Suíte de concerto é evocação de tempo mágico na França

José Antonio de Almeida Prado sai-se bem de desafio de compor partitura para acompanhar filme Études Sur Paris, de 1928

Crítica Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

17 de agosto de 2009 | 00h00

O desafio de compor uma partitura de 76 minutos para acompanhar o filme Études Sur Paris, de André Sauvage, de 1928, foi enfrentado por José Antonio de Almeida Prado, em 2008, a convite do maestro John Neschling. A estreia da peça, quinta-feira - dentro das comemorações do Ano da França no Brasil e da 3ª Jornada Brasileira do Cinema Silencioso - constituiu-se numa declaração de amor à cidade na qual o compositor morou e estudou.Basicamente tonal, mas com um uso livre de dissonâncias e outros recursos de vanguarda; escrita para uma orquestra enorme, cujos timbres e coloridos orquestrais são explorados ricamente, Études articula-se em episódios que vão se encadeando, ao longo das sequências do filme. E aos quais Cláudio Cruz e a Osesp deram um tratamento entusiasmado, que realçou cada um de seus aspectos.Chegamos a Paris pelo Canal de l?Ourcque, e o primeiro episódio, com nítido aceno ao impressionismo, sugere a ondulação das águas do Sena, no caminho para a cidade. Mas Almeida Prado opta por não dar um sentido literal e descritivo à sua música: não utiliza, por exemplo, ritmos motóricos para sugerir a presença das máquinas ou das fábricas ao longo do rio. Escreve, eventualmente, passagens atmosféricas, mas, de um modo geral, imprime à sua trilha ritmo próprio, fruto de sua reação subjetiva às imagens que desfilam diante de seus olhos.Ao entrarmos na cidade, surge o tema que será o motivo recorrente da partitura: uma "valsinha de bairro" de corte melódico sensual, apresentada pela musette, o típico acordeom parisiense. Retomada pelas cordas, e depois pelos metais, ela reaparecerá ora como um solo de trompete, ora desconstruída pelo trombone, ou convertida em uma virtuosística cadência para acordeom. Mas Almeida Prado foge do recurso de fazer pastiches alusivos a locais como o Opéra, o Moulin Rouge ou o Panthéon. Há uma citação, sim: a do nobre tema da Messe de Notre-Dame, de Guillaume de Machaut, quando Sauvage nos leva ao alto das torres da catedral para, ao lado de suas gárgulas, contemplar a cidade lá em baixo. E o nome de B.A.C.H. fornece a melodia para a valsa que se ouve, ao visitarmos as ilhas do Sena, no centro da cidade. Mas essas são citações que se integram muito naturalmente ao fluxo narrativo paralelo criado pela música.Isso garante a Études sur Paris a existência como suíte de concerto, independentemente das imagens do filme. Um momento que, por si só, poderia subsistir como uma obra para orquestra é a sequência de cinco variações sobre o tema da conhecida canção Plaisir d?Amour, do padre Giovanni Martini, apresentada pelo cravo e retrabalhada pela orquestra com grande riqueza de possibilidades sonoras. A correlação entre imagem e som, como dissemos, é sempre muito livre. Se, na seção final do filme, o piano entoa um melancólico Tango de Paris, 1928, isso tem menos a ver com os lugares que nos estão sendo mostrados, do que com a evocação nostálgica - através de um ritmo que era extremamente popular naquela época - de uma Paris perdida, de um tempo mágico, que ficou para sempre congelado na lembrança.E é muito bonito o fato de a passagem que mais relembra o seu mestre Olivier Messiaen - a melodia que surge no piano e no xilofone - ter sido deixada por Almeida Prado para as sequências finais, em que Sauvage fala dos poetas, e mostra crianças brincando no Jardin du Luxembourg. Imagens e música que fecham o filme com um tom docemente melancólico.

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