''''The end'''' de Harry Potter agora é ''''fim''''

Finalmente em português, o último volume da saga do bruxo de J.K. Rowling

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 00h00

Ao primeiro minuto de hoje, num gesto cheio de simbolismo e estardalhaço, foram abertas em todo o País as caixas com os exemplares de Relíquias da Morte, a sétima e última aventura de Harry Potter escrita por J.K. Rowling. A edição brasileira do livro, novamente um lançamento da editora Rocco (592 págs., R$ 59,50), chega às lojas pouco mais de quatro meses depois do lançamento do original inglês, Harry Potter And The Deathly Hallows. Fenômeno de entretenimento - seja filme, livro e até novela - é coisa complicada de se controlar, ainda mais nesses tempos de pirataria.E é triste reconhecer que de tanto se falar e especular sobre o fim da saga o assunto parece agora um tanto vazio, restando apenas os números sobre a quantidade de papel que foi usada para imprimir os 400 mil exemplares da primeira edição ou informações triviais que se tornam preciosas para os fãs ansiosos, como o número do quarto de hotel onde a autora pôs o ponto final na série.É provável que depois de vazamentos mil na internet, traduções não oficiais e palpites de todo o tipo, o leitor já saiba a resolução do suspense que sustentado desde que Harry Potter e o Enigma do Príncipe, o sexto livro, foi lançado, em 2005: Lorde Voldemort vai mesmo matar Harry? Seria deselegante comentar qualquer coisa a respeito que revelasse o que acontece na trama, mas a resposta soa agora um tanto óbvia, apesar do medinho que a gente sente ao ler o livro até a página 563.Dessa forma, só o leitor que conseguir abstrair as especulações ou quem sabe for um sortudo que heroicamente se manteve blindado contra a avalanche de notícias e pistas que circularam na internet, vai perceber que J.K. Rowling escreveu um livro cheio de angústia. Desta vez, ao contrário de todos os volumes anteriores, Harry não aparece todo serelepe na expectativa de mais um ano letivo na Escola de Magia de Hogwarts. Ele parece mais um condenado no corredor da morte, que corre contra o tempo, e sem segurança, para catar cacos de feitiços que poderiam destruir de vez o inimigo.Dumbledore, professor que protegeu o herói das forças ocultas por todo esse tempo, está morto, mas deixou algumas missões e enigmas para Harry e seus fiéis amigos, Hermione e Rony resolverem. Ah, sim, Dumbledore era gay, revelou Rowling dia desses - apesar de que no livro, propriamente dito, essa revelação é passada de maneira sutil, quase imperceptível - se a autora não abrisse esse armário empoeirado, ninguém seria capaz de desconfiar daquelas desleixadas barbas brancas do bruxo. A declaração dela, que não havia feito uma menção sequer a tal homossexualidade e, note-se, a qualquer relação sexual, parece mais uma tentativa de causar polêmica, aguçar a curiosidade acerca de uma série que não se aproveitou em nada do poder transformador e transgressor da literatura, para se apoiar apenas no fenômeno que se tornou.Muito pelo contrário, desde que foi lançada, há dez anos, a série só fez reforçar a dogma de que não se pode mudar o destino. O que Harry fez até aqui, além de seguir o que os personagens adultos do livro esperavam dele?Harry Potter é um excelente herói, mas está mais para Super-Homem do que para Batman. Chega a ser um tanto frustrante vê-lo fugir como um garotinho por mais de 500 páginas, e a impressão que fica é a de que ele se safou até o sexto livro por sorte e porque, oras, é o mocinho. Nesse último livro, entre vários segredos revelados, até chama a atenção e é sintomática a relação que a autora estabelece entre Lilian, a mãe de Harry, e o destino do bruxo.Rowling arrebatou uma legião de fãs e preferiu mantê-los a um produto puramente pop a arriscar qualquer ousadia que fosse. É certo que os três últimos livros, e especialmente o sétimo, parecem mais adultos porque acentuam o clima soturno do que seria um mundo bruxo - uma alternativa para manter os fãs fiéis, que cresceram junto com o protagonista. Mas não quer dizer que com isso a autora tenha conseguido ir além, intelectualmente, de tudo o que se publicou até hoje na área infanto-juvenil.Harry Potter perdeu o humor, mas não ganhou estofo para ser dramático. Relíquias da Morte não é divertido como os livros anteriores, e aposta em reviravoltas típicas de novela das oito e livros policiais: quem pareceu mauzinho por 4 mil páginas se revela bonzinho, porque agia por amor.Voldemort toma Hogwarts, começa uma caça aos trouxas - que, na série, são os não nascidos bruxos. O sistema começa a ruir, como um holocausto mágico. Rowling ensaia referências a George Orwell e a V de Vingança, de Alan Moore, e talvez ainda à xenofobia que cresce na Europa pós-euro. Mas nesse ponto, chega a ser mais sutil ainda do que no caso da homossexualidade de Dumbledore.

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