Tendências 2009

Este será um ano de mudanças dramáticas em comportamento e consumo, provocadas pelo turbilhão financeiro de 2008. Esqueça fashionismo por puro fashionismo. O movimento de ordem é frugalismo. A pressão e a incerteza do que virá tornam os consumidores suscetíveis a segurar o bolso. Mas há uma regra básica para conquistar o consumidor: a transparência tirânica. Isso porque a crise só fará aumentar a frustração daquele que consome de acordo com o último grito e regras do mercado padronizado. No frigir dos ovos, tudo isso é muito positivo. Irá estimular a criatividade. Haverá uma (ainda maior) preocupação com meio ambiente, sustentabilidade, saúde, ética. E emerge aí um novo luxo. Aliás, nestes tempos bicudos, a grande questão de profissionais ligados a marcas é ?qual seria o futuro do luxo?? "Luxo será qualquer coisa que se queira", segundo Reiner Evers, head do bureau irlandês de tendências Trendwhatching. "Luxo sempre esteve ligado ao que é escasso. E escassez nas tradicionais sociedades de consumo, por décadas, foi definida pelo maior, melhor e mais caro", completa. Em 2009 esse tom muda - e mais ainda para aqueles que desejarem ser figuras únicas. Então, nos próximos 12 meses em vez de se preocupar em perder o próximo grande lance, foque-se em definir qual será ele. O chique? com certeza não será ostentação, mas criatividade e riqueza de experiências. As agências de tendências WGSN, Trendwatching e TrendHunter abriram seus arquivos para o Estado. Aqui, você lê um best of de macro e microtendências para o ano que hoje começa. Como atrair consumidores em tempos de crise?: "Sendo seriamente transparentes", diz Ruth Marshal, caçadora de tendências do superportal WGSN. Transparência será uma obsessão. Exotismo: "Seja uma obra de arte ou vista-se de uma obra de arte." A frase de Oscar Wilde resume o conceito dessa macrotendência by WGSN. O excentrismo pauta as próximas temporadas. É hora de vestir-se com uma certa vulgaridade decadente, rica, colorida, cheia de estilo, sem marcas. Na prática? É momento de ir na contramão do stablishment; de misturar tudo, experimentar. Pense nas cores, texturas e padronagens orientais, como as dos jardins marroquinos que encantavam Yves Saint Laurent, na arte islâmica, nos bailarinos russos de Diaghilev, plumas e acessórios - estes que são os itens-chave para redefinir looks em tempos de crise. E nesse ano um pouco de fantasia será necessário. Vale para moda, vale para décor. Encolhimento do crédito: gera uma revalorização do que é feito à mão, único, por você. Moda animal: as formas das roupas terão nas próximas estações um link com o mundo animal. Você verá jaquetas com shape de casca de tartaruga, calças de boca larga com efeito de rabo de peixe Beta, vestidos fluidos como água-vivas e saias e vestidos com abas na forma de nadadeiras de arraia. Simples assim: em recente passagem pelo Brasil, o designer francês Philippe Stark foi categórico em relação à crise: "As pessoas terão que ser muito rigorosas. Terão que buscar a essência, a mais icônica ou simples representação de algum objeto. Se forem atrás de uma tigela, que seja uma verdadeira tigela. Evite cores e estampas, e aí tudo pode continuar trendy." Para Starck, só não podem ser deixadas de lado necessidades das crianças. Luxo cru: a palavra foi cunhada pelo designer Rabi Hage que, ano passado, abriu em Londres o Rough Luxe, um pequeno hotel com décor meio bruto, meio luxuoso numa área central e tosca (King?s Cross) de Londres. Os papéis de parede do hotel são descascados, mas sobre eles há obras de Gilbert & George. A ideia de Hage é fazer hóspedes sentirem-se numa casa. O serviço? Impecável. E o café do hotel, um charme: fica anexo em uma galeria de arte. Em fevereiro será inaugurado em Manhattan o Ace, um hotel que oferecerá experiências parecidas, porém numa ambiance mais boemia. Neo-Babilônia: pode parecer um sonho, mas na Columbia University um time de engenheiros trabalha para fundir ambientes urbanos e rurais. O professor Dickson Despommier desenvolveu projeto de fazendas verticais para plantio de frutas, vegetais e flores na estrutura de edifícios metropolitanos. Os espaços são alimentados por energias eólica e solar. Em São Paulo, em topos de algumas casas, o fenômeno já é real. A agência Garage e a Micasa têm espaços verdes com o mesmo conceito, porém sem horta. E-concierges: surge aí um novo tipo de prestador de serviço: ecologistas que ajudam outras pessoas a assumir uma postura verde. Calculam o nível de C02 emitido com atividades do cliente e ensinam como neutralizá-lo, além de economizarem adotando serviços ecocorretos. Pré-fabuloso: da reciclagem, principalmente de contêineres, arquitetos têm criado lares