Taunay e a fictícia missão francesa

Livro e exposição sobre o pintor derrubam mito dos ''missionários'' da França

Entrevista com

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2008 | 00h00

O pintor francês Nicolas Antoine-Taunay (1755-1830) achava difícil retratar o Brasil. A luz tropical o deixava cego e a exuberância da mata massacrava o artista, um dos nomes que a história oficial registra como integrante da ''Missão Francesa'', que chegou ao Rio em 1816. No livro O Sol do Brasil (Companhia das Letras, 400 págs, R$ 55,) que chega às livrarias dia 27, a historiadora Lilia Schwarcz coloca por terra o mito dessa ''missão'', afirmando que Taunay e Debret (1768-1848) não faziam parte da mesma turma. Ao contrário, disputavam a preferência de D. João VI, mais chegado às alegorias do último. O livro antecipa a chegada de 80 telas da Europa para uma grande exposição internacional de Taunay - em maio, no Museu Nacional de Belas Artes do Rio, e em julho, na Pinacoteca do Estado - com curadoria da historiadora.Por que Taunay pediu proteção ao rei, opositor de Napoleão?Esse é justamente o começo de minha pesquisa, a famosa carta de Taunay que se encontra no Museu Imperial de Petrópolis. É possível imaginar que seja da época da Restauração, embora Taunay revele estar com 60 anos. Pode, portanto, ter escrito essa carta já no Brasil. Essa dúvida me moveu a pesquisa inteira e assumo que não sei de que ano ela é (é mais provável que seja de 1815), embora tenha algumas hipóteses: a primeira delas é que Taunay percebeu o ambiente da Restauração. Ele foi vice-presidente da Academia e observou que as pessoas começavam a perder seus postos na França. Acumulava motivos para concluir que a situação era instável. Por que, então, escolheu o Brasil? Primeiro, porque era um pintor de paisagens, profissional não muito valorizado na época - tanto que virou um pintor napoleônico. O que eu tento mostrar, no livro e na exposição que virá ao Brasil em maio, é que, mesmo abraçando a pintura histórica, ele continuou sendo um pintor de paisagens. Taunay era formado na Escola de Roma, foi leitor de Winckelmann e buscou a luz dos trópicos. Acho que veio ao Brasil em busca da sua natureza. Os intelectuais franceses, cansados da guerra, precisavam dessas viagens ''pitorescas''. Por que pediu ajuda ao rei de Portugal? Porque era melhor a companhia de um rei que estar nas anárquicas repúblicas latino-amerricanas.

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