Suave festa pós-moderna une jazz e hits da televisão

Trio criou para o balé uma música consistente, de voo próprio

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

12 de agosto de 2009 | 00h00

Os 13 temas musicais compostos pelo trio Domenico, Moreno e Kassim para a trilha do novo balé do Grupo Corpo voam sozinhos, têm suave autonomia e estão embalados em sólido invólucro. O motivo é o amplo leque de ingredientes sonoros adicionados ao lote, especialmente o senso de humor e a leveza instrumental - uma das faixas do trio leva o nome de Padre Baloeiro, o que dá a medida de seu timing de molecagem.A viagem começa pelo jazz, na faixa Chorume. É um passeio por ecos do jazz de vanguarda nova-iorquino, algo como uma jam da Liberation Orchestra de Charlie Haden com um warming up de Charles Mingus - à base de baixo e trompete. Dali, pula para Jogada Infantil, realizada como uma espécie de samba de apito.São temas muito curtos, de mais ou menos um minuto e meio cada um, mas muito consistentes. Um imaginário de infância televisiva permeia certas partes, como em Você Reclama, musiqueta que evoca Gilberto Gil e seu tema para o Sítio do Picapau Amarelo. Em Broto de Bambu, uma percussão de cowbells ao fundo marca o som, como se um rebanho de cabras passasse pelo fundo. Em Volta de Você (um pouquinho mais longa, cerca de 2 minutos e meio) tem um clima meio Morricone, western spaghetti com guitarras, com eletricidade urbana.Animais Sem Asas traz a estrada para o Oriente, mas o som e as vocalizações lembram também o "piano de dedo" do grupo congolês Konono Nº 1. Na faixa Sopro, pinta uma grande homenagem dos três parceiros ao jazz revolucionário de Miles Davis e outros gigantes das transições dos anos 1950, do hard bop e do bebop. Um clima de invenção à Chelpa Ferro é impresso no tema Percepção, com o contrabaixo criando um portal ondulado para a música de câmara.Moderna e sedutora, a música criada pelo trio proporciona ao balé do Corpo um agradável encontro de novíssimas tradições, dos alemães do Einsturzende Neubauten ao pernambucano DJ Dolores. Ímã magnetiza tudo isso no interior desse carnaval pós-moderno.

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