Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Temporada de leilões indica recuperação do mercado de arte

Leiloeiros apostam em obras caras para atender a um público de alto poder aquisitivo, mas obras icônicas ainda estão nas mãos de colecionadores

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2016 | 04h00

O sucesso do leilão judicial da massa falida do Banco Santos, realizado na terça-feira (22), animou o mercado de leilões de arte em São Paulo. Com obras vendidas por preços superiores a R$ 1 milhão e arrecadação próxima dos R$ 12 milhões, o pregão comandado por Aloisio Cravo ultrapassou em quase R$ 4 milhões a avaliação do leiloeiro, servindo de parâmetro para novos leilões que serão realizados na semana que entra. O primeiro deles está programado para hoje e amanhã (28 e 29), sob comando do veterano leiloeiro James Lisboa, que traz algumas raridades tanto de artistas modernos como de um pintor viajante do século 17, o barroco holandês Abraham Willaerts (1603-1669). Outro leilão, que será realizado amanhã (29), pela Canvas, do leiloeiro Rodrigo Brant, reúne também telas raras de contemporâneos mortos, como Iberê Camargo e Tomie Ohtake, uma das estrelas do leilão do Banco Santos.

Os bons tempos, enfim, estão de volta – pelo menos para o mercado de leilões, que, na época do impeachment de Dilma, registrou uma queda nas vendas que durou até o fim do primeiro semestre. No segundo, os compradores voltaram a comprar. Não obras de pequeno, mas de grande valor. Essa é uma tendência confirmada também no leilão judicial do Banco Santos, em que as obras mais disputadas foram também as mais caras.

Alguns dos leiloeiros entrevistados pelo Estadão ligam o fenômeno a uma garantia de liquidez que obras de arte de valor inquestionável podem oferecer em tempos de crise, especialmente as modernas, mais que as contemporâneas, também valorizadas, mas não tanto como as assinadas por artistas do passado – exemplo disso é Bonadei (1906-1974) que, no leilão do Banco Santos, teve um óleo vendido por mais de quatro vezes o seu lance mínimo, enquanto Daniel Senise só conseguiu um valor 20% acima da avaliação.

Não por outra razão, a capa do catálogo do leilão que James Lisboa realiza hoje (28) e amanhã (29) estampa uma tela do moderno Pancetti, pintada em 1952 com uma combinação insólita de elementos (um caranguejo, cajus e garrafas). Lance mínimo: R$ 480 mil. Só para privilegiados, como se vê. As peças de pequeno valor (isto é, abaixo de R$ 10 mil) praticamente desapareceram do mercado). Há, sim, gravuras, mas têm revenda difícil e poucos se interessam.

“Os compradores estão mais maduros, não disputam por impulso”, avalia o leiloeiro James Lisboa. “De modo geral, quem compra obras de alto valor está muito bem informado sobre o artista, não é um neófito”. Os leilões, diz ele, tornaram-se a verdadeira baliza do mercado, ao fixar parâmetros seguidos por galerias – e não se está falando apenas daquelas que trabalham no mercado secundário, isto é, de revenda.

Lisboa considera que a recuperação do mercado seja uma consequência natural da relativa estabilidade verificada após o turbilhão provocado pelo impeachment. “De três anos para cá, a entrada de capital diminuiu, provocando a retração do mercado, mas os colecionadores agora voltaram aos leilões”, garante o leiloeiro. De forma cautelosa, porém. Muitos estão atrás de obras icônicas do modernismo, mas não se vê todo dia a oferta de uma escultura como a de Brecheret (Vestal Reclinada com Pássaro, dos anos 1930) do leilão do Banco Santos (vendida por R$ 2,7 milhões, quase o triplo do lance inicial). A bem da verdade, quase nunca.

Em contrapartida, ainda aparecem boas telas de Volpi, Guignard e desenhos de Tarsila e Portinari, como no leilão de Lisboa. O leiloeiro Rodrigo Brant, da Canvas, realizou quatro leilões este ano e os resultados “foram muito bons”, segundo ele. No último, uma tela de Volpi alcançou R$ 1,2 milhão. Seis pinturas de Tomie Ohtake foram vendidas pelo preço médio de R$ 300 mil (outras quatro obras da pintora estão no leilão de amanhã). Um Pancetti saiu por R$ 600 mil. “E, neste próximo leilão, vamos ter um raro ‘carretel’ (tela com figuras que remetem a carretéis de linha) de Iberê Camargo, cujo lance mínimo é de R$ 800 mil.” Preços elevados? “É um mercado para pessoas de alta renda, não afetadas pela crise”, diz.

Mas os preços, segundo o leiloeiro Roberto Magalhães, caíram muito – em média 30% o valor real das obras, segundo ele. “Sou leiloeiro independente e trabalho para 16 casas, inclusive de outros segmentos, como vinho e joias, e sinto que houve uma retração em função do impeachment, situação que só mudou de agosto para cá, apontando uma recuperação do mercado, que deve esquentar ainda mais depois de março de 2017”, prevê.

Também otimista, o leiloeiro Emerson Cury avalia que o segmento que menos sofreu com a crise foi o de arte. “Sim, é verdade que as peças de valor mais baixo são difíceis de vender, mas as de alto valor continuam vendendo muito bem, especialmente os modernos, que têm um mercado consolidado”, diz Cury.

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