Tanto Faz pregava ócio como meta, e não alvo

Tínhamos sede de encrenca e o livro foi nosso mau exemplo

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2009 | 00h00

Tanto Faz foi o On the Road da minha geração. Portanto, Reinaldo Moraes foi o Kerouac que nós fizemos por merecer. Em junho de 1982, éramos majoritariamente monoglotas e estávamos começando a vida exatamente no ponto em que o Brasil saía de uma ditadura. Em Londrina, naquela época, ainda havia uns malucos que patrulhavam quem usava camiseta com símbolos imperialistas (um logotipo da Coca-Cola, uma etiqueta importada, uma Levi?s 501) - tinha até um sujeito que andava com uma tesoura pela universidade para cortar as etiquetas à força.Os melhores livros desbundados estavam fora de catálogo, e a gente os lia em cópias xerox que passavam de mão em mão: Paranóia, do Roberto Piva; Panamérica, do José Agrippino de Paula; Alegria Alegria, do Caetano Veloso; e Deus da Chuva e da Morte, de Jorge Mautner. Não tínhamos Salinger como baliza.Nova York, Paris e São Francisco eram tão factíveis para a gente quanto o passeio de Yuri Gagarin pela órbita do planeta. São Paulo era nosso maior sonho contracultural (e São Paulo, hoje sabemos, é uma cidade careta; "Nos anos 70 era pior", lembrou o Reinaldo Moraes). Foi no final dessa década que ele escreveu Tanto Faz, o livro que, publicado em 1981, nos faria eleger o ócio como uma meta, quando não um alvo.Tanto Faz foi o nosso bom mau exemplo (tinha quem preferisse Feliz Ano Velho, do Paiva, ou Morangos Mofados, do Caio F.), mas nós tínhamos sede de encrenca, não de lirismo ou memorialismo. Jogávamos sinuca a tarde toda e, em dia de assembléia do movimento estudantil, a gente marcava jogo de futebol no câmpus. Chegamos a acampar na universidade. Quando a TV baixou ali para saber qual era a pauta de reivindicações, o Careca disse: "Uma soneca depois do almoço." Combatíamos o professor de Semiótica e ironizávamos a juventude "revolucionária" de Ulysses Guimarães.O livro virou raridade, coisa de sebo. Foi reeditado pela Azougue há alguns anos, mas foram só mil exemplares. Ainda assim, virou uma bíblia. Todos sabemos de cor a história: um funcionário público paulistano de nome comum, Ricardo de Mello, ganha uma bolsa para fazer mestrado em Paris. Chegando lá, ele manda o mestrado para as cucuias e passa a vadiar, biritar, fumar e correr atrás de todo rabo-de-saia que vê pela frente.O Reinaldo disse que seu personagem era o resultado "de uma fratura no sistema". Um garoto que simplesmente se insurge contra a peremptoriedade da sociedade produtiva. Farrear é sua meta. Não era tão nobre para se tornar um punk, nem tão sem princípios a ponto de fazer carreira na política.O livro ajudou a destravar uma geração que chegava traumatizada pelo cinto de castidade aplicado às consciências durante a ditadura. Ao mesmo tempo, uma lição de anarquia formal, antimanual literário, um relato amoral, apolítico, agnóstico, anárquico e que não tinha a pretensão de levar ninguém a lugar algum. Ok, tanto faz, porque nós o levamos conosco.

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