Sucesso de cópia pirata antecipa o lançamento de Tropa de Elite

O diretor José Padilha tenta finalizar o seu primeiro longa para garantir a estréia nas telas em outubro

Roberta Pennafort, , RIO, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2001 | 00h00

Não há quem explique o fenômeno em que se transformou Tropa de Elite. O filme do diretor estreante em longas José Padilha (do contundente documentário Ônibus 174, de 2002) só deveria chegar aos cinemas em novembro. No entanto, uma versão inacabada, copiada por técnicos da empresa contratada para fazer as legendas em inglês, está desde o início de agosto nas mãos dos piratas e nos aparelhos de DVD de um sem-número de brasileiros (cariocas, majoritariamente).A inimaginável repercussão do pirata, que tanto pode ser encontrado com camelôs no Rio, São Paulo e outras capitais, quanto disponibilizado para download na internet, está fazendo com que os atores, mesmo os desconhecidos, já sejam abordados como astros de cinema - à exceção de Wagner Moura e Fernanda Machado, ambos destaques em Paraíso Tropical, a maior parte do elenco andaria despercebida pelas ruas do Rio.''''Fui a uma pizzaria da zona sul do Rio com o ator André Ramiro, que era bilheteiro de cinema até pouco tempo atrás, e as pessoas pararam para cumprimentá-lo'''', contou Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) que trabalhou no roteiro com Padilha e Bráulio Mantovani. José Ramiro faz um dos personagens mais importantes do longa, que aborda o cotidiano do Bope, a tal tropa de elite da Polícia Militar fluminense.Atordoado, nem mesmo Padilha encontrou a razão para o sucesso marginal, que fez com que a estréia fosse antecipada. ''''Não sei dizer o que gera esse interesse. Talvez seja pelo fato de darmos ao espectador uma visão global sobre três universos: o da classe média, que financia o tráfico ao consumir drogas, o da PM, que é mal remunerada, e o dos traficantes. Todo mundo se identifica com alguém no filme'''', disse o cineasta ao Estado na quinta-feira, num tom ora revoltado, ora resignado.Nas últimas semanas, ele vem colecionando histórias surrealistas. Outro dia, entrou num táxi e o motorista disparou: ''''Já viu o Tropa de Elite? Eu adorei!'''' Padilha não revelou a identidade e o homem continuou: ''''Quero ver Tropa de Elite 2.'''' ''''O cara acha que o filme que vai ser lançado é uma continuação, tipo Rambo.'''' Ele também soube que turmas de crianças sabem diálogos de cor e os repetem na escola. Em diversos pontos do Rio, sessões clandestinas reúnem grupinhos. O filme também roda por quartéis da PM.O curioso é que Tropa de Elite vende como água num território dominado pelos blockbusters norte-americanos, como Shrek, Piratas do Caribe e Homem-Aranha (três dos DVDs piratas mais comercializados este ano pelos ambulantes cariocas). Não é a primeira vez que um título brasileiro é vendido nas ruas; o ineditismo está no fato de isso ter-se dado muito antes de ele alcançar a telona.O filme vazou depois que técnicos da Drei Marc, já identificados, fizeram cópias da versão que estava na empresa, supostamente sem intenção de lucrar com elas. Um deles será indiciado pela polícia e demitido. Agora, Padilha corre para conseguir finalizar o filme a tempo de exibi-lo em 20 de setembro, na abertura do Festival do Rio, e estreá-lo em outubro. Para tal, o diretor vai a Los Angeles na semana que vem. ''''O filme acabado é muito melhor do que o pirata. O jogo começou antes de o juiz apitar, mas não vou jogar a toalha'''', prometeu.

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