Testamento sonoro de José Agrippino

Documentarista localiza disco perdido que revela outra faceta do guru tropicalista - e SescTV exibe, a partir de hoje, ciclo de filmes experimentais do escritor e cineasta, que[br]terá, ainda, obra no Beaubourg, em Paris

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

08 de novembro de 2008 | 00h00

Colhendo depoimentos para o documentário inédito que apresenta hoje em ciclo sobre o escritor e cineasta José Agrippino de Paula (1937- 2007) no SescTV, à meia-noite, a videomaker e pesquisadora Lucila Meirelles foi à casa do cineasta Hermano Penna, o premiado diretor de Sargento Getúlio. Conversando, Penna falou informalmente de sua amizade com o multimídia Agrippino, cuja produção foi das mais abrangentes - cinema, literatura, dança, teatro, happening, artes visuais, música."Música?", admirou-se Lucilla, demonstrando incredulidade. "Sim, ele fazia umas fitas cujas capas eram desenhadas por ele mesmo e que vendia para amigos, para ajudar a financiar seus projetos", respondeu Penna. "Eu mesmo tenho uma aqui que comprei da mão dele." E foi buscar a preciosa demo, gravada nas duas faces da fita.Foi assim que o desconhecido disco Exu Encruzilhadas, de 1971, uma viagem ?indo-psicodélica? do guru tropicalista Agrippino, volta a ser ouvido a partir de hoje (com exclusividade, no site www.estadao.com.br). É uma sucessão de faixas que organizam ruídos, mais do que criam música, e que não parecem ter início e fim, misturando-se organicamente.É um som feito de improvisos circulares, como na tradição sufi ou nas composições aleatórias de John Cage e de Marco Antonio Guimarães (do grupo Uakti). Está também impregnado de candomblé. O som de Agrippino causa um choque pelo que carrega de ousadia e premonição. Não há possibilidade de que essa música seja conectada à Tropicália - a literatura de Agrippino se presta a isso, pela estrutura, mas sua música está em outra dimensão."É um som que também carrega aquele espírito de desregramento de uma época", diz Lucila Meirelles. Entre faixas como Funeral de Iansã e Veneno de Deus, a revelação da música maluca de Agrippino vai solidificando seu mito - que já tomou a França. Em março, será instalada no Beaubourg uma mostra com seus filmes, exigência surgida com a súbita descoberta de sua arte após a publicação de seus livros naquele País, começando por Panamérica (lançado em janeiro pela editora Leo Scheer). A Holanda também receberá a mostra, que vai para Roterdã assim que encerrar seu ciclo francês.C

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