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Tela de Picasso é interceptada após tentativa de contrabando

'La Coiffeuse', avaliada em vários milhões de dólares, roubada em 2001, foi encontrada nos EUA, vindo da Bélgica, como 'presente'

Sheila Leirner, Especial para O Estado de S. Paulo

02 Março 2015 | 20h20

PARIS - Surpreendente descoberta. La Coiffeuse, a tela cubista de Picasso avaliada em vários milhões de dólares, pintada em 1911 e roubada em 2001 do Museu Nacional de Arte Moderna, no Centro Pompidou, foi encontrada nos EUA, vindo da Bélgica, como “presente”. Na embalagem banal (46 x 33 cm), a etiqueta: “Artesanato/Feliz Natal/Valor US$ 30”. O contrabando foi confiscado das garras do mercado negro de obras roubadas, e será devolvido ao governo francês em algumas semanas, o que – segundo o comunicado de imprensa – “deixou toda a equipe do museu muito emocionada”.

Incêndio, roubo ou destruição de obras de arte como a que assistimos no vídeo inédito de propaganda de cinco minutos divulgado pelo grupo do Daesh, com os jihadistas destruindo para sempre várias obras do museu de Mossul no Iraque, constituem “uma parte do espírito humano e universal que se desmorona” (segundo o tweet do primeiro ministro Manuel Valls, sob o hashtag #totalitarismo). O vídeo termina com destruições de relíquias de mais de 3 mil anos em outro local arqueológico, que poderia ser, segundo alguns especialistas, de Nínive, antiga capital do império cristão da Assíria. Em uma biblioteca da cidade, 8 mil livros raros foram igualmente queimados. Tudo isso reabre as feridas causadas pela demolição dos budas de Bamiyan pelos talibãs em 2001, no Afeganistão. 

Que não se pense, no entanto, que estes vândalos apenas ataquem magníficos touros alados de cinco patas com martelo, joguem ao chão e quebrem estátuas da época helenística, destruam baixos-relevos com perfuradoras e aniquilem obras datadas do século 7.º a.C. Tanto quanto os ladrões de Picasso que atuam no mercado negro, eles destinam muitas obras ao tráfico. Bárbaros e assassinos, mas igualmente homens de negócios, os jihadistas do Estado Islâmico destruíram no museu apenas as obras de arte que foram úteis à sua maldita cruzada midiática contra os valores do Ocidente. Muitas peças, menores e mais vendáveis, foram recuperadas para alimentar a conhecida rede de comércio indecoroso que permite ao califa Abu Bakr al-Baghdadi fazer funcionar a sua organização e dar continuidade à nova “guerra contra a cultura”.

Mesmo quando os artistas contestaram a materialidade ou a perenidade da obra, enquanto homens sempre conservaram em suas manifestações a esperança da força e imperecibilidade. Todos aceitamos a transitoriedade da vida, mas dificilmente podemos duvidar da permanência da obra de arte como objeto ou ideia representada. Tanto em seu sentido tradicional quanto contemporâneo, ela ainda parece significar a nossa extensão e perpetuamento material e espiritual, nossas crenças e valores. Isto explica talvez o sentimento de dor que nos invade diante de um incêndio, roubo ou destruição, ou de conforto quando as obras nos são restituídas.

A vingança da civilização ocidental pode, sem dúvida, vir com a guerra ou de outras maneiras. Mas ela pode estar – simbolicamente – em uma única obra, verdadeiramente indestrutível, impossível de roubar e comercializar – talvez a primeira de todas as manifestações subsequentes e desmaterializadas da arte: a máquina/escultura Homenagem a Nova York de Tinguely que se autodestruiu em alguns minutos nos jardins do MoMA, no dia 17 de março de 1960. Em sua destruição reside a ideia que torna eterna a arte do Ocidente. 

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