Tétrico, duo do Justice seduz com missa negra

Sensação francesa faz melhor show no Anhembi, que recebeu 15 mil pessoas

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

29 Setembro 2008 | 00h00

Quando as cortinas se abriram, o sino tocou e a cruz flamejante surgiu no palco, começava a evidenciar-se a diferença entre o que é arte e o que é mero entretenimento. A missa negra do Justice tomava de assalto a 9ª edição do Skol Beats, no Anhembi, ainda na noite de sábado, à frente de 15 mil pessoas. Cheia de climões tipo "cena do banheiro de Psicose", soturna (não raro tétrica), a música da dupla francesa era ansiosamente aguardada nos trópicos - um pouco por causa de sua reputação treme-terra (altos decibéis, alta octanagem musical), outro tanto por conta de seu indissociável conceito visual, carregado de controvérsia. Não é música eletrônica apenas para estimular dancinhas. Pas de tout. Dá para dançar também, mas é um som assimétrico, feito de vácuo e impacto. Tem espírito rock, tem envergadura de heavy metal, tem sutilezas ultra-sinfônicas - como a fanfarra fúnebre na música Genesis. Aquilo também não é eletrônica de mero efeito visual - no final das contas, a cruz de néon e as luzes não são nenhuma excentricidade (certo que têm uma certa morbidez, como se fosse um ritual da Ku Klux Klan).Uma hora de show apenas, mas o suficiente para deixar o Anhembi estupefato logo a partir da primeira música, Waters of Nazareth. O concerto se impôs como inesquecível entre as apresentações eletrônicas que o País já presenciou - não muito longe de outras como Prodigy, Chemical Brothers, Daft Punk ou mesmo o Kraftwerk.Gaspard Augé, o Bigode, e Xavier de Rosnay, o China, conduzem seu show com fleuma rocker, as poses blasé de um Lou Reed, de um Liam Gallagher, de um Carl Barat. Pescoços repletos de crucifixos, roupas pretas de sacerdotes de vodu, cenário construído como um altar com "velas" elétricas por todo canto, eles vão encorpando seu som de entorpecer fã do Black Sabbath. Só faltou aparecer Klaus Kinski vestido como Nosferatu por ali.Quando fazem uso de elementos do pop, como em D.A.N.C.E. ou We Are Friends (remix de Never be Alone, do Simian Mobile Disco), os franceses submetem o pop a uma espécie de viagem pelo seu Trem Fantasma, purificando o pop pelo calafrio. Tal qual um Keith Richards dos botões, China fumava feito um condenado, um cigarro atrás do outro, e instigava o público com gestos & caras. Sua obsessão pela simbologia cristã não é iconoclasta - eles se dizem parte integrante da crença. Mas nada disso é fundamental na análise da sua performance. O que eles fazem é rock?n?roll, e ponto. Houve outras apresentações notáveis na jornada. Uma delas de outro francês, Agoria (codinome de Sebastian Dévaud), que fez um show em que inocula o vírus pop na velha tecneira, e o resultado é muito interessante e empolgante. Sob a pulverização de imagens do grupo Visualfarm, nos telões - que mostrava, entre outras coisas, palavras de ordem como "Traficantes de softwares ilegais" -, Agoria parece ter reunido o maior número daquilo que antigamente a gente conhecia como "cybermanos", os amantes da música eletrônica de periferia.Mais enxuto, menos dependente dos nomes do mainstream, o Skol Beats ameaça ter achado um ponto ideal para sobreviver ao enxame de novos festivais de eletrônica do País. NÚMEROS67 pessoas foram atendidas nos postos médicos, sem remoções225 minutos foi a duração do set de Armin van Buuren800 seguranças privados fizeram a segurançaVan Buuren é o Mister SimpatiaUm dos DJs mais populares do mundo, o holandês Armin Van Buuren já havia se apresentado no festival em 2006. Neste ano, voltou para animar a multidão com músicas aceleradas e melódicas. Com pinta de mocinho, distribuiu muitos sorrisos e desceu aos braços do público. Marky ainda é o ReiAcompanhado do MC Stamina, Marky fez uma apresentação que remonta cada vez mais roots, cada vez mais interessado no som da black music brasileira dos anos 1970, e o resultado é altamente dançável e divertido. Não tem pra ninguém: Marky ainda dá as cartas nas picapes. Day afterPúblico já começando a desabar nas primeiras horas da manhã no frio Anhembi, que teve uma das jornadas mais sossegadas de todas suas edições; muita gente decidiu ir tarde; os ingressos esgotaram-se por volta das 00h30, segundo divulgou a organização ontem de manhã

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