The Fly, Cronenberg dá à luz ópera B

Em novo formato, sucesso do cinema recebe as bênçãos de Plácido Domingo

Andrei Netto, Paris, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2008 | 00h00

Nos anos 50, com o agravamento da crise de público das salas de projeção nos EUA, a idade de ouro do cinema parecia próxima do fim. Enquanto a Suprema Corte de Justiça questionava o trust formado pelos grandes estúdios no processo United States X Paramount Pictures, jovens produtores independentes ganhavam terreno. Sua proposta era uma sacada comercial bem-sucedida: valer-se das técnicas de produção a baixo custo, exploradas desde os anos 20 pelos B Movies, e rodar filmes que agradassem a um público marginalizado, o adolescente. A ficção científica consolidou-se, então, como a nova vertente dentre os filmes de baixo orçamento.O sucesso do novo gênero, claro, atraiu os grandes estúdios. Roteiros envolvendo monstros, alienígenas, espaçonaves e afins passaram a ser disputados também pelos gigantes. Em julho de 1957, o texto original do escritor franco-britânico George Langelaan, publicado na versão americana de Playboy, despertou a atenção de produtores da 20th Century Fox. A obra literária trazia os elementos preferidos dos jovens: cérebros eletrônicos, máquinas de teletransporte, mutações, monstros, mas também encarnava grandes narrativas, como os dilemas nietzschianos dos limites do homem - o ''além-homem'' -, da existência, da inexorabilidade da morte. Seu título: The Fly - A Mosca.Cinco décadas se passaram. Na quarta-feira, o canadense David Cronenberg, um dos cinco diretores que adaptaram Langelaan para o cinema, estreou a história em nova versão: a ópera The Fly. Com direção musical de Plácido Domingo e música de Howard Shore - estreante no gênero, mas com bagagem de 60 trilhas sonoras, entre elas a da trilogia de O Senhor dos Anéis -, a obra foi exibida no Teatro de Chatêlet, em Paris. O que se viu foi uma espécie de inovação, mas não virtuosismo artístico: à luz da estética dos filmes B, Cronenberg parece ter criado a ópera B.Adaptado ao cinema em 1958 por Kurt Neumann, a versão tornou-se um clássico. A produção se alimentava da estética B, mas não era exatamente uma. Seu orçamento consumiu US$ 500 mil, seus efeitos visuais eram inéditos e de alta qualidade, seus cenários, inovadores e hi-tech. O objetivo era contar a história de Seth Brundle, físico excêntrico, gênio e louco, que abandonara a academia para se dedicar à criação de um sistema de teletransporte. Mas, ao se submeter ao teletransporte, o cientista tem seu DNA geneticamente fundido com o de uma mosca que, acidentalmente, se imiscui na cápsula. Na versão original, de Neumann, Brundle deixa a câmara como um híbrido de homem e monstro. O que se sucede é um misto de drama filosófico e thriller policial.Em 1986, coube ao controverso diretor canadense David Cronenberg reconquistar a crítica com a quarta versão do cult - a segunda, Return of the Fly (1959), de Edward Berns, e a terceira, The Curse of the Fly (1965), de Don Sharp, haviam fracassado. Fiel ao roteiro original, a nova versão aprofundava o ''fundamento teórico'' da história de Langelaan sobre o cientista. O ponto dramático - e trash -, a mutação, ganhou em realismo. A degradação física do protagonista Seth Brundle, representada de forma quase escatológica, fomenta o horror - e, para muitos, o mau gosto.Lançado em 1986, o remake de Cronenberg mexe na história de forma sensível, transformando o thriller policial em drama de amor. Mas a exploração dos medos básicos da platéia é mantida e amplificada. Para tanto, o diretor leva ao limite o ''body horror'', uma estética peculiar que explorara até em closes de cabeças explodindo, como fizera em Scanners - Sua Mente Pode Destruir (1981), e de tortura, como em Videodrome (1983). Cronenberg não é o primeiro nem o último a se valer das transformações físicas dos personagens para causar reações específicas do público - Kafka o fizera na literatura e Alien (1979), no cinema -, mas sua habilidade nessa estética o fez um mestre.Essa atmosfera B está presente na ópera The Fly - La Mouche, em Paris. A peça tem início no fim da história, quando a jornalista