Tarde demais para esquecer

O escritor londrino Hanif Kureishi lança, aos 55 anos, seu mais ambicioso livro, Tenho Algo a te Dizer, um balanço de sua geração em tom de farsa

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

25 de fevereiro de 2009 | 00h00

Como seus personagens, o escritor londrino Hanif Kureishi, aos 55 anos, não consegue se livrar do passado. Os personagens de seu novo romance, Tenho Algo a te Dizer (Companhia das Letras, tradução de Celso Nogueira, 504 páginas, R$ 62), sofrem da síndrome de Marienbad, fazendo tudo para esquecer o que aconteceu lá atrás - e quanto mais tentam, mais lembram. O psicanalista Jamal Khan, protagonista do livro, por exemplo, é atormentado pelo fantasma de um assassinato no passado e vive, no presente, um pesadelo com o filho problemático e uma irmã depressiva que, para sua raiva, começa a ter um caso com seu melhor amigo, Henry, famoso diretor teatral. Parece dramático, mas Kureishi, como sempre, dá um jeito de tornar a situação engraçada - e explica ao Estado, numa entrevista por telefone, de Londres, a razão de ter escolhido o caminho da farsa para enfrentar a tragédia contemporânea.Tenho Algo a te Dizer fala de racismo, sexo fácil, imigrantes asiáticos e adolescentes quase autistas diante da televisão. É mais ambicioso que os outros livros de Kureishi (O Buda do Subúrbio, O Álbum Negro) por pretender ser um balanço de sua geração. Um entusiasmado crítico inglês chegou mesmo a dizer que se trata de uma história social da Grã-Bretanha dos últimos 40 anos, embora o autor, modestamente, diga que nunca perseguiu a ideia de produzir um épico. Ele está mais interessado em ser um cronista do presente, sobre o qual fala na entrevista a seguir. Seu livro termina com a crescente paranoia sobre homens-bomba, indicando que os atentados de julho de 2005 em Londres não serão os últimos. Como você, que escreveu o primeiro livro explorando a jihad inglesa oito anos antes desses acontecimentos, O Álbum Negro, vê o recrudescimento do sentimento racista contra muçulmanos na Inglaterra?De fato, costumo dizer que os muçulmanos europeus formam uma espécie de almas perdidas na tradução, tentando construir uma identidade para eles baseada numa religião puritana. Porém, não se deve defender por isso uma reação violenta contra o Islã. Pessoalmente, a monocultura é, para mim, uma anomalia. Sou pelo multiculturalismo, tenho fascínio por ele. É provável que nem todos dividam o mesmo credo, a julgar pela crescente paranoia que vem, não de julho de 2005, quando as bombas explodiram em Londres, mas do 11 de Setembro.O estilo literário de Tenho Algo a Te Dizer tem a ver com a tradição satírica de Swift, no sentido de eleger a farsa para tratar de problemas sérios. Essa é uma maneira de dizer, parafraseando D.H. Lawrence, que a nossa é uma era essencialmente trágica, mas incapaz de entender a tragédia?Não acho que caminhamos para o cinismo apenas por ver as coisas de modo diferente dos gregos. Vivemos, sim, uma tragédia cotidiana, mas nosso dilema não é o de entender a tragédia, mas enfrentá-la. A verdade é que, a despeito da situação crítica mundial, não deixamos de ser otimistas. É o que muda nossa postura diante dos gregos. Quando criança, adorava comédia. A farsa foi meu caminho literário natural para entender o mundo. E continua sendo.O psicanalista Jamal, personagem central de seu livro, acredita que a paixão sexual é a razão de viver de todo ser humano, mas você não parece dividir com ele essa opinião, considerando que, numa recente entrevista, você admitiu não ter mais ilusões sobre o sexo, falando mesmo num certo "thatcherismo da alma". Pessoas da sua geração costumam - ou costumavam - dizer que sexo e amor são a mesma coisa. Você pensa diferente?Há uma grande diferença entre intercurso sexual e libido, que pode estar ligada a uma outra atividade, como escrever livros, espécie de sublimação, admito, mas uma forma mais elevada de sexo. Passei anos fazendo sexo inconsequente, o que já não me interessa mais. Acho que houve uma vulgarização do sexo. No tempo de O Buda do Subúrbio, lutávamos contra a repressão sexual e hoje, liberados, vemos que as pessoas foram desumanizadas por conta da instrumentalização da sexualidade, esse ?thatcherismo da alma? que transforma o amor em mercadoria.Você ocupa a cena literária há 20 anos, sempre elegendo temas polêmicos e personagens ambíguos, como o paquistanês de Minha Adorável Lavanderia, que faz uma "ponta" em Tenho Algo a Te Dizer. Autodestruição e irresponsabilidade parecem ser os traços comuns desses personagens. Como você constrói a identidade deles? Adota alguém conhecido como modelo?Quando comecei a escrever nos anos 1980 adotava, de fato, pessoas reais como modelos de meus contos, novelas e peças. A maioria era uma combinação de gente que conhecia, mas isso foi mudando à medida que fui me conhecendo melhor e me interessando por outros temas além de preconceito racial e diversidade sexual. Não estou bem certo se meus personagens são autodestrutivos. Acho que alguns deles são irresponsáveis, mas isso é circunstancial.Tenho Algo a Te Dizer pode funcionar como uma história social da Grã-Bretanha nos últimos 40 anos, como disse um crítico. Sua intenção foi mesmo a de escrever um épico ou fazer um balanço de sua geração?