Super OS vai gerir Jazz Sinfônica

Secretaria rompe com Centro de Estudos Tom Jobim e transfere conjuntos

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

15 de janeiro de 2009 | 00h00

No último sábado, a Secretaria de Estado da Cultura transferiu dois importantes conjuntos musicais de São Paulo, a Orquestra Jazz Sinfônica e a Banda Sinfônica, para a gestão de uma Organização Social (OS), a Associação Paulista de Amigos da Arte (Apaa). O novo contrato foi publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo.Para gerir os conjuntos, a Apaa vai receber, até 2011, a quantia de R$ 133,5 milhões, o dobro do orçamento da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro - só para este ano serão repassados cerca de R$ 36 milhões das orquestras para a associação, que funciona dentro do Teatro Sérgio Cardoso, de propriedade do Estado. A lei que criou as Organizações Sociais não prevê licitação para a escolha desses organismos - apenas pede um plano de metas e prestação de contas.A secretaria encerrou assim o contrato com outra organização social que geria os conjuntos, o Centro de Estudos Musicais Tom Jobim. O Centro administrava a Universidade Livre de Música (ULM, escola de música mantida pelo governo na capital), o Festival Internacional de Inverno de Campos de Jordão, a Banda Sinfônica e a Jazz Sinfônica, além de orquestras e coros profissionalizantes. A decisão implica a demissão de cerca de 30 pessoas da parte administrativa da OS, que não serão reaproveitadas na Apaa.É consenso nos meios da música de São Paulo que o Centro Tom Jobim foi responsável por substancial progresso no nível didático-pedagógico da ULM, e melhorou o nível artístico dos seus corpos estáveis. Ainda assim, foi trocado pela atual gestão da Secretaria de Cultura, e muitos atribuem essa mudança a questões de fundo político, mas Ronaldo Bianchi, secretário-adjunto da Cultura, não concorda."Na verdade, existia uma confusão de foco. Quando se trabalha com ênfase no ensino musical, acaba-se colocando em segundo plano a difusão cultural. A direção (de Clodoaldo Medina) pendia mais para o ensino de música", diz Bianchi. "Como vencia o contrato com a ULM no final do ano, nós pensamos em repassar a gestão para a OS Santa Marcelina Cultural, porque foi um sucesso o Projeto Guri com eles. Se continuássemos com a OS Tom Jobim, ia custar um mundo de dinheiro. A Apaa já existe, o que nos economiza custos fixos."A ULM, o Festival de Campos e os grupos jovens serão administrados pela OS Santa Marcelina, atual responsável pelo Projeto Guri na capital e na Grande São Paulo. Isso gerou diversas críticas do meio artístico, a maioria delas pedindo mais transparência e participação da comunidade de artes nesse tipo de decisão."A ação da Secretaria de Estado da Cultura pode pôr a perder um projeto musical público de grande repercussão e sucesso", reclamou Nelson Rubens Kunze, diretor e editor da revista Concerto, no site da publicação."Houve briga interna, foi muito difícil", diz Ronaldo Bianchi. "Mas a gente reduziu custos, não aumentou. Isso vai gerar uma economia de R$ 1 milhão, R$ 1 milhão e meio por ano", afirmou. Ontem, a Apaa já publicava nos jornais anúncio de contratação de pessoal, músicos, técnicos e administradores."Nestes anos, administrado pelo Centro Tom Jobim, o Festival de Inverno de Campos de Jordão, dirigido pelo maestro Roberto Minczuk, reforçou sua orientação clássica e missão pedagógica, realizando edições memoráveis; a ULM reorganizou-se como um escola moderna e com orientação pedagógica competente e profissional; transformou-se em paradigma de estudo musical público no Brasil; e as orquestras reencontram sua vocação participando ativamente do calendário cultural", continua Kunze.À Apaa, ficará a incumbência de zelar para que tanto a Orquestra Jazz Sinfônica quanto a Banda Sinfônica cumpram um programa mínimo, definido da seguinte maneira no contrato: "Apresentar concertos, audições e programas culturais para toda a população, buscando expandir o atendimento através de apresentações em espaços variados na cidade de São Paulo, no interior do Estado, no Brasil e exterior."Como a Apaa já administra teatros, salões de artes, exposições, a Virada Cultural, prêmio literário e outros eventos, os críticos da mudança acreditam que haverá uma confusão de funções. O secretário-adjunto de Cultura do Estado não vê motivos para preocupação. "As bandas tocam sozinhas, os maestros se operam, organizam. Não dá confusão, a OS cuida apenas de administrar e facilitar as tarefas dos maestros." SUPERESTRUTURAO contrato de R$ 133 milhões que a Apaa assinou no sábado com a Secretaria de Estado da Cultura faz com que a OS passe a administrar uma verba de cerca de R$ 230 milhões nos próximos três anos, o que lhe dá uma dimensão maior do que muitas secretarias do País - maior do que a de Minas Gerais, por exemplo. O contrato foi o último assinado pelo diretor da Apaa, Vicente Amato Filho, morto no dia 8, aos 69 anos. A Apaa foi criada em 2004 e opera no Teatro Sérgio Cardoso. Administra seis teatros e organiza eventos como o Circuito Cultural, o Vá ao Cinema, o Prêmio Nacional de Literatura, a Virada Cultural e outros 800 eventos. Até alguns meses, não tinha nem sequer telefone próprio.

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