Texto frágil, mas elenco supera tudo

Folias D?Arte se equilibra com graça sobre o vazio da narrativa em Cardenio

, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2009 | 00h00

Há tolos em toda parte, logo, há tolices em Harvard. Tal como é transmitida ao público pelo grupo Folias D?Arte, a história da encenação de Cardenio começa com um convite feito pela Universidade da Harvard para que artistas de teatro de várias partes do globo encenassem, "com cores locais", uma peça escrita por dois autores norte-americanos, tomando como ponto de partida um fragmento de texto teatral de autoria duvidosa do século 16 e episódios do celebérrimo romance de Miguel de Cervantes. Com tantas peças esplêndidas adormecidas no vasto baú da dramaturgia teatral ocidental, é uma pena que a instituição norte-americana tenha optado por estimular a cooperação entre grupos de teatro com um projeto cujo fundamento é a desmistificação da autoria. Não há ideia mais surrada e os nossos modernistas, em um arco histórico que vai de Mário de Andrade a Ariano Suassuna, já encerraram o assunto por meio de teses, ensaios críticos e obras de arte que deslocaram o foco crítico para a formalização. Vêm de todos os lugares e tempos as histórias, há muito se sabe que um imaginário coletivo amealha uma certa sabedoria a que a arte recorre e da qual se desvencilha no tempo oportuno. Basta lembrar que os episódios da trajetória do rei Édipo, recontados de modo singelo, ganhariam no máximo cinco minutos no noticiário policial das emissoras de televisão.Sendo assim, o que interessa é o modo como o Folias D?Arte trabalha a partir da proposta de preencher com "cor local" o contorno desenhado por Stephen Greenblatt e Charles Mee, os dois autores responsáveis pela peça-convite. Por sorte, diante de uma incitação à metalinguagem (a quem pertencem certas narrativas?, como se escreve uma peça ou um romance?), o grupo reage com a desenvoltura de quem há muito tempo trabalha sobre o segundo termo dessa proposição. Sem nenhuma vocação para filigranas semióticas, o grupo começou a definir sua identidade artística adaptando um livro em que Théophile Gautier glosava as dores e alegrias de uma companhia mambembe e, desde então, não deixa de refletir por intermédio de seus espetáculos sobre a relação instável entre a criatividade e o ofício. Por gosto e também em razão da intenção militante que não separa a teoria da prática, o Folias evidencia nos seus espetáculos o modo como se produz a ilusão no teatro.Em perfeita sintonia com a poética do grupo, Cardenio, em lugar de ponderar o lema da apropriação de narrativas por diferentes autores, é uma recriação espetacular - no sentido lato da palavra - da bagunça que faz parte da criação teatral. A cópia, o empréstimo, a repetição e o simulacro não chegam a ser um tema importante, porque são procedimentos institucionalizados pela tradição teatral e romanesca.Em cena, contudo, personagens e atores têm muito mais importância do que a fábula e é a autonomia das máscaras individuais procurando um entendimento durante o espetáculo que o grupo enfatiza com um viés irônico em Cardenio. Uma vez que não dispõe de uma narrativa cuja inteligibilidade contribua para o exercício das habilidades dos intérpretes e tampouco em tema central digno de ponderação, o espetáculo dirigido por Marco Antonio Rodrigues abre alas para a graça do jogo. Tanto a comédia de enganos quanto a farsa, duas vertentes cômicas consagradas pelo teatro ocidental, são trituradas pela irreverência crítica do grupo. Sem paciência para desvendar e esclarecer quem são as personagens que se enamoram, juntam-se e se separam como peças de encaixe em um quebra-cabeças conhecido há séculos pelos artistas e pelo público, o espetáculo encurta o caminho, desacreditando de tudo e de todos. Atrapalhadas pelos figurinos e pelas entonações que misturam referências e diferentes períodos da história - afinal, os empréstimos da proposta original não respeitam fronteiras geográficas e cronológicas -, as personagens não sabem bem quem são, onde estão e o que devem fazer para levar adiante a história.Também o amor, subtema que nas comédias de intrigas é tratado com alguma delicadeza e permite aos dramaturgos o exercício do lirismo elegante, é ironizado por trapalhadas semelhantes às das farsas circenses. A maior preocupação que move as personagens e a narrativa é a incerteza quanto ao modo de conduzir o espetáculo a um ponto final. Desobrigados do verismo emocional, da coerência entre causa e efeito e até mesmo da tarefa de localizar uma sequência narrativa no tempo e no espaço, os intérpretes podem bordar com minúcias de gestos, evoluções grupais e entonações a comicidade de suas personagens insensatas. Está aí está o sumo da brincadeira irônica sobre Cardenio: exibem-se os atores distanciados de máscaras tênues demais para ocultá-los. E há poucas coisas tão divertidas quanto um elenco inteligente, tecnicamente bem preparado e habituado ao exercício coletivo equilibrando-se com graça na corda bamba da improvisação sobre o vazio do texto. ServiçoCardenio. 110 min (com intervalo de 10 min.) 12 anos. Galpão do Folias (90 lug.). Rua Ana Cintra, 213, tel. 3361- 2223. 5.ª e 6.ª, às 21 h; sáb., 21h30; dom., 20 h. R$ 30. Até 30/8

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