jornalista com uma lente para sua Leica, gesto que repetiu com dezenas de outros fotógrafos amadores. Entre todas as imagens, há uma histórica, o registro do concerto de Pixinguinha nas comemorações do 4.º Centenário de São Paulo (1954).

A exemplo de Gautherot, outro estrangeiro fascinado pelo Brasil, Farkas foi um dos primeiros fotógrafos a registrar o nascimento de Brasília, ainda quando a capital era apenas um canteiro de obras, no fim dos anos 1950. Mas, ao contrário de Gautherot, que tinha seu olhar dirigido para a arquitetura de Niemeyer, Farkas preferiu colocar os operários em foco, documentando o advento do núcleo bandeirante na Capital Federal. Mesmo no dia da inauguração de Brasília, ele não se deslumbra com o Congresso Nacional, mas com os populares subindo a rampa, revelando sua simpatia pelos deserdados.

Esse engajamento político o levaria à prisão, em 1968, acusado de extremista e de “promover a união Brasil-Cuba”. Emissoras estatais não compravam seus filmes, porque mostravam “muita miséria”. Farkas seguiu em frente e, durante todo o tempo que durou a ditadura, continuou registrando o Brasil esquecido, participando de expedições pela Amazônia nos anos 1970 e fotografando tipos da vilas ribeirinhas - no piso superior da galeria há várias imagens dessa época.

São fotos pouco vistas, assim como as da coleção da família Farkas expostas no mesmo piso, todas elas tiragens da época. Raras cópias vintage dos ensaios de balé que Farkas registrou na União Nacional dos Estudantes (UNE) se encontram ao lado de fotos pelas quais o nome do fotógrafo foi associado aos formalistas dos anos 1940, entre eles Edward Steichen, que foi diretor da área no MoMA, entre 1947 e 1962. Outras influências importantes na época em que Farkas se associou ao Foto Cine Clube Bandeirantes foram Edward Weston, Ansel Adams e Paul Strand, o que pode ser atestado pela série de imagens que mostram bailarinos fotografados por ele nos anos 1940, entre os quais se destaca Maria Angélica Faccini, do Balé da Juventude da UNE.

Filho de Farkas e também fotógrafo, João Paulo Farkas, curador da exposição ao lado de Sergio Burgi, aponta as seis fotos que o MoMA tem em sua coleção, todas elas dessa época, em que ele busca ângulos insólitos, como a fachada lateral do Ministério da Educação no Rio, ou um fragmento da barragem de uma usina e ainda um recorte do mirante do Trianon, todas as fotos feitas em 1945 (elas estão agrupadas nesta página sob a imagem da bailarina Maria Angélica Faccini).

Os colecionadores têm especial interesse por elas. João Paulo Farkas revela que a Tate está interessada em adquirir fotos do seu pai, provavelmente para enriquecer a coleção de “straight photography” depois que promoveu há 11 anos uma mostra com os representantes do movimento que inspirou Farkas. O filho observa que o pai, “discreto como um húngaro”, não era muito de teorizar e discutia pouco o ofício com ele, apesar de João Paulo ter herdado a vocação fotojornalística do pai, que, embora não fosse um profissional da imprensa, colaborou com o Estado em diversos períodos.

A tiragem das 100 fotos expostas é pequena. Varia de 9 a 17 cópias. Impressiona a qualidade das reproduções e a do papel usado por Farkas, cuja obra está reunida no Instituto Moreira Salles.

THOMAZ FARKAS

Ao lado de Geraldo de Barros (1923-1998) e German Lorca (1922), Thomaz Farkas (1924-2011) forma a trindade da moderna fotografia no Brasil, tendo realizado, em 1949, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) sua primeira exposição individual. No ano seguinte, ele e Barros projetaram o laboratório de fotografia do Masp, onde deu aulas. Nessa época realizou filmes experimentais na Vera Cruz, trocando correspondência com o diretor holandês Joris Ivens.

THOMAZ FARKAS

Luciana Brito Galeria.

Rua Gomes de Carvalho, 842, 3842-0634. 3ª a sáb., 10 h / 19 h. Grátis. Abertura neste sábado, 11 h.

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