Teoria do remorso político no Brasil

Luís Martins mostra em O Patriarca e o Bacharel como os adeptos de primeira hora passaram a questionar a República

Leonardo Trevisan, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Não há mais arrependidos na História brasileira. É curioso, mas hoje não é fácil encontrar gente que lamente ou apenas repense sua participação em fatos ou atos da cena política. Nos anos 1970 ou 1980 era comum, por exemplo, encontrar revolucionários dos anos 30 e 40 que davam depoimentos (ou publicavam memórias) arrependidos com o que restou da "revolução que fizeram". Essa reavaliação praticamente acabou no Brasil.Arrependimento político é bom tema e o jornalista e acadêmico Luís Martins o utilizou para desenvolver o que chamou de "teoria do remorso". O interesse veio do encontro de álbuns de recordação de José do Carmo Cintra, republicano de primeira hora. Anos depois, mais experiente e decepcionado com os desvios do regime, arrependido do envio de d. Pedro II para "morrer no exílio", Cintra foi um dos integrantes da "geração parricida".Remorso, intenso objeto de estudo da psicanálise freudiana, quando assume feições políticas transforma-se em boa análise sociológica. Em O Patriarca e o Bacharel (206 págs., R$ 34), publicado pela primeira vez em 1953 e agora reeditado pela editora Alameda Casa Editorial, Luís Martins mostra a metamorfose liberal e o distanciamento entre filho bacharel e pai fazendeiro, o representante do patriarcado rural que sustentava o velho regime monárquico. Vale notar que Sérgio Milliet, na apresentação, alerta que no conflito entre o patriarca e o bacharel havia uma conjugação de fatores, desde as "circunstâncias econômicas", a maior delas a Abolição, até a mudança na educação dos bacharéis, formados a partir das idéias liberais e republicanas. Martins reafirma que aceitou a teoria freudiana apenas como "hipótese de trabalho" para entender um momento histórico em que os filhos "matam o Pai" na luta pelo progresso, mas abrem luta fratricida, a ante-sala da teoria do remorso. No Brasil da segunda metade do século 19 havia o conflito de concepções e de mentalidade entre o homem rural, conservador, escravista, de gostos clássicos e o indivíduo mais jovem, urbano, liberal, de tendências românticas. Essa geração, hostilizando a figura do Pai, avançou, como "símbolo" contra d. Pedro II, desde 1870.Alguns fatos sustentam a teoria de Martins. Se, por um lado, o "liberalismo do império honra d. Pedro", por outro, havia forte "poder pessoal" que marcava o cotidiano da política no 2º Império. Era a lógica do Poder Moderador, que a Carta de 1824 formulou como de uso irresponsável pelo imperador, isto é, sem obrigação de prestar contas a ninguém. Essa incompatibilidade explodiu no episódio da queda do ministério Zacarias de Góes, em 1868. Os senadores eram escolhidos em lista tríplice pelo imperador, que optou pelo terceiro mais votado, um desaforo para o gabinete liberal. Zacarias demitiu-se e a Câmara foi dissolvida. No ano seguinte, os liberais apresentam novo lema, "Reforma ou Revolução". Em 1870, foi divulgado o Manifesto Republicano. Desde então o imperador ficou associado à "idéia de coisa ultrapassada". Nascia o "César caricato" de que falava Ferreira Viana e os bacharéis liberais, "filhos do século", não aceitaram mais a hipocrisia constitucional que assegurou meio século de estabilidade ao 2º Império. A "República dos sonhos", que começou com vício de origem, um golpe militar e toda turbulência dele decorrente, abriu a típica luta fratricida freudiana depois da morte do Pai, com constantes conflitos armados. Muita gente começou a sentir saudade dos "bons tempos". Do processo sobraram só os dramas individuais. A rigor, com a República, nem mesmo a modernização reacionária estava posta. A máxima de Lampedusa, de que algo precisa mudar para que tudo fique igual, também não valeu porque a República deixou o "componente militar" na política brasileira por muitas décadas do século 20. Porém, como lembrou Reginaldo Nasser na apresentação de capa dessa reedição, a teoria do remorso ajuda a compreender a "atitude política" do brasileiro. Inclusive, na sua falta. Talvez, a lógica do trânsfuga político tenha dominado o "remorso". Como negar, por exemplo, que agora partidos são "ônibus", que você toma ou desce quando interessa? Nesse quadro, arrependidos políticos apenas desaparecem. Até, por inutilidade.

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