''Temos de deixar a Terra para os outros''

Militante entusiasta da preservação ambiental, Miguel Krigsner usa a experiência de 32 anos no Boticário para defender a causa. E avisa: ?Somos só inquilinos deste planeta''

Gabriel Manzano Filho, O Estadao de S.Paulo

01 Março 2009 | 00h00

Desde o início do mês há um pouco de cerrado, de Amazônia, de mata atlântica e até de caatinga - enfim, um pequeno museu da natureza brasileira -, à espera de quem os queira admirar, em cinco vagões novinhos, enfileirados em 100 metros de trilhos no bairro da Lapa, em São Paulo. Eles exibem imagens, aromas, simulações de temperaturas, modelos de animais e plantas. É tudo invenção de um paranaense sonhador, o empresário Miguel Krigsner, que lhe deu o nome de Estação Natureza São Paulo. Antes, ele aprontou duas estações semelhantes, uma em Curitiba, onde vive, e outra em Corumbá, no Pantanal. Quer que os jovens, principalmente eles, entrem, admirem, decidam vestir a camisa e descubram caminho para defender sua preservação. Cinquentão sossegado, pai de duas filhas, Krigsner primeiro criou e expandiu O Boticário. Do nada, fez dele em 32 anos uma imensa rede de 2.660 lojas, com tentáculos em outros 15 países. Mas, há alguns anos, ele disse chega. Passou o bastão ao cunhado, Artur Grynbaum, e foi "divertir-se" na Fundação O Boticário. É ali que o cinquentão se reconcilia com o adolescente sonhador, "brincando" de defender a biodiversidade brasileira. A fundação administra duas reservas naturais, uma no Paraná e outra em Goiás. Em 18 anos já financiou 1.176 projetos ambientais, nos quais aplicou 8 milhões de dólares. O subproduto de toda essa cruzada ocupa paredes e prateleiras de sua sede, em Curitiba. São prêmios e mais prêmios internacionais, dados a um dos mais bem-sucedidos batalhadores da natureza no País. Nesta conversa com a coluna, ele define o foco de sua cruzada: "A educação ambiental é crucial, principalmente a dos jovens. Cuidar do planeta é de interesse direto deles. Esquecemos que somos inquilinos aqui na Terra. Ela não nos pertence. Temos a obrigação de deixá-lo para os outros, para as próximas gerações." Suas "estações" têm conseguido atrair novos entusiastas? Os tempos são outros. A mentalidade geral, lá atrás, era: meus tataranetos que cuidem disso. Mas as mudanças ambientais tomaram uma velocidade tão grande que tudo ficou urgente. As alterações no clima já mostram hoje um quadro que só imaginávamos para os tataranetos. Mas muita gente ainda passa longe, não percebendo essa urgência. Não dá pra entender por que o homem, como espécie, não toma atitudes mais decisivas para mudar sua relação com o planeta. Ocorre na questão ambiental algo parecido ao comportamento do fumante. O sujeito sabe muito bem o mal que o cigarro vai lhe causar, e fuma assim mesmo. Como foi que o sr. "descobriu" a causa ambiental? Foi quando conheci, na faculdade, o professor José Lutzenberger. Eu cursava farmácia e ele ia fazer palestras lá em Curitiba. Era inflamado, polêmico, chegou a ser ministro no governo Collor. Eu saía das palestras me perguntando como faria para ajudar naquela luta em defesa da água, da mata atlântica... Como foi a transição de um executivo superocupado para militante ambiental? Continuo atuando dentro do conselho de administração do Boticário. Mas este é um vício extremamente agradável. Quando você ama o que faz, é difícil ficar muito distante da luta. Como o sr. reage ante os que acham que defesa do ambiente é modismo? Como tudo na vida, você tem dois lados. Os que só aproveitam o vento para ir à frente, e muita gente séria trabalhando duro. O engajamento da sociedade é de suma importância. Esquecemos que somos inquilinos neste planeta. Ele não nos pertence. Como inquilinos, devemos deixá-lo para os outros, para as próximas gerações. Não é exagero. Se a temperatura subir, o planeta vai ter, sim, uma transformação enorme, com altos custos para a vida humana. Mas o planeta sobrevive... e aí, quem sabe, daqui a um milhão de anos, surja uma outra espécie semelhante à nossa... O que a fundação vem fazendo, além dessas três estações? Só neste começo de ano temos 19 iniciativas. Um delas, a preservação de anfíbios no cerrado. Outra importante é uma pesquisa sobre a reprodução de algumas aves da mata atlântica, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Além disso lideramos um consórcio de instituições, a Rede Temática de Áreas Protegidas, que avalia a eficácia das unidades de conservação em todo o continente. O projeto Oásis, em São Paulo, é dos mais premiados. Como ele funciona? Criamos um sistema de pagamento por serviços ecossistêmicos. Incentivamos agricultores daquele trecho do sul da capital paulista, perto de Guarapiranga, a conservar as áreas naturais junto às quais trabalham. Ajudam a preservar as matas ciliares. A crise atual está atrapalhando a empresa e sua cruzada ecológica? A área de cosméticos tem crescido. É a força da autoestima: em horas difíceis a pessoa precisa de algo que levante o moral. Num ano como foi o de 2008, o Boticário cresceu mais que o esperado. Abrimos 195 lojas e em 2009 vamos abrir mais 100. Então não há cortes à vista. Temos 1.400 colaboradores e queremos contratar este anos mais um 100. E temos um público da classe C entrando no pedaço, são novos consumidores começando a aparecer. Como a empresa detecta isso? Através do mix do nosso portfólio. Temos 600 a 630 produtos, entre cosméticos e perfumes, e uma alta variação de preços. O Brasil está brigando direito, na defesa do meio ambiente? Houve uma grande evolução nos últimos três ou quatro anos. A conscientização da população cresce, a saída é essa, pressionar. Se não cuidarmos da floresta amazônica, por exemplo, aparece alguém que cuida... As ONGs na Amazônia ajudam ou atrapalham? Tem de haver mais controle sobre essas ONGs. Temos muitas delas que são quase pessoa física. Mas tem de separar o joio do trigo e saber que há gente séria trabalhando. E capilarizar as ações tem de ser através de ONGs. Cite dois problemas que têm de ser resolvidos logo. A educação ambiental é uma causa urgente. E há o desafio das grandes queimadas. Há uma devastação enorme. A área primeiro serve à criação de gado, depois é abandonada. Uma rotina em que ninguém investe. E o final dessa história é um deserto. Direto da fonte Sonia Racy Colaboração Doris Bicudo doris.bicudo@grupoestado.com.br Gabriel Manzano Filho gabriel.manzanofilho@grupoestado.com.br Pedro Venceslau pedro.venceslau@grupoestado.com.br Produção Marília Neustein e Elaine Friedenreich

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