Superação da perda inspira premiado romance policial

R.J. Ellory trata do tema em Uma Crença Silenciosa em Anjos

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

12 de maio de 2009 | 00h00

O vencedor do prêmio melhor romance policial da revista francesa Le Nouvel Observateur do ano passado estava para ser anunciado e os especialistas acreditavam que a decisão seria definida como em um cara ou coroa: Dennis Lehane ou Carl Hiaasen. A moeda, no entanto, decidiu cair em pé e o britânico R. (de Roger) J. (Jon) Ellory foi anunciado como o grande vitorioso, com o romance Uma Crença Silenciosa em Anjos, agora lançado no Brasil pela Intrínseca (tradução de Adalgisa Campos da Silva, 448 páginas, R$ 39,90).Best-seller na Inglaterra, o livro é uma espécie de penitência para Ellory - órfão aos 7 anos, perdeu também os avós e foi criado em internatos, que não lhe forneceram a desejada educação. Afinal, aos 17 anos, foi preso e cumpriu pena por roubo. Assim, Uma Crença Silenciosa em Anjos reflete seus sentimentos de perda, morte, culpa e injustiça.Trata-se da trajetória de Joseph Vaugham, que enfrenta várias tragédias pessoais: a perda do pai, a loucura da mãe, mas principalmente uma série de assassinatos que, ao longo de uma década, arruína as relações sociais da cidade onde ele vive, uma pequena comunidade rural do sul dos Estados Unidos. O primeiro crime acontece quando Vaugham está com 12 anos, o que o motiva a formar com os colegas um grupo de proteção, chamado "Os Guardiães". Mesmo depois de cessada a violência, uma sombra de medo e pavor persegue o garoto que, 50 anos depois, ainda enfrenta o pesadelo que abalou toda a sua existência."A ideia surgiu quando eu aguardava a convalescença de um amigo no hospital e, enquanto isso, relia A Sangue Frio, de Truman Capote", conta Ellory ao Estado, em entrevista por e-mail. "Fiquei interessado tanto pela história, que é uma rica reportagem feita por Capote sobre um assassinato em uma pequena cidade, como também pelo efeito devastador que esse livro teve em sua carreira: apesar de torná-lo rico, famoso, a obra acabou por matá-lo, já que Capote não conseguiu mais completar outro livro tão fascinante, terminando seus dias afundado na bebida." Ou seja, se consegue salvar, uma obra também pode liquidar com seu autor.Decidido a escrever um drama que também se passasse no sul dos Estados Unidos, Ellory iniciou uma incansável pesquisa sobre o ambiente do Estado da Geórgia nos anos 1930 e 40. "O material era farto, mas meu cuidado era o de não usá-lo sem comedimento - há uma poesia tipicamente sulista que, bem utilizada, provoca um impacto emocional", acredita o escritor que, a despeito dos crimes que marcam o suspense da história, estava decidido a retratar um homem que, apesar das inúmeras perdas, mantém intacta sua tolerância. "Trata-se de alguém que entregou sua vida a fim de encontrar a verdade sobre algo, que se dispôs a perder sua existência para que a justiça prevalecesse."Para Ellory, a investigação que prevalece em seus romances é a que tenta decifrar a face indômita do espírito humano. "O ponto em comum de todos meus livros é a presença de um personagem comum que enfrenta uma situação extraordinária, anormal", conta o autor, revelando semelhança com as clássicas histórias de mistério filmadas por Alfred Hitchcock. Uma Crença Silenciosa em Anjos, aliás, chegará aos cinemas - Ellory já trabalha no roteiro, mas não revela quem será o diretor. Mais um mistério a ser solucionado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.