Sucesso na TV foi a pá de cal do Planeta

Em 1992, o trio migrou para a Globo com outro êxito, Casseta e Planeta

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

12 de janeiro de 2008 | 00h00

Alvos principais das brincadeiras e sátiras do Planeta Diário, as personalidades reagiam com prudência: ou entravam no clima, ou preferiam o silêncio. Tanto uma como outra, na verdade, não eram soluções fáceis. O poeta Ferreira Gullar, por exemplo, foi tema de praticamente uma edição inteira do jornal, em que os redatores propunham a seguinte discussão: ''''Você acha o Gullar um gato?''''A repercussão foi tamanha que o poeta não podia sair nas ruas cariocas sem que alguém o chamasse de gatão. Dizem que Gullar tinha se aborrecido mas, na época, Reinaldo desmentia: ''''Ele até gostou: com aquela campanha, arrumou um monte de mulher.''''A liberdade de escolha era o grande trunfo do Planeta Diário. A saraivada de golpes não perdoava a esquerda ou a direita. Em 1985, quando Jânio Quadros anunciava sua disposição de disputar o cargo de prefeito de São Paulo, o jornal colocou como manchete: ''''Jânio é um gênio.'''' E, ao lado de uma foto da personagem do seriado Jeannie É Um Gênio, estampou: ''''O famoso gênio político brasileiro, Jânio Quadros, declarou anteontem que pretende voltar à Prefeitura de São Paulo. E acrescentou: ''''Boemiiiia, aqui me tens de regresso.'''''''' Nem o candidato derrotado por Jânio na disputa, Fernando Henrique Cardoso, escapou - em uma entrevista fictícia, ele declarou: ''''Sou viciado em maconha e Deus é o ópio do povo.''''Reinaldo e Hubert reconhecem a influência do Pasquim na criação dos textos e na diagramação anárquica, mas preferem concentrar louvores para um de seus colaboradores, Ivan Lessa, a verdadeira fonte de inspiração. Auto-exilado em Londres, Lessa sempre atacou, com um humor ácido, todas as trapalhadas e breguices da sociedade e política brasileiras. Exemplos? ''''No Brasil, morre-se muito de médico.'''' Ou ''''O brasileiro é um povo com os pés no chão - e as mãos também''''. E ainda: ''''Todos os editoriais da imprensa brasileira têm dois dedos de testa e são escritos numa escola militar do Panamá.''''Hubert lembra que também o trabalho de quadrinistas paulistas, como Laerte e Glauco, inspiravam suas tiradas. ''''Embora parecesse com brincadeira de moleques, fazíamos tudo com paixão, carinho e cuidado.'''' Era habitual, portanto, o humor vir da combinação entre texto e imagem. Acima do título ''''Wilza Carla explode na Terça-Feira Gorda'''', por exemplo, saiu a célebre foto da explosão do ônibus espacial Challenger.Até o formato da publicidade era utilizado como forma de humor. Em um dos números, por exemplo, uma fotomontagem apresentava uma lata com a foto de Aureliano Chaves, vice-presidente da República no governo de João Baptista Figueiredo (1979-1985) mais conhecido por utilizar, de forma peculiar, a língua portuguesa. Sobre a foto, os dizeres: ''''Diet Aureliano - Menas Calorias.''''A política, no entanto, foi responsável pelas raras freadas que o trio foi obrigado a fazer. Quando Tancredo Neves morreu, por exemplo, no dia 21 de abril de 1985, o País entrou em verdadeira comoção, que já se arrastava desde sua internação médica e o impedimento de tomar posse como presidente da República. ''''Quase fizemos uma piada, mas evitamos'''', lembra Reinaldo. ''''Mas, fizemos um mês depois. O segredo era ter o timing certo para as brincadeiras.''''Em 1987, sob pressão judicial, o Planeta foi obrigado a renunciar ao uso da personagem Perry White e da imagem do Super-Homem, propriedades intelectuais da DC Comics. Em editorial, Perry (não mencionado pelo nome) conta que teria perdido o jornal (que, por outro lado, ainda mantinha seu nome original) em uma mesa de pôquer para suas filhas Georgette, Margarette e Anette White. O espaço do Super-Homem no cabeçalho foi ocupado nas edições seguintes por um busto da Escrava Anastácia.O sucesso foi, curiosamente, a pá de cal do Planeta Diário, em 1992. Seus criadores logo migraram para a televisão e fundaram o Casseta e Planeta. ''''Aí neguinho já não queria mais pagar pela piada que ele tinha de graça na tevê'''', explica Hubert.

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