Tehilim usa Salmos para falar de religião e família

Um pai some e é tudo o que o diretor Raphael Nadjari precisa para fazer pensar

, O Estadao de S.Paulo

03 de agosto de 2009 | 00h00

Em Cannes, há dois anos, Tehilim integrou a competição pela Palma de Ouro. Numa entrevista com o repórter do Estado, o próprio diretor Raphael Nadjari disse que muitas vezes o cinema de autor é desviado para as mostras paralelas do maior festival do mundo - Un Certain Regard, Quinzena dos Realizadores, Semana da Crítica - para que o foco da competição permaneça nos grandes nomes, e tanto podem ser os diretores do cinemão como os astros e estrelas. Nadjari estava achando uma grande responsabilidade concorrer em Cannes. Mas a vitrine da competição lhe agradava. "É uma posição tática importante. Ajudará bastante na visibilidade do filme."Tehilim pode parecer um filme estranho, no mínimo desconcertante. Nadjari poderia começá-lo à ?americana?, ou seja, ao estilo de Hollywood, com um acidente espetacular, que produzisse impacto. Afinal, tudo vai decorrer deste ?incidente?. Um pai leva o filho para a escola. O carro desgoverna, bate num obstáculo, o pai fica ferido. O filho parte em busca de socorro. Quando chega a ambulância, o pai desapareceu. Uma busca nada esclarece. Ele simplesmente sumiu."Não quis começar o filme de maneira espetacular, como talvez o fizesse um diretor de Hollywood. O que eu queria era o estranhamento, um clima particular. Era importante que o mistério surgisse da própria história." Tehilim é a palavra judaica para os Salmos, as canções e meditações do rei Davi, que fazem parte da vida diária e da liturgia em Israel. O diretor disse uma coisa interessante: "Ao filmar, é como se o realizador fosse os olhos de Deus, mas eu não tento ver o mundo de cima, como Ele o faria. O que me interessa é captar esses momentos entre as pessoas."A ausência do pai fornece o ponto de partida de Tehilim - O Livro dos Salmos. Vai aí uma tentativa de criar uma metáfora sobre a autoridade no Estado de Israel, mas Raphael Nadjari não facilita as chaves do entendimento para o espectador. Mais do que pela situação política, ele se interessa pelo drama humano. Cada membro da família é atingido de forma diversa por esse desaparecimento misterioso. Criam-se conjeturas. O pai aproveitou o acidente para fugir? Por quê? A mãe é uma mulher moderna, que não compartilha a ortodoxia do marido. É um choque quando a família do marido invade a casa, com suas orações. O filho estuda os Salmos com um rabino. Ele parece distanciado dos demais irmãos.Jerusalém, onde se passa a história, é uma personagem importante. "Queria mostrá-la de forma diferente da tradicional", disse o diretor. "O próprio filme meio que prescinde de roteiro. Queria que a história fosse diferente, mais íntima. Num filme de Frank Capra, o pai talvez voltasse como um herói divino. Eu estou falando de Deus, mas o faço de um jeito em que tudo é pequeno, para que a história, por mais estranha que pareça, permaneça com o pé na realidade. Não preciso de grandes coisas. Menos é o que me atrai, não mais."Limor Goldstein faz a mãe e Michael Moshonov faz o irmão mais velho. Ambos são conhecidos atores de teatro em Israel. Contracenam com não profissionais que, em alguns casos, estão pela primeira vez diante de uma câmera. "A improvisação se revelou aqui uma ferramenta útil. Ajudou a criar a intimidade necessária para o tom da história." Nadjari afirma não saber o que aconteceu com o pai. "O ato de narrar quase sempre exige que as coisas façam sentido. Se o pai não volta, o sentimento do espectador é de vazio. Talvez ele tenha desaparecido justamente para provocar um cataclismo na família. Talvez para que o espectador se coloque no lugar dele e veja essa família de um ângulo muito especial."

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