Theo Angelopoulos e o tempo, na fronteira das almas

Sai O Passo Suspenso da Cegonha, com o casal mítico Mastroianni/Moreau

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

02 de setembro de 2009 | 00h00

Theo Angelopoulos mostrou em fevereiro, no Festival de Berlim, a segunda parte de sua trilogia dedicada a uma personagem mítica da cultura grega - Eleni, ou Helena. Angelopoulos continua construindo os mais belos, lentos e longos planos de sequência do cinema. E ele ama os desafios - seus planos contínuos envolvem complicados movimentos da câmera, combinados com verdadeiros balés de multidões.Até por isso, ele adquiriu a reputação de cineasta do tempo, mas se poderia acrescentar também - da busca e do limite. O Passo Suspenso da Cegonha, do começo dos anos 90, é quase uma súmula do autor. E a sua história é mínima. Todo o mistério se constrói na mise-en-scène, na inter-relação dos atores. Os protagonistas são Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau, retomando a parceria de A Noite, de Michelangelo Antonioni, 30 anos antes.Gregory Carr faz um repórter de TV que chega a uma cidadezinha de fronteira, em busca de um político que desapareceu com a mulher. Ele acredita havê-lo reconhecido, fugazmente, em meio a uma multidão de refugiados. Não acontece muita coisa - a fronteira é o espaço do impasse, no qual as pessoas vivem entre o desespero e a esperança. O político optou por sumir. Em seu último discurso, disse que era chegado o tempo do silêncio - e, numa linguagem poética, acrescentou -, para que se possa ouvir a música por trás do rumor da chuva.Em Paisagem na Neblina, sua obra-prima, Angelopoulos filmou Orestes que acompanha um casal de garotos na sua busca do pai, que vive numa Alemanha mítica. Em Um Olhar a Cada Dia e A Eternidade e Um Dia, voltaram a fronteira e os refugiados. Em The Dust of Time, segunda parte da trilogia de Helena, iniciada com The Weeping Meadow, em 2004, um diretor norte-americano de origem grega volta-se para sua mãe, Eleni, que viveu refugiada na (antiga) URSS, distante do marido, que foi para os EUA. A difícil reunião da família passa por fronteiras que não são só geográficas, mas interiores. Grande como é, Angelopoulos não é uma unanimidade. A crítica francesa o considera aborrecido. Diz que é ?pompier?, bombeiro - um artista que apaga a chama da arte e da revolução. Não entendem nada da tragicidade do exílio interno que consome os personagens de Theo, que, por sinal, em grego, quer dizer Deus. ServiçoO Passo Suspenso da Cegonha. Grécia, 1991. Com Mastroianni e Jeanne Moreau. Platina Filmes, R$ 19,90

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