Temas tabus tratados de forma lúdica e com responsabilidade

Com acertos, as companhias As Graças e O Grito encenam morte para crianças

Crítica Dib Carneiro Neto, O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2009 | 00h00

Quem tem medo da morte no teatro infantil? Muita gente, mas, com certeza, mais os adultos do que as próprias crianças. Nada como um tabu para embotar as mentes travadas dos papais e das mamães, que ficam receosos de expor seus filhotes a assuntos ditos "tão pesados da vida real". Pois vejam só: há em cartaz em São Paulo dois espetáculos para crianças que tratam com muito cuidado e sensibilidade desses temas mórbidos, Tem, Mas Acabou, no Sesc Santana, e O Armário Mágico, no Centro Cultural São Paulo.O primeiro, em cartaz até o dia 8, a cargo da Cia. Teatral As Graças, reúne as histórias populares compiladas no volume Contos de Enganar a Morte, de Ricardo Azevedo. A montagem puxa bastante para a linguagem dos contadores de histórias, mas mescla as narrativas com muita música e divertidos bonecos, incluindo alguns de origami (a técnica japonesa de dobradura de papel). Balões de gás, pintados com a cara de caveiras, ajudam a dar leveza e humor e a atrair para a cena a atenção dos mais novinhos.Com direção de Cris Lozano (a companhia As Graças sempre atua com diretores convidados), Tem, Mas Acabou não explica nada, não descamba para o pieguismo, não assusta nem deprime ninguém. Tem ritmo e emoção. Em determinado momento, entra no relato um avô desses que todo mundo tem: brincalhão e carinhoso. É um grande achado dramatúrgico, porque aproxima o tema da morte do universo familiar de cada um da plateia. Assim, salva o espetáculo do risco de ficar ?descolado? da plateia. É como se as atrizes quisessem lembrar às crianças que morrer não é um verbo conjugado só no enredo das fábulas.Ajuda muita para a eficiência desse espetáculo a total entrega do elenco e sua disposição em acertar o tom do assunto abordado. Daniela Schitini, Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Vera Abbud (As Graças) transmitem ao público uma verdade interior que é tudo o que os atores vivem perseguindo em suas carreiras. As expressões, os olhares, os sorrisos, a meiguice: tudo nelas remete às figuras femininas que mais amamos em nossas próprias famílias - eis um grande acerto quando se aborda tema tão arriscado. Enquanto isso, a Cia. O Grito apresenta até o dia 1º o seu O Armário Mágico, estreia no teatro para crianças da dramaturga Paula Chagas Autran. Seu texto é certeiro nos diálogos, mostrando que já domina as especificidades do universo infanto-juvenil. A ideia do casal de crianças que se conhece a partir do fundo falso de um guarda-roupa é lúdica e eficiente. A menina, em pleno tratamento de um câncer e, por isso, careca, pensa que vai ser rejeitada pelo menino, que, por sua vez, esconde dela que usa óculos pelo mesmo medo de rejeição. Os atores Alessandro Hernandez e Léia Rapozo dão um show de interpretação e carisma. A direção de Roberto Moretho é ágil e também não permite brechas para o pieguismo. A música recupera os choros de Joaquim Calado. ServiçoTem, mas Acabou. As Graças. Sesc Santana. Av. Luiz Dumont Villares, 579, tel. 2971-8700. Sáb. e dom., às 15h30. Até o dia 8 O Armário Mágico. Cia. O Grito. CCSP - Sala Paulo Emílio. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3397-4002. Sáb. e dom., às 16h. Até o dia 1.º

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