Terror e miséria unidos pela bomba

O jornalista americano William Langewiesche, autor de O Bazar Atômico, fala da ameaça nuclear que vem dos países pobres

Entrevista com

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2025 | 00h00

Há quatro anos o jornalista norte-americano William Langewiesche estava sentado em Bagdá pensando num texto que deveria escrever para The Atlantic Monthly sobre Saddam Hussein. Sobreveio, então, a dúvida se devia ou não embarcar na paranóia americana. Langewiesche comentou com colegas da revista que o editorial cometia um erro ao demonizar a figura do ditador. Eles estranharam a reação e perguntaram a razão dessa dúvida. Langewiesche respondeu que demonizar Saddam e o Terceiro Mundo pela aquisição de armas nucleares só ajudava a direita dos EUA a pedir mais dinheiro para guerrear, ameaçar os direitos civis e alimentar o racismo em nome da liberdade. O que se vê no Iraque, desde então, é o que se sabe. Agora, o governo americano ameaça enviar tropas ao Paquistão para procurar o líder da organização terrorista Al-Qaeda, Osama Bin Laden. O Paquistão, como se sabe, é uma ditadura militar, realiza testes nucleares desde 1998 e corre o risco de ser tomado por fundamentalistas islâmicos. É sobre isso que trata o livro que Langewiesche veio lançar no Brasil, O Bazar Atômico (Companhia das Letras, 192 págs., R$ 36), um assustador relato sobre a escalada do poderio nuclear em países em que a pobreza rima ignorância com intolerância.Langewiesche é um homem calmo e sensato. Editor internacional da revista Vanity Fair, ele está em São Paulo para uma palestra na Editora Abril e falou sobre seu livro ao Estado. Nele, o repórter narra sua jornada pelos bazares atômicos do mundo, lugares onde se pode, a preços módicos, comprar artefatos nucleares para fabricação de bombas atômicas. O Paquistão, por exemplo, é hoje o responsável pela transferência de tecnologia atômica para países como Irã e Coréia do Norte. Com tecnologia comprada do Paquistão, os aiatolás estão desenvolvendo programas nucleares e o Irã pode vir a ser o primeiro regime islâmico a ter a bomba. A Coréia, como se sabe, realizou seu primeiro teste nuclear em 2006 e, apesar de ter assinado acordo para desmontar seu programa, o ditador comunista Kim Jong-II é tão equilibrado e confiável como um bêbado no meio-fio.Já Langewiesche é piloto de avião e filho do homem que escreveu a Bíblia da navegação aérea, Stick and Rudder, Wolfgang físsil em algumas cidades russas está entregue a recrutas que bebem como gambás e se entopem de drogas, segundo relato do repórter. ''''Mas eles ainda sabem atirar'''', adverte, desencorajando os contrabandistas de estoques nucleares. Melhor procurar um corrupto da Geórgia para fazer o serviço.No passado, os governos de países pobres que queriam a bomba não procuravam a Máfia russa, mas Abdul Qadeer Khan, engenheiro metalúrgico indiano nascido em Bopal há 72 anos e hoje cumprindo prisão domiciliar após fugir com projetos roubados da Holanda e entregá-los ao Paquistão. Khan é considerado o maior proliferador de armas nucleares do mundo. Boa parte do livro é dedicada a contar a história desse garoto muçulmano nascido numa família pobre e que se tornou um dos homens mais poderosos e ricos graças ao comércio em bazares atômicos. É um erro, diz Langewiesche, culpar a Holanda por ter permitido os furtos e a fuga de Khan para o Paquistão. ''''Seria o mesmo que culpar os EUA pelo roubo de segredos nucleares por espiões soviéticos'''', diz, lembrando que a Índia já estava na dianteira do processo de fabricação da bomba.Índia, Paquistão ou Brasil, o caso é que, recomenda ele, o mundo precisa se acostumar a conviver com a bomba. ''''Bush não vai poder ficar invadindo todos os países em busca de terroristas.'''' Ou ''''impor a democracia a pessoas que nem sabem o que é isso e talvez nem a queiram'''', observa. ''''Democracia não é uma coisa mecânica que se resolva com eleições.'''' De fato.H

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