Tavernier e o tempo que passa numa paisagem da Louisiana

In the Electric Mist, primeiro filme do diretor francês nos EUA, concorre ao Urso de Ouro em Berlim

Luiz Carlos Merten, BERLIM, O Estadao de S.Paulo

11 de fevereiro de 2009 | 00h00

Bertrand Tavernier está feliz da vida aqui na Berlinale. Ele concorre ao Urso de Ouro - que já recebeu por A Isca, em 1995 - com seu primeiro filme rodado nos EUA, embora, como assinale, In the Electric Mist não seja uma produção norte-americana. "O dinheiro é francês, uso somente a paisagem da Louisiana." Não apenas a paisagem - In the Electric Mist baseia-se no livro de James Lee Burke, autor por quem Tavernier confessa ser apaixonado. "Ele é um grande escritor, possui um humor muito especial e é extremamente crítico em relação à América. Como gosta de dizer, na Louisiana os vivos são cada vez mais governados pelos mortos. E a região, como os EUA em geral, é submetida à destruição por causas naturais, como o furacão Katrina, ou políticas, como a imensa corrupção da era George W. Bush."O filme conta a história de um policial, interpretado por Tommy Lee Jones, que investiga o brutal assassinato de uma garota e descobre forças nem tão ocultas - o poder econômico representado por John Goodman, com ramificações na indústria do cinema. Na internet, circularam informações que a filmagem foi perturbada pelas brigas do diretor com o astro, ou pelas interferências de Tommy Lee no trabalho de Tavernier. "É bom não confiar na maioria dessas histórias que circulam impunemente. Tivemos algumas diferenças, mas Tommy Lee foi fundamental no processo. Ele, inclusive, escreveu pessoalmente cenas e diálogos que fizeram o filme crescer."Filmar nos EUA nunca foi propriamente um sonho de Tavernier, embora ele seja autor de uma História do Cinema Norte-Americano, em parceria com Jean-Pierre Coursodon, e tenha escrito também - sozinho - Amis Américains, um livro de entrevistas com grandes diretores cuja nova edição acaba de sair na França. "O livro ganhou 400 páginas, seis novas entrevistas e vem agora ilustrado com mais de 500 fotos." Tavernier ama um cinema norte-americano clássico e não faz segredo disso. Em relação ao país, é mais crítico. "Andar na Louisiana produz uma sensação curiosa. Em New Orleans, durante os preparativos, encontrava aqueles carros com decalques que diziam: ?Por favor, M. Chirac, compre de novo a Louisiana.?"No original, o livro chama-se In the Electric Mist with Confederate Dead. Os mortos da Guerra Civil imantam a narrativa e, por isso, Tavernier diz que essa história não poderia ser adaptada para outro lugar que não a Louisiana. "Adoro esse velho general que vem conversar com Tommy Lee. Mais do que uma assombração, ele coloca o problema do tempo. Talvez esteja envelhecendo, mas o tempo me interessa cada vez mais. O tempo que passa, o tempo perdido, o tempo que não pode ser reencontrado." Para o diretor, In the Electrix Mist está muito próximo de um de seus primeiros filmes, Coup de Torchon. "Tenho a impressão que sou perseguido sempre pelo mesmo tipo de personagens em choque com seu tempo e seu mundo. Foi Philippe Noiret, grande ator e grande amigo, que me abriu os olhos para Burke. Ele teria feito um grande personagem, mas nem Philippe conseguiria ser melhor do que Tommy Lee."

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