É mais um balanço geracional de alguém que já passou dos 50 anos e que, jovem, tinha vergonha de ser descendente de paquistaneses. Queria acompanhar a evolução de personagens com o mesmo problema, como o garoto paquistanês que abre a "adorável lavanderia" com o amigo inglês e passa de um rejeitado "paki" (pejorativo para paquistanês na Inglaterra) a empresário conservador e bem-sucedido. Essa é a razão de Ali reaparecer em Tenho Algo a te Dizer. Sempre vi meus personagens como pessoas reais, que se transformam com o passar dos anos.É comum ler resenhistas que comparam sua escritura à de Philip Roth e Saul Below, a despeito das nítidas diferenças entre seus livros e os deles. Quais eram suas referências no começo de carreira e agora?Eram mesmo Philip Roth, Saul Below, Norman Mailer, além dos gigantes do romance francês, como Balzac. Hoje não tenho mais ídolos. Gosto de conversar com autores jovens e meus alunos. Tenho pouco contato com colegas escritores.Há sempre um personagem homossexual em seus livros. Por que um homem casado e com três filhos se interessa tanto pelos gays? Você acha que homossexualidade é opção ou predestinação?Não cheguei a nenhuma conclusão, mas acho que opção não é, de maneira nenhuma. Como uma criança pode escolher? No entanto, a inclinação homossexual surge na infância e ela nada pode fazer contra ela. Escrevo indiferentemente sobre gays e heterossexuais porque, para mim, a manifestação do desejo sexual impede pessoas de serem neuróticas, histéricas ou perversas. Seu contato com a cultura pop é muito forte, a ponto de Mick Jagger ser mencionado no livro como o homem que recomendou a escola secundária em que Rafi, o filho do psicanalista Jamal, estuda. O que o pop significa para você?Cresci na Inglaterra nos anos 1960, ou seja, num cenário inteiramente dominado pela cultura pop. Assim, é impossível renegar minha formação. Ainda amo o pop. As melhores cabeças da minha geração são do rock.Freud está de novo no centro das discussões e também ocupa os pensamentos do principal personagem do livro, o psicanalista Jamal. Você, que faz análise, como vê suas teorias?Freud é incontornável, o maior pensador crítico da sexualidade que o mundo já teve, além de um profundo estudioso de questões como o monoteísmo. A psicanálise me salvou das drogas e das obsessões sexuais. Pena não a ter descoberto antes. Escrevi Tenho Algo a te Dizer tendo em mente sua contribuição nos estudos sobre repressão sexual e O Mal-Estar da Civilização como guia.Parece que seu público-alvo hoje é bem diferente do leitor que perseguia na época de Minha Adorável Lavanderia. Que tipo de leitor tinha em mente ao escrever Tenho Algo a te Dizer?Primeiro, nunca tive em mente um só tipo de leitor, mesmo quando escrevi o roteiro de Minha Adorável Lavanderia, que poderia, teoricamente, ser dirigido aos gays. Escrevo para entender a mim mesmo, para me entreter. Mesmo falando de coisas como preconceito racial e fundamentalismo religioso?Sou fascinado pelo estudo das religiões, mas não estou interessado em nenhuma delas em particular. Frequentei, sim, uma mesquita quando meu pai morreu, mas para entender sua formação cultural, não porque pretendia me converter ao islamismo.Você acredita que a Inglaterra se tornou mais racista desde que era criança e sofria o preconceito de colegas brancos? Ouvi dizer que você foi preso e o policial londrino disse que tinha uma "aparência mediterrânea". Como reagiu a essa provocação?Há muitas formas de racismo na Europa. A desse policial é apenas uma entre muitas. É difícil erradicar o racismo. Sempre haverá alguém disposto a odiar o outro por causa de sua cor, religião ou preferência sexual. Isso é inevitável. O que não é lícito permitir é a repressão da criatividade e das liberdades fundamentais. Preparo uma adaptação teatral de O Álbum Negro, que deve estrear em julho, em Londres, justamente por acreditar nisso.

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