modernos, que inclusive podem ser movidos de lugar. Crescimento da indústria da casa de campo: comunidades da internet como Etsy e Craftster espalham o interesse em projetos do tipo faça você mesmo. Num mercado em que empregos são ameaçados por cortes de custos, a necessidade por dinheiro extra fará com que pessoas transformem casas de campo em espaço de trabalho e hobbies, em atividade lucrativa.Moda sustentável: há uma movimentação para que aumente o uso de algodão, lã, seda e couro orgânicos. É a onda dos estilistas Stella McCartney, Miguel Androver e agora de Calvin Klein e Donna Karan, que foram convencidos a entrar para esse time por Julie Gilhart, diretora da Barney?s. Poesia da feiura: espere a abolição da beleza tradicional, já que a movimentação geral fará com que as pessoas coloquem os pés no chão. Vivienne Westwood colocou na passarela de seu desfile em Londres ciganos e Yoji Yamamoto, modelos mais velhos no dele? Nesses tempos de expectativas não-realistas de beleza, o foco vai para a antiga sabedoria a fim de apreciar o que muitos acreditam ser? feio. Antitendência é o cool. A ostentação intelectual tem um approach de riqueza inigualável. Sem idade: ter 60 anos hoje não é mesma coisa que ter 60 há dez anos. Há uma ?juventude sexagenária? se esticando e que, ao chegar à aposentadoria, forma novos grupos e dá um restart na vida. Schockaganda: chocar não é uma nova ferramenta, mas a blogosfera e o YouTube criaram a primeira real plataforma viral do mundo dando licença a esse tipo de imagem - e o limite desse movimento será esticado em 2009. De propagandas de açougue, onde a carne à mostra é parte de um braço humano, a alertas de acidente em que um cidadão tem um braço decepado vale tudo. Orgulho nerd: tattoos de RSS, joias em forma de teclado, papeis de parede de Nintendo são exemplos de como a cultura technificada abre as portas para o orgulho Geek. A internet se tornou o link do universo e a cultura geek ganha um cool. Technosfera: na seara da tecnologia um dos maiores hypes sai dos laboratórios de mídia de Hiroshi Ishii no MIT, o GSpeak. Trata-se de um aplicativo que permite usuários interagirem com grandes datasets em telões e num display de mesa usando os braços para agarrar objetos virtuais com as mãos. GSpeak pode mudar a maneira como todos se relacionam com computadores - e um petisco do programa já foi mostrado em Minority Report. Ishii foi consultor científico e usou o GSpeak no filme. Para o espaço: Richard Branson saiu na frente com a Virgin Gallactic, que começa a operar voos no espaço Suborbital este ano. Agora, mais empresários estão de olhos bem abertos para a oportunidade de comercializar o espaço. ''Há uma infinito novo mundo para marcas espaciais'', diz Matthew Asinari, da agência de Branding Caviar Luxury. Bigelow Aerospace já planeja desenvolver e construir hotéis no espaço. Combustível celular: a Samsung já tem o protótipo do telefone do futuro, recarregável por um gerador de hidrogênio, que funciona quando colocado na água. Som, som, som: a banda de Lo-fi interativo The Fiery Furnaces é último grito. O mote dessa dupla do Brooklin nova-iorquino é ?faça dos detalhes de sua vida, sua trilha sonora?. Eles pedem à audiência que escreva frases aleatórias sobre suas vidas e as joguem no palco para que possam compor em cima. Nichomania: essa é a tendência de dar relevância a produtos, incorporando a eles atributos que lhes dê novas funções. Qualquer coisa que comece com o famoso "i" entra nesse menu. Um exemplo: iLuvas, que tem nas pontas dos dedos bolinhas de metal para teclar iPods e Blackberries com precisão. Na mesma linha está Super Flight Creme Continuous Hydration for Face and for Eyes, da Estte Lauder para pessoas que vivem de jetleg. O lance é procurar uma brecha em tudo e especializar quanto mais possível o produto. Na cozinha: o mergulho da economia cria expectativa do retorno da popularidade da comida caseira, ingredientes frescos e da cozinha autêntica mediterrânea, como informa a Mintel Menu Insights. O turbilhão financeiro de 2008 deve machucar o lucro de restaurantes porque as pessoas sairão menos para economizar. Então, de cadeias fast food à boa gastronomia, restaurateurs terão que reinventar comida de conforto. Alex Atalla abrirá nos próximos dias o Dalva e Dito, que é o máximo dessa tendência: tem um superchef francês fazendo comida old fashion e de memória, e no décor elementos que remetem a todo esse conceito. No projeto de Marcelo Rosenbaum, grafite, estuque nas paredes fazem o balanço do antigo e do novo. COLABORAÇÃO: SILVIA CRESPI

Chris Mello,chris.mello@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2008 | 00h00

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