Sua posição era singular na sociedade

Rico, culto, elegante, Alfredo Mesquita dava a medida da importância dos atores

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

01 de dezembro de 2007 | 00h00

É biografia, mas tem sabor de literatura a forma como Marta Góes narra o que ia pela cabeça e pelo coração de alguns alunos ao pisarem pela primeira vez na Escola de Arte Dramática. Por exemplo, a perplexidade em sua primeira visita, em 1948, de um jovem alfaiate curioso, que mal sabia o que era teatro, e encontra Cacilda Becker dando aula, a quem pergunta, timidamente, o que se faz para estudar ali. Era Leonardo Villar, que mais tarde vai brilhar como ator no filme O Pagador de Promessas. Na turma de Cacilda, sentado na primeira fila, estava o então protético José Renato, mais tarde fundador do Arena.Ambos estão entre as muitas fontes da pesquisa realizada por Marta para escrever o livro Alfredo Mesquita - Um Grã-Fino na Contramão, biografia do escritor, diretor e criador da Escola de Arte Dramática. Marta foi até o Teatro dos Arcos ouvir José Renato, hoje com 82 anos. Mas não se limitou a reproduzir sua entrevista. Nas primeiras páginas, no capítulo intitulado A Casa Deles, ela recria a atmosfera da época a partir das memórias dos primeiros alunos, entre eles Miriam Mehler, Francisco Cuoco, Glória Menezes, Juca de Oliveira, Sérgio Mamberti, Ilka Zanotto, Celso Nunes e Aracy Balabanian.Compartilhar com o leitor o espanto daqueles alunos não é só artifício literário. ''''A grande obra de Alfredo Mesquita foi a Escola de Arte Dramática. Aquele homem culto, elegante, requintado e rico era quem dava a medida da importância dos atores numa época em que a profissão ainda era vista como marginal. Ele proporcionou o encontro de estudantes pobres com a nata da intelectualidade. Hoje são esses artistas, com seu renome, sua fama, sua contribuição ao teatro, que dão a medida da importância dele. Essa inversão é fascinante'''', diz Marta. ''''Entrevistei muita gente, queria ter feito mais ainda, e ouvi histórias de passagem da pobreza à prosperidade, da ignorância ao conhecimento, do anonimato à fama, histórias comoventes; só ouvi-las já me deu imenso prazer. Adorei fazer esse livro, o tempo todo.''''Ela conta que ao ser convidada, há três anos, aceitou escrever a biografia porque achou o tema interessante, mas não muito mais que isso. ''''Passei minha vida em São Paulo, sabia da importância dele, mas não tinha qualquer relação afetiva.'''' Porém tudo mudou depois de alguns meses de pesquisa. ''''Percebi antes de tudo que estava diante de um personagem simbólico de uma passagem de era, profundamente admirado na década de 50, que ardeu na fogueira de 68. Os valores que Alfredo Mesquita representava, novamente bárbaros aos olhos de hoje, subitamente tornaram suspeitos em 68, com a ascensão da juventude ao poder. Com o agravante, no Brasil, que passaram a ser associados à ditadura e à opressão.''''Em seu livro, Marta consegue dar a medida, para quem não viveu, do clima de convívio fraterno entre alunos de diferentes classes sociais nas duas primeiras décadas da EAD. E desenha com clareza o perfil do dr. Alfredo, como ele era chamado, como elemento agregador, empenhado em dignificar o ofício do ator por meio de formação sólida. ''''Antes de 1968 era possível a convivência gentil de pessoas de pensamentos diferentes, num fórum de múltiplas tendências, mas a partir daí a polarização que tomou conta do País contaminou também as relações na EAD.''''Apesar de considerar o mais importante legado de Alfredo Mesquita, a autora não se restringe à escola. Explora iniciativas igualmente relevantes para a vida intelectual da cidade, como a fundação da Revista Clima ou da Livraria Jaraguá. Porém chama atenção a forma delicada e corajosa como ela se debruça sobre a história familiar do dr. Alfredo. ''''Foi outro aspecto que me atraiu nesse trabalho. Afinal, trata-se do filho caçula de uma família influente desde a fundação da República, proprietários do jornal O Estado de S. Paulo, cujos membros sempre estiveram no centro dos acontecimentos. Mas na qual ele era um outsider. Isso faz dele um personagem muito original'''', diz Marta.A autora aborda a relação de seu biografado com sua família, sobretudo ao narrar a história da ocupação do jornal - sob pressão, durante a ditadura Vargas - e sua posterior recuperação. Por conta disso, o irmão mais velho, Julio de Mesquita Filho, irá cortar relações por toda sua vida com o caçula. Curiosamente, o jornal contrata os mesmos intelectuais lançados por Alfredo Mesquita na Revista Clima - o crítico teatral Décio de Almeida Prado entre eles - para criar o Suplemento Literário do Estado.Ela conta ainda a importância, na vida de Alfredo Mesquita, de sua participação na Revolução Constitucionalista de 1932, que lhe valeu, como a seus irmãos, um doloroso período de prisão. Curiosamente, a prisão de Ilha Grande se reverterá num período de real troca afetiva entre Alfredo e seu irmão Francisco. ''''É relevante que ele tenha conseguido efetivamente se aproximar de seu irmão na guerra, numa cela, e não num jantar em família.'''' Mas a prisão vai servir também para fortalecer a auto-imagem desse caçula que se imaginava como um ''''fracote'''' e surpreende até a si mesmo ao lutar no front e enfrentar a prisão como os demais, sem fraquejar.Também chama atenção a forma como ela valoriza uma faceta bem pouco conhecida desse educador - a de contista. ''''Li muitos de seus contos com muito prazer.'''' Se eram mesmo bons, como ela avalia no livro, por que esse talento não foi reconhecido? ''''Ele tinha um lugar singular na sociedade. Se era elogiado, parecia que era só por ele ser poderoso. Era difícil falar francamente de sua obra literária.'''' No livro, ela conta a repercussão da crítica negativa de Antonio Candido ao único romance escrito por Alfredo. ''''Foi um ato de coragem escrever aquele texto e na Revista Clima'''', diz Marta.Mas ao fim e ao cabo, ela conclui que a Escola de Arte Dramática é mesmo a grande obra de Alfredo Mesquita. ''''As pessoas que passaram por lá se beneficiam disso até hoje.'''' Nas última páginas, ela capta as impressões de quem por lá passou recentemente, como Gero Camilo, formado em 1998, que queria ser padre quando descobriu a escola, e apenas ouviu falar de Alfredo Mesquita, mas afirma: ''''Penso nele e sou grato.''''

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