Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Tatiana Blass pinta um mundo que se esvai

Pintora abre exposição hoje, na Galeria Millan, com pinturas, esculturas e instalação que retratam a tragédia contemporânea

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2022 | 05h00

Logo à entrada da exposição Reviravolta, da pintora Tatiana Blass, que será aberta neste sábado, na Galeria Millan, um guache sobre tela de sua recente série Os Sentados sugere uma figura hierática num cenário teatral, como os personagens do norueguês Edvard Munch (1863-1944). De fato, a exemplo de Munch, com o qual sua pintura dialoga (também na paixão pelas peças de Ibsen), Tatiana sempre buscou o delicado equilíbrio entre a precária estrutura da imagem e sua desestruturação. Num lance ousado, essa dissolução é levada ao extremo numa exposição que combina pintura, escultura, vídeo e instalação com um único propósito: retratar a tragédia contemporânea.

Em uma frase, o que a exposição propõe, nas palavras da pintora, é a “materialização da morte como uma transformação, não como um fim”. Morte que pode vir tanto como libertação individual, como numa peça de Ibsen (Os Espectros, por exemplo), ou numa tragédia coletiva – como o rompimento das barragens de Mariana, em 2015, e de Brumadinho, em 2019. A pintura que a tornou mundialmente conhecida, a ponto de levar Tatiana a viver uma temporada num pequeno povoado da Noruega, terra de Munch, ainda tem força para contar essa história. No entanto, a artista considerou a possibilidade de tornar ainda mais palpável essa tragédia: faz correr pelo piso e paredes da galeria um fio de água enferrujada, que remete à lama das barragens rompidas.

A instalação, projetada este ano, chama-se, apropriadamente, O Fim Continua. Esse rastro de ferrugem, que sai de uma mangueira de ferro, é ao mesmo tempo uma reflexão visual pictórica, conceitual e literária sobre os mencionados desastres ecológicos. A paulista Tatiana, que mora em Minas, é também poeta e autora de um libreto que acompanha o catálogo da mostra. Ela traça uma correspondência analógica entre literatura e pintura – da mesma forma que Ibsen abordou o tema da figura no espaço interior recorrendo ao teatro, a eloquência intimista dessa expressão literária em Tatiana resume o que pensa ao finalizar assim um dos poemas: “o azul da tinta que veio da pedra se dissolvendo no ralo da pia e voltando ao manancial”.

Munch desenvolveu uma espécie de Kammerspiele em sua pintura, uma peça de câmara feita com poucos personagens cujos traços se dissolvem. Transfigurados, eles são como espectros. Tatiana seguiu o mestre e pintou cenas em que os personagens ou estão em pé, ou sentados, sempre à beira do desastre que inevitavelmente virá, como numa peça de Beckett.

O espectador poderá presenciar ao vivo o momento em que a dissolução da figura acontece na exposição de Tatiana: numa tela da série Os de Pé, ligada na tomada, o óleo, a cera e a parafina se derretem com o calor, fazendo emergir uma nova pintura sobre a superfície. Numa escultura que representa um homem de parafina sentado (mais de 80 quilos), um sensor de presença desfigura a peça, desorientando o espectador, que, ao ativar a obra, concomitantemente, a destrói. Ainda no mesmo diapasão, a peça Cera-Cerâmica, concebida em 2020, tem uma cabeça de cerâmica com cera que, colocada sobre um fogareiro, se derrete, formando outra cabeça. Segue, enfim, um princípio similar ao piano de cauda que se desintegrava com cera e vaselina, caindo ao chão na 29ª. Bienal de São Paulo (2010).

“A tragédia virou uma imagem, vemos tudo por meio de uma tela de televisão”, observa a pintora. Como, então, registrar a indignação diante de uma barragem ruindo como uma torre bíblica diante de nossos olhos? “Acho que misturando o público e o privado”, responde, não fazendo distinção entre dois universos separados (o teatral, íntimo, e o real, espetaculoso). Para tanto convocou os dois filhos, Antonio, de 5 anos, e Sofia, de 4 anos, e o trio assinou a série Bagunça, realizando algumas pinturas a seis mãos. Tatiana deixava de encarar uma tela em branco para pintar sobre as garatujas de ambos, gerando uma segunda pintura dotada de uma potência morfogenética, em que o guache se misturou à farra do esmalte sintético das crianças no papel, como signo corpóreo da sublimação do visível. A pintura não morre. Ela se transforma. “Giotto é tão contemporâneo como Ana Prata”, conclui Tatiana.

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