The National: sombras e neblina

Som melancólico do grupo do Brooklyn, que é comparado a Joy Division, chega em outubro ao Brasil

Jotabê Medeiros, NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

06 de agosto de 2008 | 00h00

Sentado numa pedra no gramado do Central Park, ao lado da namorada, Rachel, o cantor do grupo The National parece tudo, menos o autor de músicas densas e profundas como Fake Empire, Green Gloves e Racing Like a Pro. Matt Berninger passeia pela pracinha a poucos minutos de seu show no Central Park SummerStage, festivalzinho bacana que se realiza no meio do parque, na altura da Rua 72, em Nova York. E aproveita para dar umas entrevistas - ele fez show no domingo, em Chicago, na segunda, em Nova York, e hoje já estará em Oslo, Noruega.Escalada para o TIM Festival, em outubro, a banda The National deve surpreender (como surpreendeu o R.E.M., que os convidou para abrir sua turnê). Grandes linhas de guitarra, a cargo dos gêmeos Bryce e Aaron Dessner, e baixo e bateria fulminantemente eighties, a cargo dos também irmãos Bryan e Scott Devendorf. Trompete e trombone, ao fundo. Piano para elevar a voz grave de Berninger. O nome The National, conta, foi escolhido por ser o mais ordinário possível. Mas já lhe trouxe problemas: na Alemanha, tiveram de explicar que não tinham nada a ver com nacionalismo, o que estava sendo confundido com neonazismo.O cara pacato sentado numa pedra no parque se transforma em cena, e vira um torturado rodando pelo palco com a mão na cabeça, como um sonâmbulo. Uma revista chamou-o de "mistura de Ian Curtis com Rain Main", em referência ao personagem autista de Dustin Hoffman no cinema. Confira o papo do Estado com Matt Berninger.Vocês fazem uma música sombria. Há uma linha fina entre a melancolia e a morbidez. Isso não o preocupa?Há momentos de melancolia, há momentos sombrios. Mas há também momentos claros, otimistas, felizes e tolos, há muito humor nas canções. Um equilíbrio saudável. O lado sombrio está na música e talvez ele pareça mais sombrio do que realmente é, ou talvez esses sejam os momentos mais memoráveis para quem ouve. Nós temos sido rotulados como uma banda dark por muito tempo, e eu entendo, mas não acho que seja só isso. Há uma mistura de muitas coisas, mas concordo que somos mais dark do que a média das bandas.Você não toca nenhum instrumento, mas ainda assim é letrista e compositor. Como faz isso?É verdade, não toco nenhum instrumento. Tenho muita sorte de estar em uma banda sem o menor talento musical. Eles me dão scraps de idéias e eu escrevo sobre aquilo. A maior parte das letras é feita sobre a música, não antes da música.Sua música lembra a música gótica dos anos 80, bandas como Bauhaus e Joy Division. Aquela música foi influência para você?Nunca ouvi de verdade Joy Divison e Bauhaus. Joy Division acho que só ouvi pela primeira vez uns 7 ou 8 anos atrás, depois de a banda já ter começado. Claro, ouvi Love Will Tear You Apart, e She Lost Control, mas nunca tive um disco do Joy Division. Era mais fã dos Smiths. Sou mais influenciado por Nick Cave, Leonard Cohen e Tom Waits do que por Joy Division.Você toca com duas duplas de irmãos. A música tem sido um negócio bem familiar, não?Também tenho um irmão, Tom Berninger, que é cineasta e não está na banda. Ele dirigiu um vídeo do grupo e também escrevemos algumas letras juntos. Tom acaba de trabalhar no filme novo de Ang Lee. Somos todos grandes amigos na banda, mas é claro que estar em turnê o tempo todo pode ser algo mortal para as amizades (risos). Chicago, Nova York, hoje na Noruega, logo mais no Brasil. Estar em turnê todo o tempo ajuda a criar música?É uma boa questão. É bom para a banda aprender como tocar ao vivo. Isso se transporta para a criação musical, você descobre novas coisas e como traduzi-las em disco. Claro, há também o lado de que, tocando por aí o tempo todo, as bandas acabam robotizadas. Felizmente, transamos bem isso, buscando sempre evoluir, não estagnar. Por que diz que seu novo CD, Boxer, é o melhor de sua carreira?É que tudo funciona melhor no disco todo. O disco anterior, Alligator (2005), ia em muitas direções, mais dispersivo. Mas nesse álbum nós criamos uma coisa inteiriça. Não é por causa dos metais, já tínhamos usado antes. É uma coleção melhor de canções. Estou mais orgulhoso desse disco, mas não quer dizer que rejeito os anteriores.Sufjan Stevens toca como convidado. Como isso aconteceu?Toca em duas músicas. Nosso guitarrista, Bryce, tocou com a banda dele em alguns shows e tornaram-se amigos. Foi por acaso que ele veio tocar com a gente. Não foi planejado, apenas aconteceu. E o Brasil? O que espera dessa primeira vez?Nunca estive no Brasil. Alguns dos caras da banda foram de férias. Não tenho a menor idéia do que esperar, e acho que essa é a coisa boa, vai ser algo novo e fresco. O repórter viajou a convite do TIM Festival

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