Veronica Quaife relata as circunstâncias da morte de Brundle a um investigador de polícia. Namorada do cientista, ela carrega no ventre o filho de Brundle-Fly. A cena se passa no loft e laboratório do cientista, já degradado pela destruição e pelo lixo gerado pelo homem-mosca antes de sua morte. Em flash-back, o primeiro ato da ópera remonta até a festa na qual Brundle e Veronica se conheceram. Dali, seduzida pelo charme e mistério que envolve o gênio, a jornalista aceita o convite para ir ao seu apartamento, onde as cápsulas de teletransporte e computadores estão instalados.As máquinas, como de resto toda a peça, têm traços de design dos anos 50 - época da primeira versão do filme. O primeiro ato se desenrola com os insucessos da pesquisa, até que Brundle decide, ele mesmo, submeter-se à experiência. Então tem início o segundo ato, no qual o cientista sofre os efeitos de sua fusão genético-molecular com uma mosca.Quem viu o filme o identifica em sua íntegra com a ópera. Cada trecho essencial da história contada por Cronenberg no cinema é reeditado com fidelidade. E é nessa constatação que começam os problemas. O que dá certo na tela pode não funcionar na ópera. As estratégias de sensibilização da platéia pelo horror não se ajustam bem à nova linguagem. A transformação de Brundle em Brundle-Fly não produz a sensação de realismo gerada pelos efeitos especiais do cinema. A história é narrada em diálogos do cientista e da jornalista, mas seu lirismo soa artificial e até patético. Em lugar da aversão entusiasmada e adolescente às descrições repugnantes, o público reage com risos mal contidos.Até então não está totalmente claro que Cronenberg queira reconstruir a estética B na ópera. Essa clareza vem com a cena da queda-de-braço protagonizada por Brundle em um bar. Na peça, como no filme, seu oponente acaba com uma fratura no braço. A exibição do osso e do sangue deixa clara a intenção ''body horror'' do diretor. As críticas a Cronenberg são efeitos de sua mise-en-scène de gosto polêmico, mas cabe lembrar que a autoria da peça é de Howard Shore. É dele a música erudita, um dos pontos altos, mas também controversos. Profunda, a composição soa brilhante se fechamos os olhos e a imaginamos como trilha de cinema. Na ópera, a execução parece deslocada, mas não compromete o resultado.Como maestro regendo a orquestra da Radio France, Plácido Domingo passaria despercebido, não fosse a ovação recebida do público antes do espetáculo. Da mesma forma, o canadense Daniel Okulitch e a romena Ruxandra Donose, o casal de atores, não prejudicam o espetáculo e são responsáveis por bons desempenhos, levando-se em consideração que Cronenberg exigiu de seu casting não apenas virtuosismo vocal, mas também talento teatral, domínio do inglês, condicionamento físico e beleza.Cineasta brilhante, responsável por criações inteligentes e desafiadoras como Crash - Estranhos Prazeres (1996), Cronenberg recebe críticas positivas desde Uma História de Violência (2005), que se repetiu com Senhores do Crime (2007). Mas nem mesmo nesses filmes deixou de flertar com citações do cinema B, ou do ''body horror''. The Fly, sua ''ópera B'', deixa claro que o efeito prático sobre a audiência não é o mesmo.Traduzir cinema para ópera é uma tendência que se reforça por iniciativa da Ópera de Los Angeles. Em 2006, o Zhang Yimou dirigiu, no Metropolitan Opera de Nova York, The First Emperor, novo trabalho do chinês Tan Dun, com Plácido Domingo no papel principal. O mesmo Domingo convidou Woody Allen para dirigir Puccini e anunciou que faria em Washington, onde também é diretor, uma produção de Anel do Nibelungo, de Wagner, com efeitos especiais a cargo de George Lucas.''Acabo de cantar em The First Emperor. Há adaptações de tudo: uma história vira livro, que vira roteiro de cinema ou peça de teatro. Em The Fly há um filme e uma ópera'', disse o tenor. ''Não há outro lugar em que se tenha tanto interesse por cultura como em Paris. Por isso trouxemos essa peça para cá.'' Talvez a atmosfera das óperas de Paris, e não a de cinema de Los Angeles, ajude a explicar a recepção do público a The Fly na capital francesa.

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