Tarde de dezembro sem nostalgia

Além do Rio Pinheiros é possível avistar uma haste cinza no campus da USP: será a torre do relógio? Mais adiante, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, onde estudei na década de 1970. Não vejo com nitidez a FAU, mas ela está lá, com suas rampas e ateliês e oficinas de maquete, diplomando arquitetos e urbanistas. O laguinho onde os calouros eram batizados depois de uma festa ainda existe? E o salão Caramelo? Os professores Flávio Império e Flávio Motta sabiam tudo, suas aulas desintoxicavam a mente dos calouros: cabeças viciadas pela múltipla escolha dos cursinhos em plena ditadura.Mesmo de longe, a visão do campus me remete sem nostalgia ao tempo em que fui arquiteto, uma profissão temporária, circunstancial. Ainda sonhávamos com projetos dignos de habitação popular, e não desenhos de favelas de tijolos e concreto, horizontais ou verticais. Por que os arquitetos talentosos foram excluídos dos projetos de São Paulo e de outras cidades brasileiras?Lembro de debates cansativos sobre arquitetura e política, mas hoje não é dia de lembranças, a memória é refratária ao tempo presente. Nas ruas e calçadas desse bairro há um movimento alucinado de pessoas que saem dos escritórios e caminham para restaurantes, bares, padarias; operários almoçam sentados no canteiro de obras. A sirene da viatura policial emite um som estridente; depois de poucos segundos, o som agudo torna-se grave e apaga-se aos poucos, deve ser o efeito Doppler-Fizeau, que aprendi nas aulas de física da FAU. Ou foi uma das questões da prova de física de um vestibular distante? Outra viatura policial passa a mil, a terceira ignora o sinal vermelho e por pouco não atropela uma mulher idosa que segura a mão de uma menina. A mulher, talvez uma avó, esbraveja contra a viatura. Pobre avó, acuada entre o meio-fio e a entrada de uma garagem onde um carro buzina e em seguida o motorista sai do carro e gesticula. Agora a avó está indecisa: não sabe se esbraveja contra o motorista do carro ou o da viatura policial, que já sumiu.Esta cidade não é mais para vovós nem para netinhos, pensei. Os motoristas não imaginam que um dia vão envelhecer e uma outra viatura policial e um outro carro vão acuá-los, humilhá-los, jogá-los no meio-fio como se fossem bichos. Então a mulher idosa acomoda a criança nos braços e se afasta para deixar o carro passar. Primeiro os carros, depois os pedestres: assim somos mais civilizados. Não sei se a menina está chorando, mas deve estar assustada. Um homem se aproxima delas, a solidariedade chega tarde demais.Escuto também o barulho infernal de buzinas, freadas, motocicletas que serpenteiam por uma avenida larga. Os apressados sabem que a buzina é inútil. Então por que buzinam? Por mero exibicionismo, talvez. Ou por hábito, um tipo de hábito irracional que parece loucura. Com tanta buzina, parece que estamos em Lagos, Calcutá ou no Cairo. A Lei do Silêncio foi esquecida? Quando olho para uma outra direção, entre o rio e este apartamento, vejo uma praça no alto de uma colina, uma das muitas praças de um bairro arborizado, ocupado por mansões com grandes jardins. Muitas estão à venda porque é caro conservá-las, ou é mais seguro morar em apartamento.Agora o vento dissipou as nuvens, o sol do verão ilumina as colinas que, ao longe, formam um dos limites extremos da metrópole. Mas nem o sol anima o Rio Pinheiros: um canal de água suja e pestilenta, em cujo leito há todo tipo de dejetos. Um dos rios mortos ou agonizantes numa metrópole de 18 ou 20 milhões de habitantes, porque a Grande São Paulo é muitas cidades numa megalópole tentacular. Através da outra janela, vejo uma muralha de edifícios recém-construídos. Eles se aproximam do lugar em que escrevo; alguns, próximos da janela da fachada leste, ameaçam seqüestrar a luz do sol matinal e lançar uma sombra fria nesta mesa. São torres cada vez mais altas, a cem metros do solo, um dia elas vão ocupar o lugar das mansões, das praças, das nuvens, do céu que já não mais nos protege. Quando tudo isso acontecer, quando todas as janelas deste quarto estiverem vedadas, ainda assim será possível imaginar fábulas distantes no tempo e no espaço.Agora mesmo, enquanto o olhar passeia pelo rio morto, ou se estende até o campus, as colinas e a muralha de concreto, sou fisgado pela memória, que viaja para o Norte e perde-se nas margens do Negro, o rio da infância. Este é um dos lugares da ficção: o paraíso perdido para sempre. O lugar a que se destina o viajante imóvel numa tarde barulhenta de dezembro.

Milton Hatoum, O Estadao de S.Paulo

12 de dezembro de 2008 | 00h00

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