Teatro e TV perdem arte de Magno

Seu talento cômico lhe valeu projeção nacional como intérprete e dramaturgo

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

18 de agosto de 2009 | 00h00

Morreu ontem em São Paulo, aos 58 anos, o ator e dramaturgo Miguel Magno em decorrência de um câncer. Intérprete da personagem Doutora Percy no programa Toma Lá, Dá Cá, ele foi um dos fundadores do gênero cômico que ficaria conhecido como besteirol a partir do espetáculo Quem Tem Medo de Itália Fausta?, escrito em parceria com Ricardo Almeida, que fez estrondoso sucesso no teatro e ficou anos em cartaz, desde sua estreia em 1979.Até o fechamento desta edição não se sabia onde o corpo seria velado. O ator, dramaturgo e diretor Marcos Caruso era um dos amigos que estavam em companhia da mãe de Miguel Magno no Hospital Paulistano e, pelo celular, muito emocionado, preferiu não falar ao Estado no momento do contato.Paulista, Miguel Magno trabalhou em televisão, teatro e, no cinema. Atuou no filme Irma Vap, O Retorno, dirigido por Carla Camurati, ao lado de Marcos Caruso, autor da peça Operação Abafa, que tinha Magno no elenco, um de seus últimos trabalhos teatrais. Quem Tem Medo de Itália Fausta?, sem dúvida o espetáculo que projetou nacionalmente esse artista, nasceu de forma despretensiosa, como costuma ocorrer com os grandes sucessos. Magno havia lido um livro sobre o ator Leopoldo Fróes (1882-1932) e, a partir dessa leitura, ele e Ricardo Almeida começaram a criar cenas brincando com a figura do ?ponto?, aquele funcionário cuja função era ?soprar? do fosso do palco o texto para os atores.Assim surgiu a diva dependente do ponto, esquete que abria a montagem. Aos poucos, outros foram se agregando. Itália Fausta ganhou ainda, como ?entreato?, hilariante crítica ao academicismo na conferência de duas professoras sobre "a importância dos monossílabos e das interjeições átonas do dialeto javanês na literatura dramática da ilha de Java durante os últimos 15 dias do século 12 antes de Cristo".O espetáculo estreou num pequeno teatro no Bexiga - hoje, o Espaço Ágora, dirigido por Roberto Lage e Celso Frateschi. "Eu vi aquela montagem dezenas de vezes", lembrou mais tarde Eduardo Martini, que atuou nessa comédia, primeiro contracenando com Miguel Magno e, numa remontagem, com Marcos Oliveira (o Beiçola do seriado A Grande Família).Entre seus múltiplos trabalhos, Miguel Magno participou de séries como Queridos Amigos, de Maria Adelaide Amaral, do seriado inaugural de A Diarista, no papel do pintor Amintas Possolo, e de Os Normais, como um dentista. Na televisão, participou ainda de novelas nas quais sua verve cômica conquistou o público. Ele brilhou como o criado Romeu de Estrela-Guia e ao encarnar Dona Roma, de A Lua me Disse, ambas na Rede Globo. No teatro, atuou ainda com Denise Stoklos na comédia Um Orgasmo Adulto Escapa do Zoológico, com texto de Dario Fo e Franca Rama. COLABOROU LUCAS NOBILERepercussão"Miguel Magno criou um gênero de comédia urbana que só depois de um certo tempo passou a ser chamado, no Rio, de ?besteirol?. Tinha uma capacidade de comédia deslumbrante. Tive o prazer de trabalhar duas vezes com ele, que pegava qualquer texto e aplicava aquela noção de tragicômico de uma maneira que somente ele sabia fazer. Foi um grande ator, que fará muita falta ao meio teatral."DENISE STOKLOSATRIZ"Ele era muito versátil. O teatro perdeu um grande comediante. Não apenas no meio teatral, mas também na TV, ele fez trabalhos inesquecíveis. É uma pena, ele sempre me cobrava para trabalhar mais comigo."MARIA ADELAIDE AMARALDRAMATURGA"É uma perda enorme, um buraco muito grande. Quem privou da intimidade do Miguel sabe o quanto ele era delicado e gentil. Junto com o Ricardo Almeida, foi precursor da renovação da comédia, com Quem Tem Medo de Itália Fausta. Tinha um tempo de comédia precioso e único"MIGUEL FALABELLAATOR E DIRETOR"Ele deixa o legado de um tipo de humor muito peculiar. Miguel tinha a capacidade de fazer comédia com pequenos detalhes. É muito difícil encontrar alguém com tamanha capacidade de concisão para passar a comédia."DIOGO VILELAATOR"Ele fazia comédia com seriedade. Não exagerava, sempre usava a simplicidade para representar seus papéis."ROSAMARIA MURTINHOATRIZ

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